A lição do Mato Grosso sobre a prosperidade. Por Xico Graziano

Quem vai a Mato Grosso ou outras regiões dominadas pela agricultura moderna e tecnológica percebe o imenso potencial de nosso país, diz o articulista; na imagem, soja produzida no Mato Grosso. Foto: Divulgação Aprosoja

Estado combina equilíbrio fiscal, expansão do agro e avanços na educação, tornando-se exemplo de desenvolvimento.

Na virada do século, em 2001, o Brasil bateu um recorde de produção agrícola, colhendo 97,4 milhões de toneladas de grãos. Pratini de Moraes, então ministro da Agricultura (governo FHC), a denominou de uma “supersafra”.

Passados 25 anos, estando em curso a colheita no campo, o Estado de Mato Grosso deverá atingir, sozinho, a produção de 109 milhões de toneladas de grãos. Sua participação na safra nacional subiu de 13,6% (2001) para 30,4% (2026). É incrível.

“Estamos apenas começando nossa jornada”, afirmou Otaviano Pivetta, atual governador de Mato Grosso, em reunião organizada pelo Lide Agro, na semana passada, em Cuiabá. Agricultor gaúcho, daqueles que migraram, na década de 1980, acreditando no progresso, o ex-prefeito de Lucas do Rio Verde fala com orgulho de seu Estado adotivo, que agora comanda.

“Nós assumimos o nosso próprio destino”, ressalta, ao contar que, depois de aguardarem por anos as melhorias na rodovia BR-163, o governo estadual, liderado ainda por Mauro Mendes, decidiu assumir, com recursos próprios, a duplicação da importante via de transporte federal, que liga Cuiabá a Santarém, no Pará.

A boa situação financeira

A altivez do governo mato-grossense contrasta com o tradicional costume da submissão política ao poder central, que forma filas de pedintes em Brasília, buscando privilégios e devolvendo lealdades, nem sempre confessáveis. Mato Grosso deu um grito de liberdade, apostando em si.

A ousadia se ampara, certamente, na boa situação financeira do governo estadual, que não caiu do céu. Realizando a lição de casa desde 2019, Mato Grosso colocou em ordem as contas públicas, que estavam arrebentadas. Austero, buscou o equilíbrio fiscal e reduziu o endividamento do Estado de 46% para 16% da receita corrente líquida (RCL). Recebeu nota A do Tesouro Nacional.

Daí para a frente, favorecido pelo ciclo de elevada rentabilidade do agronegócio, organizou os investimentos e deslanchou. Sua prosperidade se destaca, recentemente, nas enormes destilarias de etanol de milho, cuja bioenergia não só contribui para a sustentabilidade, mas produz, também, montanhas de DDG, como se denomina o resíduo da fermentação dos grãos de milho, valioso na fabricação de rações para animais.

Esse impressionante processo de produção de riqueza pelo interior do país, notável no Centro-Oeste, não poderia ser caracterizado, verdadeiramente, como desenvolvimento se permanecesse restrito à economia. Ou se beneficiasse só os grandes produtores e empresários rurais.

A história, entretanto, é bem mais virtuosa. O desempenho do ensino médio no Mato Grosso, segundo avaliação, em 2023, do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais, foi o 2º melhor do Brasil. O excelente resultado o tirou do 22º lugar no ranking nacional do Ideb, alçando-o para a 8ª posição. Se a educação melhora, tudo muda.

Educação

Nesse mesmo exame nacional do Ideb, quem levou a maior nota do Brasil foi o Estado de Goiás, até recentemente governado por Ronaldo Caiado.  A informação, certamente, surpreende a muitos, pois, depois dos governos de Tasso Jereissati e Ciro Gomes, o Ceará se tornou a referência do ensino fundamental público no país. Agora, percebam, despontam os Estados puxados pelo agronegócio.

Quem vai a Mato Grosso e Goiás, ou ainda visita o Mato Grosso do Sul e outras regiões dominadas pela agricultura moderna e tecnológica, como o oeste da Bahia e o sul do Maranhão, percebe o imenso potencial do nosso país. Ao mesmo tempo, suspeita de quanto a velha política aprisiona o futuro.

José Júlio Senna escreveu o extraordinário “Os Parceiros do Rei” (Topbrooks, 1995), em que analisa a influência da herança cultural no desenvolvimento econômico do Brasil. Contrastando com os norte-americanos, que promoveram um desenvolvimento autônomo, diz ele: “Herdamos de nossos antepassados portugueses forte tendência à centralização política e econômica. Crescemos dependentes do Estado”.

Criamos assim, desde as capitanias hereditárias, um sistema de privilégios e favorecimento político que caracteriza a política brasileira. Todos, ainda hoje, aguardam as ordens do rei. Pior. Querem ser amigos do rei, para obter benesses, tirar vantagens e influenciar decisões.

A subserviência, que causa humilhação, é a contrapartida dessa mendicância ao poder. Daí vem nossa pobreza, material e mental. Somos vítimas da moral jesuítica, origem do paternalismo que contamina nossa gente.

Como substituir a busca de favores pelo pensamento emancipador, que promove a dignidade humana? Como valorizar, longe do clientelismo, a prosperidade?

As difíceis respostas se vislumbram em Mato Grosso. Elas brotam do arrojo dos “sulistas” que erigiram, pelo caminho do agro, a modernidade de Mato Grosso.

Vá conferir. Afastado do litoral e distante de Brasília, surge um outro Brasil.

Crédito: Sérgio Lima/Poder360 – Direitos autorais: Poder360
Xico Graziano é engenheiro agrônomo e doutor em administração.
Artigo publicado originalmente no Poder360, gentilmente cedido à SNA pelo autor
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