Nota técnica da Embrapa alerta para El Niño

Nota técnica aponta possibilidade de El Niño de forte intensidade até o início de 2027, com maior risco de chuvas abaixo da média no Centro-Norte e excesso de precipitações no Sul – Foto: Canva

A possibilidade de um El Niño de forte intensidade entre 2026 e 2027 coloca a agropecuária brasileira diante de um cenário de maior atenção aos riscos climáticos. Em nota técnica divulgada nesta terça-feira (1º/9), a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da média em extensas áreas do Centro-Norte do país e de precipitações acima da média na região Sul. O documento reúne 163 medidas de gestão de riscos destinadas a reduzir possíveis perdas e ampliar a resiliência dos sistemas produtivos.

Grupo de Trabalho El Niño

Elaborada pela Rede Zarc Embrapa, a publicação integra as contribuições da empresa ao Grupo de Trabalho El Niño, instituído pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) por meio da Portaria nº 928, de 30 de junho de 2026. O grupo reúne representantes do MAPA, do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e da Embrapa e tem, entre suas atribuições, avaliar vulnerabilidades e potenciais impactos do fenômeno sobre a agropecuária.

Sem determinação de perdas ou ganhos

De acordo com o documento, as informações disponíveis em agosto indicam a ocorrência de um El Niño com possibilidade de forte intensidade e permanência até o início de 2027. A Embrapa ressalta, entretanto, que o fenômeno não permite determinar antecipadamente perdas ou ganhos de produtividade, já que os efeitos variam de acordo com a região, cultura, intensidade e distribuição dos eventos meteorológicos.

As projeções climáticas indicam um contraste importante entre as regiões brasileiras. Para o trimestre entre setembro e novembro, os modelos analisados apontam maior probabilidade de precipitação abaixo da média em grande parte do Centro-Norte e acima da média no Sul. Já no trimestre entre novembro e janeiro, o risco de chuva abaixo da média se intensifica na região Norte, enquanto a região Sul mantém maior probabilidade de precipitações acima da média.

Cinco principais riscos

A Embrapa destaca cinco eventos meteorológicos adversos que devem receber atenção durante o episódio o atraso ou irregularidade no início da estação chuvosa; chuvas abaixo da média e déficit hídrico prolongado; temperaturas elevadas e ondas de calor; chuvas acima da média; e tempestades convectivas severas, que podem incluir granizo, chuvas torrenciais e tornados.

Esses riscos podem afetar diferentes segmentos da produção brasileira, entre eles grãos e algodão, fruticultura, silvicultura, olericultura, pastagens e pecuária, culturas industriais a exemplo do café, mandioca, cana-de-açúcar e citros, além da e aquicultura continental e marinha.

Experiências anteriores

A experiência de eventos anteriores reforça a necessidade de atenção. A nota técnica lembra que o El Niño de 2023-2024 esteve associado, durante a primavera, a chuvas abaixo da média em grande parte das regiões Norte, Centro-Oeste e Sudeste e a precipitações acima da média no Sul. No outono de 2024, municípios do Rio Grande do Sul chegaram a registrar entre 500 e 700 milímetros de chuva em poucos dias, contribuindo para o maior desastre climático já registrado no estado.

Gestão de riscos deve começar antes dos extremos

Para a Embrapa, o principal desafio não é apenas responder às ocorrências climáticas depois que elas acontecem, mas antecipar os riscos. A nota técnica organiza as ações em quatro estratégias: prevenção ou evasão do risco, redução dos impactos, transferência do risco e retenção do risco remanescente.

Entre as recomendações gerais estão o acompanhamento permanente das previsões meteorológicas e do fenômeno El Niño, utilização de dados meteorológicos locais e do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), diversificação da produção, adoção de sistemas integrados, conservação do solo e da água, elaboração de planos de contingência e manutenção de infraestrutura resiliente.

Irrigação e drenagem

A empresa também recomenda o uso de irrigação e drenagem, escolha de materiais genéticos adaptados, planejamento das operações agrícolas de acordo com as condições meteorológicas, contratação de seguro rural e utilização do Proagro, além da criação de reservas financeiras para enfrentar eventuais perdas.

As medidas devem ser adaptadas às características de cada propriedade. A Embrapa ressalta que nenhuma ação deve ser adotada de forma isolada ou automática, pois a eficiência depende do risco predominante, da cultura, do sistema produtivo, das condições de solo e clima, da capacidade técnica e operacional e da viabilidade econômica.

Atenção para incêndios

O cenário de seca, calor e baixa umidade previsto para algumas regiões também aumenta a preocupação com incêndios rurais e florestais. Entre as medidas propostas está o fortalecimento da capacidade nacional de prevenção, detecção e combate a esses eventos, com o objetivo de reduzir perdas ambientais, produtivas, econômicas e de infraestrutura.

Nas propriedades, a Embrapa recomenda, entre outras ações, planejamento de sistemas de prevenção e combate a incêndios, manutenção de aceiros, controle de fontes de ignição, conservação dos acessos e disponibilidade de água e equipamentos para uma primeira resposta.

Política pública

Além das ações diretamente voltadas aos produtores, a nota técnica defende o fortalecimento das políticas públicas de adaptação. Entre as prioridades estão a ampliação do Seguro Rural, o aperfeiçoamento do crédito e do Proagro, o fortalecimento do Zarc e dos sistemas de monitoramento meteorológico e climático e a criação de mecanismos nacionais para monitorar e quantificar perdas agrícolas.

Ampliação de linhas de investimento

O documento também propõe ampliar linhas de financiamento para investimentos em segurança hídrica, irrigação, drenagem, conservação do solo e da água, sistemas integrados, cultivo protegido, sombreamento, armazenagem, prevenção de incêndios e infraestrutura resiliente.

Ao todo, são 163 medidas, sendo 14 transversais, 139 específicas para os diferentes segmentos produtivos e dez relacionadas a ações viabilizadoras e instrumentos de política pública. Para a Embrapa, o legado do trabalho deve ir além da resposta ao El Niño 2026/27 e contribuir para consolidar uma política permanente de gestão de riscos agroclimáticos no país.

Confira a nota técnica El Nino 2026-2027

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
Com informações da Embrapa
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