
Dietas sem alimentos de origem animal exigem suplementação e levantam debate sobre acesso e nutrição.
Gisele Bündchen abandonou a dieta vegana. Nada ideológico. Sua decisão dependeu da própria saúde. Sem ingerir carne, seu corpo sofria.
Anemia é o problema agudo causado pelo vegetarianismo, pois a vitamina B12, essencial no desenvolvimento de glóbulos vermelhos, é típica de produtos de origem animal. A deficiência de ferro também complica a vida dos veganos.
Gisele lutou contra a anemia tomando suplementos e, para repor o ferro, passou a comer muito feijão. Gases se tornaram insuportáveis. O relato dela chega a ser hilariante: “Ficar com gases e inchada não é legal, claro, e também não é ideal para um trabalho que envolve usar biquínis ou lingerie”. Flatulência espanta a passarela da moda.
O veganismo tem deixado médicos preocupados, principalmente quando adotado por certo modismo, inserido na cultura woke do politicamente correto. Em nome da solidariedade com os animais, ou ainda por crença religiosa, maltrata seu próprio corpo. E a mente padece junto.
Quem afirma é a ciência: só os alimentos de origem animal contêm os 9 aminoácidos essenciais, não sintetizados pelo próprio corpo humano, necessários para a síntese proteica. São eles: histidina, isoleucina, leucina, lisina, metionina, fenilalanina, treonina, triptofano e valina.
Carnes, ovos e leite mostram inequívoca vantagem alimentar sobre os cereais e frutas. Castanhas e nozes aproximam-se da carne, em valor proteico, porém são escassos e caros.
Por isso, a história se confunde com o consumo humano de produtos animais, incluindo o mel. Sabe-se, inclusive, que na pré-história a ingestão de tutano dos ossos foi decisiva no crescimento do cérebro de hominídeos. Nesse sentido, abolir a ingestão de alimentos de origem animal é uma atitude antinatural, um comportamento artificializado.
Ecologistas veganos se esquecem da evolução humana sobre o planeta Terra. Se fosse uma opção individual, tudo bem. Cada um coma o que quiser. Alguns pregam, porém, a proibição da pecuária, sem imaginar o dano civilizatório que causaria.
Em nosso livro “Agricultura, fatos e mitos”, Décio Gazzoni, Maria Thereza Pedroso e eu analisamos o que denominamos de “a hipótese vegana”: seria possível o ser humano se alimentar bem só com proteína vegetal? Como se comportaria a agricultura mundial nessa hipótese? Resultado: se instalaria o caos na agricultura mundial, levando ao baque na população global.
Os dados da FAO/ONU indicam que a maior parte da área ocupada no campo, ao redor de 70%, serve à produção de alimentos animais. Ou são pastagens (um total de 3,2 bilhões de hectares) ou são áreas agrícolas que produzem grãos destinados à fabricação de rações (426,9 milhões de hectares, considerando 30% da área total de agricultura).
Se, por hipótese, a alimentação humana deixasse de contemplar produtos animais, essas decorrências poderiam ser observadas:
*Aumentaria a área cultivada de vários cereais e cairia fortemente a área ocupada com soja;
*Áreas de pastagem, existentes em solos mais pedregosos, onde são criados caprinos, ovinos e grande parte do gado leiteiro, ficariam sem uso agrícola;
*Com a queda da demanda, haveria total desestruturação das cadeias de valor do agronegócio, causando desemprego no campo e nas cidades;
*Milhões de pequenos pastores e pecuaristas, aqui no Brasil chamados de familiares, se empobreceriam e perderiam sua função, tendo que encontrar novas ocupações para sobreviver;
*Os mais ricos levariam enorme vantagem, os mais pobres seriam penalizados, causando miséria mundial.
Tem vegano que se julga revolucionário. Na verdade, pertence a uma elite da sociedade que se julga superior, capaz de ditar regras para a massa da população, como se todos fossem ignorantes. E os charlatões adoram essa agenda.
Médicos vigaristas e influencers negacionistas se enriquecem dizendo que o leite da vaca mata pessoas, o ovo faz mal à saúde, o frango está cheio de antibióticos, a carne vermelha causa câncer. Todos vendem algum produto alternativo. Vivem do terrorismo alimentar.
É preocupante. Nada indica, todavia, que depois de milhares de anos de evolução, haverá uma grande modificação nas dietas alimentares. Nem os agricultores darão marcha-à-ré na agenda do bem-estar animal e da agricultura sustentável. Pelo contrário.
Aristóteles, expressão máxima da clássica filosofia grega, enaltecia as virtudes cardeais da prudência, da justiça, da coragem e da moderação. Se Platão fosse escrever sobre o veganismo, o trataria como pura paixão.
Zero de sabedoria.

Xico Graziano é engenheiro agrônomo e doutor em administração.
Artigo publicado originalmente no Poder360 e gentilmente cedido pelo autor à SNA.






