SNA Digital reúne especialistas para discutir oportunidades do acordo UE–Mercosul

A palestrante Beyla Fellous iniciou sua exposição contextualizando o acordo dentro de um cenário internacional marcado por ciclos de abertura e protecionismo. O debate foi mediado por Frederico Price Grechi- Edição de imagem: Larissa Machado

A Faculdade SNA Digital promoveu, no dia 6 de abril, uma palestra online sobre o Acordo Comercial União Europeia–Mercosul e seus impactos para o Brasil, reunindo especialistas e estudantes em torno de um dos temas mais estratégicos para o agronegócio nacional. O encontro contou com a participação da jurista Beyla Esther Fellous, Mestre pela Universidade de Paris I Panthéon-Sorbonne e Doutora pela Universidade de Paris III – Sorbonne Nouvelle, e teve mediação do diretor jurídico da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Frederico Price Grechi.

Na abertura, a coordenadora dos cursos superiores de tecnologia da SNA Digital, Christianne Perali, destacou a relevância do debate para a formação acadêmica e profissional dos alunos. Em seguida, Frederico Grechi ressaltou o papel da instituição em fomentar discussões qualificadas sobre temas que impactam diretamente o futuro do agronegócio. “Esse é um tema que trará muitas oportunidades no mercado do agro, não só no comércio exterior, mas também nas áreas ambiental e jurídica”, afirmou.

Múltiplas dimensões do acordo

Durante sua mediação, Grechi chamou atenção para as múltiplas dimensões do acordo, indo além do aspecto estritamente comercial. Segundo ele, o tratado dialoga com questões como segurança alimentar, sustentabilidade e desenvolvimento econômico. “O Brasil tem um papel relevante como celeiro do mundo, tanto no aspecto quantitativo quanto na segurança nutricional. Esse acordo também promove a paz entre blocos econômicos e reforça direitos fundamentais, como o direito à alimentação”, destacou.

Ciclos de abertura e protagonismo

A palestrante Beyla Fellous iniciou sua exposição contextualizando o acordo dentro de um cenário internacional marcado por ciclos de abertura e protecionismo. Para ela, o momento atual, de enfraquecimento de fóruns multilaterais e reorganização das cadeias globais, favorece a celebração de acordos birregionais. “Estamos vivendo um momento essencial de diversificação estratégica. Quanto mais mercados o Brasil puder acessar, menor será sua dependência de parceiros específicos”, explicou.

Panorama histórico e cultural

Fellous também apresentou um panorama histórico e estrutural das negociações entre Mercosul e União Europeia, que se estenderam por mais de duas décadas. Segundo ela, o acordo não se limita ao comércio, mas envolve cooperação política, tecnológica e regulatória. “O modelo europeu não é puramente comercial. Ele nasce no pós-guerra com a intenção de garantir paz duradoura por meio da integração econômica”, afirmou.

Oportunidades e desafios

Ao abordar os impactos para o agronegócio brasileiro, a especialista destacou tanto oportunidades quanto desafios. Entre os benefícios, estão a redução gradual de tarifas, que podem chegar a zero para até 99% dos produtos agrícolas em um prazo de até dez anos, além da ampliação do acesso ao mercado europeu. Produtos como café, açúcar, suco de laranja, carnes e biocombustíveis estão entre os mais favorecidos.

Adaptação às exigências ambientais

Por outro lado, Beyla Fellous alertou para a necessidade de adaptação às exigências ambientais e regulatórias da União Europeia, especialmente no que diz respeito à rastreabilidade e ao combate ao desmatamento. “O principal desafio hoje é ambiental. O regulamento europeu exige certificação rigorosa da cadeia produtiva. Quem tiver compliance robusto sairá na frente”, afirmou. Segundo dados citados pela palestrante, até 34% das exportações agrícolas brasileiras podem ser impactadas por essas novas regras.

Pauta exportadora brasileira

Outro ponto de atenção é a concentração da pauta exportadora brasileira em produtos primários, com baixo valor agregado. Para a especialista, o país precisa investir em industrialização, branding e adaptação ao perfil do consumidor europeu. “Temos que oferecer o que o mercado paga melhor. Isso envolve entender preferências, investir em marca e agregar valor aos produtos”, disse, citando experiências práticas de exportação realizadas durante sua trajetória profissional.

Fragilidades

A palestra também destacou fragilidades estruturais do Brasil, como a dependência de insumos importados, especialmente fertilizantes, e gargalos logísticos. Nesse sentido, Grechi reforçou a importância de políticas de longo prazo. “Diferente de países como o Chile, o Brasil ainda enfrenta dificuldades para manter estratégias consistentes, o que impacta diretamente nossa competitividade”, observou.

Oportunidade histórica

Ao final, a palestrante convidada enfatizou que o acordo representa uma oportunidade histórica, mas que seu aproveitamento dependerá da capacidade de adaptação do país. “O agro brasileiro já é um sucesso, mas sempre é possível avançar. Esse acordo pode impulsionar investimentos, parcerias e inovação, desde que estejamos preparados”, concluiu.

O evento evidenciou que o Acordo União Europeia–Mercosul vai além de uma simples abertura comercial, configurando-se como um marco estratégico que exigirá preparo técnico, institucional e produtivo para que o Brasil consiga transformar potencial em resultados concretos.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
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