
São muitos os mistérios amazônicos em Brasília. Um deles é de pedra. Fica ao lado do Palácio do Itamaraty. É fácil encontrá-lo. Para quem olha de frente esse belo edifício, basta contorná-lo pelo lado esquerdo e chega-se a uma pequena praça circular. No centro há uma enorme pedra, monolítica, com mais de dois metros de altura e de base quadrangular. Ela diminui em direção a um ápice arredondado, como ogiva de catedral. Um obelisco. Pesa toneladas. Não há placa explicativa. Qual a razão de estar pousada ali?
Esse bloco rochoso, talhado por humanos, é um calcário duro e maciço da idade Jurássica, do tempo dos dinossauros. Cheio de conchas, belas espirais ou caracóis de amonitas. Ele poderia ter sido extraído do canyon de Itaimbezinho no Rio Grande do Sul, na Europa ou de lugares onde existem essas rochas do Jurássico. Lá está ele, sem explicação, num local tão sagrado da diplomacia brasileira.
Não é difícil identificar um pequeno relevo destacado em forma de brasão, no centro da pedra. O olhar atento verá discretamente as quinas ou os cinco escudetes em cruz do brasão de Portugal. É um antigo marco português de delimitação geográfica. Qual território demarcava?
Nos anos setenta do século XX, o Exército construía um embarcadouro no alto rio Negro, quase na fronteira com a Venezuela. Mergulhadores ao preparar as fundações descobriram no leito do rio uma pedra enorme. Não existiam rochas nas proximidades. Um reconhecimento mais detalhado trouxe a certeza de uma obra de humanos. Foi uma epopeia retirá-la das profundezas do rio. Outra epopeia levou-a a Brasília. Maior havia sido a dos portugueses, séculos atrás: atravessar o Atlântico, entrar pelo rio Amazonas, subir o rio Negro, ultrapassar o arquipélago das Anavilhanas…
Os portugueses levaram de barco a vela e na força dos braços esse marco de fronteira até os confins da Amazônia. Moldaram a territorialidade ao plantá-lo às margens do rio Negro, em ponto visível e proeminente. Um espanhol ou estrangeiro, perdido ou não, vindo da bacia do Orinoco, seria advertido: entrava na Amazônia, em terras portuguesas. Hoje, brasileiras.
Com o passar dos anos e séculos, cheias e movimentos meândricos do rio, ou quem sabe ações mal-intencionadas, levaram o marco de fronteira ao fundo do rio, sepultando-o sob um manto de águas escuras. As águas ácidas silenciosamente laminaram ocalcário do marco.Apagaram seus escritos, corroeram a cruz de Cristo e o escudo português. As águas ácidas apagaram fronteira e geografia, como hoje tentam fazê-lo certas narrativas sobre a Amazônia. Quase dissolveram esse enigmático pacote, feito para proteger a Amazônia brasileira da cobiça estrangeira. Ela e sua população permanecem vivas, mesmo se submersa se laminadas por narrativas e dados manipulados, por ONGs e setores antropofóbicos de instituições federais. Insolúvel, em sua litofania, o marco resistiu.
Contei essa história ao escritor Gilles Lapouge, companheiro em expedições pela Amazônia, da bacia do Demene no Amazonas à do Tejo no Acre, do colono gaúcho no Mato Grosso ao assentado em Machadinho d’Oeste em Rondônia. Em nossa geografia havia ilhas no céu e os ventos eram um país. Traçamos mapas-mundi da luz e das brumas. Sonhamos geografias de outono. Isso lhe inspirou um romance, publicado e premiado na França, La mission aux frontières (Albin Michel. Paris, 2002) e no Brasil, A missão das fronteiras (Ed. Globo, S. Paulo, 2005).
Símbolo da nacionalidade e da conquista luso-brasileira na Amazônia, esse marco foi colocado ao lado do Ministério das Relações Exteriores. Gesto discreto e cheio de simbolismo para Portugal, Brasil e o mundo. Ao tocar nas sombras minerais das cinco quinas lusitanas, nesse brasão não assinalado, fora dos roteiros turísticos, ouvem-se sons e sentem-se perfumes do continente vegetal amazônico. Geografia de ventos, suor e heroísmo visionário lusitano. Como não lembrar Fernando Pessoa:
E ao imenso e possível oceano;
Ensinam estas Quinas, que aqui vês;
Que o mar com fim será grego ou romano;
O mar sem fim é português.
O mar vegetal amazônico só parece sem fim. Tem limites geográficos. Tem um princípio. O marco lembra o povoamento europeu e a incorporação ao território nacional da Amazônia. Espanhola na origem, de direito (Tordesilhas) e de fato: Vicente Pinzón foi o primeiro a chegar por ali. Portugal é o país mais ocidental da Europa. Sua fronteira remonta a 1297, a mais antiga da Europa. Lusitanos são provectos em estudar geografia, aplicá-la a mapas e territórios. Não só para defendê-los. Para ampliá-los.
A geografia nasceu na Antiguidade, na Mesopotâmia e no Egito, sob a forma de cadastros e representações simbólicas, associada à estatística, ao registro. Tornou-se disciplina científica na Grécia antiga, ao combinar viagens, matemática e astronomia. A geografia (do grego antigo, “descrição da Terra”) surgiu quando filósofos gregos buscaram racionalizar o mundo e perscrutar os horizontes.
Tales de Mileto (séc. VI a.C.) tentou explicar o mundo por princípios racionais, em vez de mitos. Heródoto (séc. V a.C.), pai da história, foi pioneiro da geografia humana e descritiva. Eratóstenes (séc. III a.C.) inventou o termo geografia. Foi o primeiro a traçar a grade de meridianos e paralelos e a calcular a circunferência da Terra com notável precisão.
Sob o Império Romano, a geografia tornou-se ferramenta para conquistas e recenseamentos. Estrabão (séc. I a.C.) escreveu uma imensa obra de geografia em 17 livros. Ptolomeu (séc. II d.C.) lançou as bases da cartografia matemática, graças a seus sistemas de projeção. Sua obra foi a referência absoluta por mais de mil anos.
A geografia árabe (séculos IX a XIV) foi impulsionada pelo crescimento do comércio e peregrinações à Meca. Al-Khwarizmi (séc. IX) revisou e corrigiu a obra de Ptolomeu no livro A Descrição da Terra. Al-Mas’udi (séc. X)fez viagens e descrições detalhadas de sociedades e climas. Al-Idrisi (séc. XII), na corte do rei normando Rogério II da Sicília, criou a Tabula Rogeriana, um dos mapas-múndi mais avançados da Idade Média. Tudo isso deu base aos descobrimentos e à moderna geografia. Nem toda essa tradição poupou geografia e geógrafos das críticas contemporâneas.
Qual é a utilidade do geógrafo? O geógrafo pensa entender de tudo e não sabe nada sobre nada, dizem. Esse viés cognitivo pode ser explicado pelo Efeito Dunning-Kruger, quando a pessoa não tem dimensão da real complexidade do tema. Na década de 1980, precisei engajar uma batalha interna para contratar o primeiro geógrafo nas equipes da Embrapa, para trabalhar como pesquisador no Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Semiárido em Petrolina. Consegui e valeu a pena.
Qual a utilidade da geografia? Antes de tudo, para fazer guerra, dizia Yves Lacoste. Ao lançar um olhar informado e atento sobre o mundo, ao permitir compreender sua complexidade e decifrar os problemas das sociedades – urbanização massiva, migração, distribuição de minerais ou realinhamentos geopolíticos – a geografia pode, acima de tudo, servir para construir a paz.
Dessa longa história da geografia nasceram instituições encarregadas de transformar território em conhecimento de Estado. No Brasil, geografia e estatística possuem uma casa comum: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE. O Dia do Geógrafo e o Dia do Estatístico são celebrados, juntos, em 29 de maio. Ambas as datas homenageiam a criação do IBGE. Nesse dia, em 1936, foi criado o Instituto Nacional de Estatística (INE). No ano seguinte, o Conselho Brasileiro de Geografia foi incorporado ao INE e deu origem ao atual IBGE, principal referência em dados geográficos e estatísticos do país.
Este ano há pouco a celebrar. O IBGE vive uma crise institucional rara. Desde 2023, sob a gestão de Márcio Pochmann, acumulam-se sinais de desgaste. O corpo técnico critica mudanças nos rumos administrativos, exonerações em postos-chave, criação de fundação paralela, além da contestação de metodologias e polêmicas sobre mapas institucionais.
Tomados em separado, são episódios de gestão. Reunidos, desenham um quadro grave. Exigem atenção pública. Está em jogo a credibilidade de uma instituição fundada na estabilidade, no rigor, na confiança.

Um dos episódios mais expressivos ocorreu nas Contas Nacionais: a exoneração de Rebeca Palis, servidora de carreira responsável pelas análises do PIB. O mais grave não foi a troca. Foi o efeito. Esse ato da presidência motivou pedidos de demissão, em solidariedade, de outros gerentes da mesma área. A cúpula da Diretoria de Pesquisas e da Diretoria de Geociências também entregou cargos em protesto contra a presidência. Um órgão técnico sem confiança interna deixa de viver uma crise pontual. Entra em crise estrutural. De forma inédita, mais de meio milhar de gerentes e diretores (incluindo centenas de cargos de chefia) assinaram cartas e manifestos contra a gestão de Márcio Pochmann. Precisa mais?
Nos indicadores econômicos, o desconforto aflorou. Técnicos alertaram o Congresso e a opinião pública. Falaram em risco de ingerência sobre índices decisivos, como o IPCA (inflação) e a Pnad Contínua (emprego e renda). A autoridade desses números repousa na independência dos métodos. Houve a tentativa de criar o IBGE+, fundação pública de direito privado. A fundação afundou, barrada pela Advocacia-Geral da União. Iniciativas contestadas se acumulam. Vacila a confiança nos números.
Em meio à crise administrativa e técnica, o IBGE ainda se expôs a controvérsias desnecessárias na cartografia. Divulgou um mapa-múndi invertido, com o Brasil no centro. Técnicos e sindicato (Assibge) rejeitaram a peça. Viram ali um afastamento das convenções cartográficas e um gesto promocional. O Atlas Geográfico Escolar também exigiu erratas. Houve falhas conceituais incluindo confusão entre períodos geológicos e trocas de siglas de estados. Nenhum desses episódios, sozinho, arruinaria a reputação do instituto. Somados, reforçam a percepção de descuido. Falta exatidão.
O IBGE não pertence a um dirigente. Nem a um partido. Nem a uma corrente de pensamento. Pertence ao Brasil. Sua missão exige prudência, precisão e autoridade técnica. Um órgão encarregado de medir território, população, renda, emprego e inflação não pode conviver com dúvidas persistentes sobre critérios, métodos e condução. Quando perde a confiança do público, perde o rumo. Em março deste ano, o Ministério Público, junto ao Tribunal de Contas da União, pediu o afastamento de Márcio Pochmann da presidência do instituto, citando irregularidades administrativas
O Brasil precisa de instituições sólidas e conscientes de sua função de Estado. Quem está desnorteado, sem bússola, perdeu o Norte. Quem está desorientado não vê o Sol e perdeu o Oriente. Desconhece o adágio latino Ab Oriente lux. A luz vem do Oriente. A sabedoria incendeia a luz. Já aconselhava a canção de Gilberto Gil: – Se Oriente rapaz…
Artigo publicado na Edição 324 da Revista Oeste.






