Pecuária brasileira apresenta à ONU plano para reduzir emissões

Delegação brasileira visitou a sede da FAO/ONU e apresentou conclusões do estudo feito pela FGV Agro. Metas ambiciosas de redução das emissões se baseia em práticas já adotadas pela pecuária nacional. Foto: ApexBrasil

Dados científicos robustos e projeções ambiciosas

Em um momento crucial de transição global para economias de baixo carbono, o setor agropecuário brasileiro apresentou oficialmente à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) resposta contundente baseada em ciência para os desafios climáticos e de segurança alimentar. Uma delegação visitou a sede do órgão, em Roma, durante a Quarta Sessão do Subcomitê de Pecuária do Comitê de Agricultura (COAG), no início de junho.

Integraram o grupo representantes da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e da Missão Diplomática do Brasil em Roma. A ocasião marcou o lançamento internacional o estudo “Trajetórias de Descarbonização da Pecuária de Corte no Brasil – 2025 a 2050”, desenvolvido pelo Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro).

Diante de outras delegações estrangeiras e cientistas, o relatório demonstrou como o país consegue responder à crescente demanda global por alimentos e, ao mesmo tempo, mitigar o impacto ambiental por meio da tecnologia tropical.  A abertura das discussões contou com a participação do Diretor de Produção e Sanidade Animal e Diretor-Geral Assistente da FAO, Thanawat Tiensin, que reforçou a necessidade de governança e união multissetorial.

Para o presidente da ApexBrasil, Laudemir Müller, o debate na agência da ONU consolida o papel estratégico do país no abastecimento e na sustentabilidade. “Viemos à FAO mostrar que a pecuária brasileira tem condições de avançar de forma consistente na agenda climática sem abrir mão da produtividade. O papel da ApexBrasil, em forte parceria com a nossa representação diplomática em Roma, é trazer o debate para a realidade dos números. Provamos que o Brasil é um fornecedor confiável, essencial para o desenvolvimento econômico e para a segurança alimentar mundial”, destacou.

Estimativa se baseia em estudo que chamou atenção na COP 30

O presidente da ABIEC, Roberto Perosa, na COP 30 de Belém no ano passado. No evento, as conclusões do relatório foram apresentadas pela primeira vez. Foto: Divulgação ABIEC

O setor pecuário enfrenta uma encruzilhada global. Enquanto a demanda por proteína animal aumenta, os três blocos que controlam 70% do rebanho global registram quedas históricas: o Mercosul opera em seu nível mínimo de 6 anos, a América do Norte enfrenta o menor rebanho em 70 anos e a União Europeia, o menor em 30 anos. Na contramão da retração externa, o Brasil se consolidou com o maior rebanho comercial do planeta (192,6 milhões de cabeças em 2024), mostrando que o crescimento produtivo coexiste com a preservação. O documento já havia sido formalmente apresentado durante a COP 30 de Belém em novembro do ano passado, como cobriu o Portal SNA. Na época, a repercussão já tinha sido positiva e chamara atenção pelo caráter técnico dos dados e metas ambiciosas traçadas.

A pesquisadora da FGV Agro, Camila Estevam, detalhou os dados técnicos do estudo que traduzem esse ganho de eficiência em metas climáticas. O desacoplamento entre área e produção na pecuária de corte brasileira já é um histórico consolidado. Entre 2004 e 2024, a produção nacional de carne bovina disparou mais de 240%, enquanto a área total de pastagens encolheu 11% (reduzindo de 181 para 160 milhões de hectares). Esse salto gerou o chamado “efeito poupa-terra”, que poupou 397 milhões de hectares — área que teria sido necessária se o país mantivesse os mesmos índices de produtividade de 1990.

O Brasil utiliza apenas 30,2% de seu território para a agropecuária, mantendo 66,3% da vegetação nativa preservada — sendo que 33,2% estão resguardadas por lei dentro das propriedades rurais privadas. Esta atuação conjunta entre a produção eficiente e a diplomacia ambiental tem sido um pilar defendido pelo Ministério das Relações Exteriores em fóruns multilaterais para fortalecer a cooperação internacional.

Para o setor exportador, a apresentação do estudo dentro do Subcomitê de Pecuária do COAG — órgão que orienta as políticas agrícolas globais da ONU — funciona como um aval de credibilidade que embasa o produto brasileiro frente às exigências do mercado externo. Com os dados apresentados na ONU, o Brasil demonstra que o investimento em biotecnologia zootécnica, aditivos alimentares e a recuperação de pastagens degradadas são os vetores reais para conciliar o combate à fome e a resiliência climática.

Credenciais valiosas em momento estratégico

Fórum Empresarial Brasil – China, realizado durante visita de Estado feita pelo presidente Lula em 2025, na capital Pequim. Reconhecimento do Brasil como país livre de febre aftosa pelo principal parceiro comercial é trunfo do setor de carnes. Foto: Ricardo Stuckert/PR

Fernando Zelner, Diretor de Sustentabilidade da ABIEC, resumiu o valor estratégico do embasamento científico para a reputação internacional do agronegócio “Isso é fundamental para a exportação e para a gente trazer os dados duros, com ciência bem fundamentada, para mostrar para o mundo por que a nossa carne é sustentável e por que o nosso produto é confiável e merece estar em todas as prateleiras dos supermercados do mundo”, destacou.

O estudo da FGV Agro teve sua apresentação internacional num momento de tensões internacionais para o segmento, como o embargo da União Europeia à carne brasileira devido ao uso de antimicrobianos, assunto que ainda segue em negociação, antes da vigência prevista para setembro. Mas também preenche uma lacuna importante, já que fornece ao continente europeu uma credencial cobrada com frequência: a da sustentabilidade.

Além disso, no início do mês, a China classificou oficialmente o Brasil como território livre de febre aftosa, ecoando a outorga de mesmo teor obtida no ano passado pela Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). O gesto, vindo de um país de influência determinante no comércio exterior e principal comprador da carne brasileira, cacifa ainda mais o setor perante outras nações de notório rigor sanitário. Em nota, a ABIEC destacou a atuação dos Ministérios da Agricultura e de Relações Exteriores na articulação com os chineses, destacando que a conquista reflete a capacidade do Brasil de unir excelência técnica e diálogo institucional em favor da ampliação do comércio agropecuário

Por Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb 13.9290) marcelosa@sna.agr.br
Com informações da assessoria ApexBrasil e ABIEC 
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