
O fim do acordo provisório que havia reduzido temporariamente as hostilidades entre Estados Unidos e Irã reacendeu as preocupações do mercado internacional com uma possível escalada do conflito no Oriente Médio. Embora os desdobramentos militares ainda sejam incertos, analistas econômicos já apontam que o aumento das tensões pode provocar efeitos importantes sobre cadeias globais de suprimentos, energia, fertilizantes e transporte marítimo, fatores diretamente ligados ao desempenho do agronegócio mundial.
Petróleo
A principal preocupação está no mercado de petróleo. O Irã ocupa posição estratégica na região do Golfo Pérsico, responsável por cerca de um terço do petróleo comercializado no mundo. Qualquer ameaça à navegação pelo Estreito de Ormuz, principal corredor marítimo da região, tende a elevar o preço do barril e aumentar os custos do transporte internacional. Para o agronegócio, isso significa fretes mais caros, aumento no custo da logística e maior pressão sobre toda a cadeia produtiva, do campo aos portos.
Energia
Além dos fertilizantes, o aumento dos preços da energia também deve ser considerado, uma vez que pode levar ao encarecimento da produção agrícola em diversos países. Máquinas agrícolas, irrigação, armazenagem, secagem de grãos e transporte dependem diretamente de combustíveis e energia elétrica. Caso o petróleo permaneça em patamares elevados por um período prolongado, produtores poderão enfrentar elevação significativa dos custos operacionais, reduzindo margens de lucro.
Mercado de fertilizantes
Outro possível impacto envolve o mercado de fertilizantes. O Brasil importa aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura, boa parte proveniente de países do Oriente Médio, da Rússia e do Norte da África. Uma ampliação do conflito pode comprometer rotas comerciais, elevar custos de produção e reduzir a oferta de insumos estratégicos, como ureia e fertilizantes nitrogenados, pressionando os custos da próxima safra.
Segundo Fernando Pimentel, consultor do Grupo Aliare, quando o mercado já esperava uma normalização do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz, a retomada dos ataques na região interrompeu essa expectativa. “Os novos ataques a navios que transitavam pelo estreito e a volta das ações militares dos Estados Unidos contra o Irã fizeram as hostilidades voltarem a um nível elevado, interferindo novamente na navegação. Isso preocupa porque o Estreito de Ormuz concentra cerca de 20% do trânsito mundial de petróleo e 20% do gás natural, insumo fundamental para a produção de fertilizantes.”
Pimentel destaca que os impactos vão muito além da energia. “Pelo estreito passam quase 40% da ureia consumida no planeta, cerca de 30% da amônia e grande parte do enxofre utilizado na fabricação de fertilizantes como MAP e DAP. Em um momento em que a agricultura já enfrenta elevado endividamento, dificuldades no fornecimento de insumos e fechamento de plantas por causa dos custos de produção, essa nova escalada do conflito representa mais uma incerteza para o planejamento da safra 2027. Caminhávamos para uma solução, mas voltamos praticamente à estaca zero.”
Comércio internacional
No comércio internacional de alimentos, entretanto, o cenário pode abrir oportunidades para o Brasil. Em momentos de instabilidade geopolítica, importadores costumam buscar fornecedores considerados confiáveis e capazes de garantir regularidade no abastecimento. Como um dos maiores exportadores mundiais de soja, milho, carnes, açúcar, café e celulose, o Brasil pode ampliar sua participação em mercados que busquem reduzir a dependência de regiões em conflito.
Volatilidade cambial
Por outro lado, a volatilidade cambial representa mais um fator de atenção. Crises internacionais normalmente fortalecem o dólar frente às moedas emergentes. Para os exportadores brasileiros, a valorização da moeda norte-americana tende a aumentar a competitividade das vendas externas. Em contrapartida, encarece insumos importados, como fertilizantes, defensivos agrícolas, máquinas e equipamentos, criando um equilíbrio delicado entre ganhos nas exportações e aumento dos custos de produção.
Preços globais dos alimentos
Especialistas também alertam para possíveis reflexos sobre os preços globais dos alimentos. Caso a alta da energia e dos fertilizantes se prolongue, produtores em diferentes países poderão reduzir investimentos ou diminuir a área plantada nas próximas safras, restringindo a oferta mundial e pressionando os preços agrícolas. Esse movimento pode ampliar a inflação de alimentos em diversas economias.
Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br






