
O Portal SNA conversou com a doutora Rosires Deliza, pesquisadora da Embrapa Agroindústria de Alimentos, sobre produtos do setor que possuem insetos e derivados em sua composição. Na conversa, ela esclareceu o trabalho científico que respalda a qualidade nutricional desses alimentos, respaldando seu valor nutricional e caráter sustentável em termos de cadeia produtiva. Para ela, uma campanha de divulgação mais ostensiva se faz necessária junto a público alvo, que já demonstra interesse por alternativas de consumo mais saudáveis.
Dra. Rosires destaca as vantagens do segmento em termos de custo/benefício e também enfatiza o potencial brasileiro na área, mas reconhece que uma consolidação dependerá de investimentos em pesquisa, regulamentação, inovação e construção gradual da demanda. Além disso, apontou como a Embrapa pode atuar em parceria com outros entes públicos e privados no debate do assunto, que abrange temas sensíveis e relevantes como segurança alimentar, tecnologia e mudança nos hábitos de consumo.
Rosires formou-se em Engenharia de Alimentos e obteve seu doutorado pela Universidade de Reading/Instituto de Pesquisa Alimentar (Institute of Food Research), no Reino Unido. Trabalhou no Embrapa Labex Europa, sediado no INRA, em Dijon, França. Orienta alunos de mestrado e doutorado de duas universidades do Rio. Recebeu o Prêmio de Cientista do Estado do Rio de Janeiro e foi citada entre os 2% com maior impacto em sua área de conhecimento em 2019 e 2022, segundo um estudo da Universidade Stanford (EUA).
Sua pesquisa tem se concentrado nos estudos relacionados à rotulagem nutricional e na influência de fatores intrínsecos e extrínsecos do produto na percepção sensorial e na aceitação do consumidor, especialmente considerando tecnologias emergentes. Trabalhou e continua atuando em colaboração com grupos de pesquisa da Europa, EUA e América do Sul. Confira a seguir a entrevista.
SNA: Após o estudo recente que revelou caminhos para vencer a resistência dos consumidores quanto a alimentos à base de insetos, quais seriam os próximos passos no sentido de estimular a aceitação dessa fonte alternativa de nutrientes pelos brasileiros?
Acredito que uma ampla campanha de comunicação se faz necessário, isto é, a divulgação das características nutricionais do produto, assim como os aspectos favoráveis relacionados à sustentabilidade podem favorecer o aumento do consumo. Tal campanha deve alcançar os mais diversos públicos, sobretudo em relação à escolaridade e renda. Ações de educação e realçando a inovação alimentar também são indicadas. Além disso, ressalta-se a necessidade da regulamentação adequada, ou seja, devem ser definidas normas claras de produção, processamento e rotulagem para garantir segurança ao consumidor, permitindo que os insetos sejam percebidos não como algo exótico, mas como uma alternativa proteica nutritiva e sustentável.
SNA: A preocupação com alimentação mais saudável, derivada de processos que levam em conta a sustentabilidade e preservação, tem sido captada tanto por pesquisadores quanto pelo varejo. A campanha de conscientização quanto aos ultraprocessados, segundo alguns especialistas, também influencia essa mudança no perfil de consumo. Concorda com essa avaliação? Seria essa uma boa janela de oportunidade para aprofundar a divulgação e debate quanto aos alimentos à base de insetos?
Diria que essa avaliação faz certo sentido, pois a preocupação com alimentação mais saudável, natural e sustentável tem influenciado mudanças importantes no comportamento de consumo de faixas específicas da nossa população, geralmente de pessoas de maior renda e escolaridade que vivem nos grandes centros urbanos. Tais consumidores parecem valorizar os alimentos menos processados, com origem conhecida e menor impacto ambiental. Entretanto, para muitos brasileiros, sobretudo nas classes de menor renda, as decisões de consumo ainda são fortemente determinadas por fatores como: preço dos alimentos; acesso e disponibilidade; praticidade no preparo; hábitos culturais consolidados.
Nesse sentido, embora o debate sobre os alimentos de baixa qualidade nutricional (os denominados ultraprocessados de acordo com a classificação NOVA) e sustentabilidade esteja crescendo, eles têm impacto primeiramente em nichos específicos do mercado. Por isso, a introdução e divulgação de alimentos à base de insetos provavelmente teria maior aceitação inicial justamente nesses grupos que já demonstram interesse por alimentação alternativa, inovação gastronômica e sustentabilidade. Ressalta-se que o consumidor “comum”, ou seja, aquele indivíduo que não tem nenhuma formação técnica na área de alimentos tem dificuldade para diferenciar um produto processado daquele classificado pela NOVA como ultraprocessado.
De todo modo, acredito que campanhas de conscientização sobre a qualidade dos alimentos contribui para esse cenário porque incentiva os consumidores a refletirem mais sobre qualidade nutricional, forma de produção e efeitos ambientais dos alimentos. Isso abre espaço para discutir alternativas que sejam percebidas como nutritivas, eficientes e sustentáveis.
SNA: Mesmo com boas estratégias de marketing e ações de publicidade focadas na saúde, resta saber se esses alimentos podem compor uma cadeia produtiva rentável no país. De acordo com suas pesquisas, há viabilidade para investimentos maiores em segmentos assim, de modo que mais opções cheguem aos consumidores, e a preços acessíveis?
Embora nossos estudos não tenham enfocado aspectos econômicos e de produção, acredito que a viabilidade econômica de alimentos à base de insetos no Brasil ainda está em fase inicial, mas as pesquisas indicam que existe potencial para o desenvolvimento de uma cadeia produtiva rentável, impulsionada pela sustentabilidade, alto valor nutricional e demanda por novas fontes de proteína. O mercado global de insetos comestíveis é promissor, com previsões de crescimento expressivo, e o Brasil, devido à vasta biodiversidade e forte agronegócio, posiciona-se como um player estratégico.
Do ponto de vista produtivo, a criação de insetos apresenta vantagens importantes: alto rendimento de proteína por área, menor consumo de água e ração, além de ciclos de produção curtos, as quais podem reduzir custos ao longo do tempo e favorecer sistemas de produção mais eficientes quando comparados a algumas cadeias pecuárias tradicionais. Em resumo, diria que a entomocultura (criação de insetos) no Brasil está caminhando para se tornar uma nova alternativa sustentável na bioeconomia, com ênfase inicial em ração animal e potencial para o mercado de alimentos humanos, desde que os entraves regulatórios sejam superados e estratégias de marketing e processamento minimizem a aversão cultural do mundo ocidental.
Portanto, diria que há potencial de viabilidade econômica, mas a consolidação dependerá de investimentos em pesquisa, regulamentação, inovação e construção gradual da demanda. Com tais avanços é possível que, no futuro, mais produtos cheguem ao consumidor e que os preços se tornem mais acessíveis.
SNA: Como a Embrapa, em especial a unidade de Agroindústria de Alimentos, pode contribuir para a difusão de produtos comestíveis à base de insetos, do ponto de vista do respaldo científico e inovações tecnológicas, como já acontece em outros segmentos do agronegócio nacional?
A Embrapa, especialmente a Embrapa Agroindústria de Alimentos, pode desempenhar um papel estratégico na difusão de produtos comestíveis à base de insetos ao fornecer respaldo científico, desenvolver tecnologias que podem contribuir para o apoio à estruturação dessa cadeia produtiva no Brasil. Considero alguns pontos nesse processo:
Do ponto de vista científico, podemos contribuir com pesquisas sobre segurança alimentar, valor nutricional, processamento e qualidade sensorial dos produtos derivados de insetos. Esses estudos são essenciais para gerar evidências que orientem a regulamentação e aumentem a confiança de consumidores, produtores e formuladores de políticas públicas. Tem potencial para aplicar tecnologias para a incorporação de ingredientes derivados de insetos em alimentos processados, como farinhas proteicas, snacks e produtos de panificação. Além disso, pode atuar na padronização de métodos de produção e controle de qualidade, contribuindo para a escalabilidade e a competitividade desses produtos;
Outro aspecto importante é a transferência de tecnologia e conhecimento para empresas e startups por meio de projetos de inovação, capacitações e parcerias. Assim como já ocorre em outros segmentos do agronegócio, essa atuação pode estimular o desenvolvimento de um novo mercado baseado em fontes alternativas e sustentáveis de proteína;
Por fim, a Embrapa também pode apoiar estudos visando investigar a aceitação do consumidor, comunicação e estratégias de mercado, fundamentais para reduzir barreiras culturais e ampliar a adoção desses produtos no Brasil. Dessa forma, a instituição contribuiria não apenas para o avanço científico, mas também para a consolidação de um ecossistema de inovação em torno dos alimentos à base de insetos.
SNA: O estudo em questão se insere num contexto maior sobre segurança alimentar, preocupação ambiental e desenvolvimento econômico. O Brasil é protagonista dessas discussões, sobretudo na esteira da COP 30 e da pujança agropecuária nacional. Como enxerga o futuro da produção de alimentos no país, num cenário em que os entes públicos e privados colaborem com a ciência para levar aos consumidores comida de qualidade, por valores compatíveis com o mercado e mediante uma cadeia produtiva que observe as boas práticas?
Essa é uma questão mais diretamente relacionada às áreas de políticas agrícolas e sistemas de produção e, portanto, seria mais bem respondida por especialistas nesses campos. Sou otimista! A partir da perspectiva da pesquisa em alimentos, considero o futuro da produção de alimentos no Brasil com bastante potencial. O país reúne condições muito favoráveis: ampla base produtiva, grande diversidade de recursos naturais, instituições de pesquisa consolidadas e um agronegócio altamente competitivo. Nesse contexto, iniciativas globais como a COP 30 reforçam ainda mais a necessidade de integrar produtividade, sustentabilidade e inovação nas cadeias agroalimentares.
Se houver colaboração efetiva entre os setores público e privado, será possível avançar em sistemas produtivos mais eficientes, sustentáveis e alinhados às demandas da sociedade, especialmente no contexto das discussões globais sobre clima e sustentabilidade, como as que envolvem a COP 30. Nesse cenário, a ciência tem um papel essencial ao desenvolver tecnologias que aumentem a produtividade, reduzam impactos ambientais e garantam qualidade e segurança dos alimentos. Ao mesmo tempo, é fundamental que essas inovações contribuam para manter os alimentos acessíveis à população.
Portanto, vejo um futuro em que o Brasil pode continuar sendo protagonista na produção de alimentos, combinando competitividade econômica, sustentabilidade ambiental e qualidade para o consumidor num cenário no qual a ciência desempenha papel central ao desenvolver tecnologias que aumentem a eficiência produtiva, reduzam impactos ambientais e garantam qualidade e segurança dos alimentos. A colaboração entre empresas, universidades e instituições de pesquisa — como a Embrapa — pode acelerar a adoção de práticas mais sustentáveis, novos sistemas de produção, ingredientes inovadores e soluções tecnológicas ao longo de toda a cadeia.






