
O setor de pescados brasileiro vive um momento de transição no comércio exterior, marcado por oscilações recentes e expectativa de recuperação ao longo de 2026. Após um desempenho moderado em 2025, as exportações de peixe enfrentaram queda no início deste ano, ao mesmo tempo em que mudanças no cenário internacional reacenderam projeções positivas para os próximos meses.
Dados da Embrapa Pesca e Aquicultura mostram que, no primeiro trimestre de 2026, as exportações da piscicultura somaram US$ 11,2 milhões, uma retração de 39% em relação ao mesmo período de 2025. Em volume, os embarques caíram 41%, totalizando cerca de 2,3 mil toneladas.
Apesar do recuo, houve sinais de reação ao longo do trimestre, com crescimento gradual das exportações entre janeiro e março, impulsionado pela redução de barreiras comerciais, especialmente nos Estados Unidos, principal destino do pescado brasileiro.
Tilápia domina exportações
A tilápia segue como o principal produto exportado, respondendo por mais de 90% da receita do setor. No primeiro trimestre de 2026, a espécie gerou cerca de US$ 10,2 milhões, mesmo com queda de aproximadamente 40% na comparação anual.
O protagonismo da tilápia já vinha sendo observado em 2025, quando representou cerca de 94% das exportações brasileiras de pescado de cultivo, consolidando-se como carro-chefe da piscicultura nacional. Além da tilápia, espécies como tambaqui, pacu e surubim aparecem com participação menor, ainda que com potencial de crescimento, sobretudo em nichos específicos de mercado.
Dependência dos Estados Unidos e impacto tarifário
Os Estados Unidos continuam sendo o principal mercado para o peixe brasileiro, absorvendo entre 78% e 87% das exportações, dependendo do período analisado. Essa forte dependência ficou evidente em 2025, quando tarifas de até 50% impostas pelo governo norte-americano reduziram a competitividade do produto brasileiro, impactando contratos e produção.
Já em 2026, a suspensão parcial dessas tarifas com redução para cerca de 10% a 15% permitiu a retomada gradual dos embarques, sobretudo de filés frescos de tilápia, contribuindo para a melhora observada no final do primeiro trimestre.
Perspectiva de crescimento
Apesar da queda inicial em 2026, o cenário prospectivo é positivo. A Associação Brasileira das Indústrias de Pescados projeta que as exportações brasileiras de pescados podem atingir cerca de US$ 600 milhões ao longo do ano, impulsionadas pela reabertura do mercado norte-americano e pela recuperação da competitividade internacional.
Além disso, há esforços institucionais para diversificar destinos e reduzir a dependência dos Estados Unidos, com foco em mercados como Canadá, México e potencial reaproximação com a União Europeia.
Desafios estruturais
Mesmo com perspectivas de crescimento, o setor enfrenta desafios relevantes. O Brasil ainda apresenta déficit na balança comercial de pescados, com importações superiores às exportações, impulsionadas principalmente pelo consumo de espécies como salmão e pangasius.
Outro ponto crítico é a concorrência internacional, especialmente de países asiáticos, que operam com custos mais baixos e maior escala produtiva. Além disso, especialistas apontam a necessidade de diversificação da pauta exportadora, investimento em industrialização e ampliação de mercados como fatores essenciais para sustentar o crescimento no longo prazo.
Um setor em consolidação
Com produção superior a 1 milhão de toneladas em 2025, o Brasil se consolida como um dos principais produtores globais de pescado de cultivo. No entanto, a evolução das exportações dependerá da capacidade do setor de reduzir vulnerabilidades externas, agregar valor aos produtos e atender às exigências sanitárias e comerciais dos mercados internacionais. Entre avanços e desafios, a piscicultura brasileira segue em processo de consolidação no comércio global, com a tilápia como principal vetor de expansão.






