ABRE-TE SÉSAMO! A REVOLUÇÃO DO GERGELIM BRASILEIRO. Por Evaristo de Miranda

Em 2025, o Brasil produziu cerca de 410 mil toneladas, cultivadas em uma área de 640 mil hectares. Foto: Pixabay

A agricultura brasileira é conhecida por sua diversidade e dimensão.

Menos conhecida é sua extraordinária dinâmica temporal, espacial e tecnológica. Um exemplo está numa pequena semente oleaginosa, cada vez mais relevante no agronegócio: o gergelim. Antes, era limitado a pequenas áreas de cultivo manual, sobretudo no semiárido nordestino. Em 15 anos, com a modernização e mecanização dos sistemas de cultivo, o Brasil se tornou exportador mundial, garantiu o abastecimento interno e abriu perspectivas para uma gama de produtos da indústria agroalimentar.

Na década passada, o gergelim emergiu como cultivo mecanizado sobretudo no Mato Grosso e Goiás. Substituiu parte do milho safrinha e diminuiu o risco de perdas por falta de chuvas, quando o período de plantio do milho já se encerrou. Plantado entre março e abril, garante produção, até onde a segunda safra era impossível.

No Brasil, a área plantada cresceu mais de 20 vezes nos últimos 10 anos. As empresas de sementes, fomento e comercialização do gergelim assumiram riscos e tiveram papel decisivo nessa dinâmica. Em 2025, o Brasil produziu cerca de 410 mil toneladas, cultivadas em uma área de 640 mil hectares. A produção total cresceu cerca de 10% impulsionada por ganhos de produtividade. Com produtores ultrapassando a tonelada por hectare, aprodutividade média foi 621 kg/ha em 2025.

O cultivo é concentrado no Centro-Oeste, com expansão gradual em áreas de safrinha no Norte e Nordeste. O Mato Grosso é o maior produtor e exportador. Concentra cerca de 70% da produção e do comércio externo do grão. Sua área plantada supera 400 mil hectares. A produção é estimada em289 mil toneladas. No Vale do Araguaia, Canarana reúne a maior área contínua de gergelim do planeta, com mais de 100 mil hectares.Em Goiás, segundo maior produtor,ele sucede a colheita principal de soja ou algodão. O Tocantins fechou a colheita de 2025 em sincronia com o Mato Grosso, com forte apelo logístico para o mercado externo. O restante divide-se entre Mato Grosso do Sul, Ceará, Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Bahia e Minas Gerais. Cada vez mais, o gergelim é explorado tanto por pequenos produtores, quanto integrado à safrinha mecanizada.

O gergelim ou sésamo (Sesamum indicum) é uma planta anual da família Pedaliácea. Muito antes da oliveira e de seu azeite, o gergelim foi a primeira planta da história utilizada na produção de óleo vegetal.O gênero Sesamum contém cerca de 23 espécies selvagens, a maior parte africanas. Oito são do subcontinente indiano e duas delas estão na origem do gergelim cultivado.Os vestígios arqueológicos mais antigos do gergelim surgem na bacia do Indo, entre 2250 e 1740 a.C.

Etmologia da palavra gergelim

Sementes acompanharam Tutancâmon em sua tumba. Heródoto registrou seu cultivo no Império Persa. Teofrasto descreveu a planta. Plínio atribuiu-lhe origem indiana e usos medicinais. Apício incluiu o gergelim em receitas da cozinha romana. A palavra portuguesa gergelim provém do árabe vulgar jiljilan, derivado do árabe clássico ģulģulãn. Esse termo só permaneceu no português e no maltês ġulġlien, segundo minhas pesquisas.A denominação sésamo é palavra praticamente universal. Do latim sesamum, do grego sēsamon, ambos derivados do semítico acadiano šamaššamu, literalmente “planta de óleo”.

Há algo de sagrado no sésamo. A palavra hebraica sumsum (שׂוּמשׂוּם)é como uma duplicação de shem(שֵׁם), o Nome, ou seja, Deus, presente em tantas expressões da fé judaica e cristã (Em Nome, o Santo Nome, Bendito o Nome…). A cabala lê em suas letras shem-shamaim ou Nome dos Céus. A Mishnah inclui o óleo de sésamo (shemen sumsum) entre os mais indicados às luzes do shabath.

Foto: Pixabay

O gergelim é usado no revestimento de pães, em saladas, como gersal, homus e tahine, na forma de óleos, margarinas, em doces como halewua, barrinhas, nas bebidas e “leites” vegetais (sesame milk). As sementes ricas em lipídios são usadas cruas, trituradas ou torradas na culinária e na confeitaria ou na forma de óleo vegetal comestível, sem refino.

Rico em proteínas e sais minerais, o gergelim tem funções antioxidantes, ajuda no controle do colesterol, reduz o apetite e é muito utilizado na dieta de vegetarianos e veganos. Além do setor agroalimentar, entre usos industriais, o gergelim tem aplicações em cosméticos e farmacêutica, vernizes e tintas, sabões e xampus.

Em áreas com solos arenosos ou onde o milho apresenta risco climático, o gergelim se encaixa bem. Para quem busca diversificar sua produção, além de soja e milho, a opção do algodão, exige investimentos, novas máquinas e tem alto custo. O gergelim aproveita os equipamentos da soja, com pequenos ajustes. Não exige altos investimentos. Na rotação, contribui para o controle de nematoides e se beneficia de adubações e tratos de culturas anteriores.

O cultivo enfrenta desafios no plantio e na colheita. A preparação do leito de semeadura é exigente. Ela não pode ser profunda e deve propiciar bom contato entre solo e semente. O minúsculo tamanho da semente dificulta o plantio com máquinas, concebidas para sementes maiores. Ajustes e discos adequados resolvem cada vez mais esse problema nas plantadeiras.

O crescimento inicial do gergelim é lento. A competição de plantas daninhas tem forte impacto na população de plântulas e na produção. O cultivo exige uma boa dessecação das adventícias antes do plantio e seu controle atento no arranque inicial.A produtividade média varia entre 600 e700 kg/ha. Pode ser superior uma tonelada por hectare nos produtores mais tecnificados. As perdas na colheita são um dos maiores problemas do cultivo mecanizado.

“Abre-te, Sésamo” é a famosa frase mágica do conto Ali Babá e os Quarenta Ladrões, das Mil e Uma Noites. Ela destrancava a entrada secreta de uma caverna cheia de tesouros e evoca a abertura das cápsulas de gergelim à maturidade. Essa abertura é uma das razões das perdas de colheita. As variedades disponíveis são muito deiscentes. Abrem-se espontaneamente na maturação. As sementes destacam-se, caem e empilham-se no fundo das cápsulas abertas. O vento, a plataforma de corte das colhedoras, o sistema de trilha, a ventilação para limpeza de impurezas nas peneiras… tudo concorre para perdas no solo. Elas variam de 15 a 35%. É muito.

Agricultores buscam, em colaboração com indústrias de máquinas agrícolas, equipamentos mais adequados à colheita. Produtores induzem a inovação e não o contrário. Agora houve a obtenção e validação de uma variedade indeiscente, com retenção placentária das sementes. A perda de grãos caiu para 6% na colheita. Isso é essencial para rendimentos superiores a uma toneladapor hectare. A cultivar IMA Araguaia reúne alta produtividade, ciclo médio-curto, resistência à Macrophomina e à mancha-alvo e baixa perda na colheita graças à elevada retenção das sementes.Ela é uma alternativa também para pequenos e médios produtores, pouco capitalizados para adquirir futuras colheitadeiras para gergelim.

O gergelim é cultivado em mais de 70 países, sobretudo na Ásia e África. Índia, Mianmar e China respondem por mais de 50% da produção mundial, próxima de 4 milhões de toneladas/ano, em cerca de 7,5 milhões de hectares. A demanda global por gergelim segue em expansão com um crescimento da ordem de 4% ao ano, em volume e valor. O mercado movimenta entre 2 e 2,3 milhões de toneladas. O Brasil já é 7º maior exportador global e detém 5,3% do comércio.Em 2025, a exportação de gergelim bateu recorde histórico, impulsionada pela abertura e consolidação do mercado chinês.

Exportação brasileira

Até 2024, o Brasil não exportava um grão de gergelim para os chineses. O principal comprador do gergelim brasileiro em 2025 foi a China,com cerca de 45% do volume exportado. Em apenas três meses, após a liberação sanitária, o Brasil embarcou 160 mil toneladas e se tornou o 3º maior fornecedor para o país asiático. A Índia, maior comprador em anos anteriores, manteve-se como um dos principais destinos e absorve entre 20 e 35% do gergelim brasileiro.

O país exporta para Singapura, Arábia Saudita, Grécia, México… num total de mais de 30 países.Mais de 70% de todo o volume de gergelim exportado pelo Brasil em 2025 escoou pelo Terminal de Contêineres de Paranaguá, no Paraná, principal corredor logístico para os embarques rumo à Ásia.

O dinamismo do agronegócio e a modernidade da produção mecanizada têm condição, em futuro próximo, de atender 30 a 40% do mercado mundial de gergelim. O anunciado em artigo na Revista Oeste (Ed. 177), há 3 anos, sobre o papel da inovação no gergelim e na abertura de mercados não era uma fábula. No médio prazo, o crescimento do cultivo dependerá do mercado interno e de um maior consumo pelos brasileiros. Há muitas oportunidades para o empreendedorismo nesse campo do consumo. No atacado e no varejo.

O Brasil já descobriu sua caverna de tesouros. Ela não guarda ouro. Guarda sementes. O profissionalismo dos verdadeiros Ali Babás brasileiros —produtores, empresas de sementes, comerciantes e pesquisadores— fez o restante. Os quarenta ladrões continuam por aí. Abre-te, sésamo!

Foto: Arquivo pessoal
Evaristo de Miranda foi pesquisador da Embrapa por 43 anos. É doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Artigo publicado na edição 330 da revista OESTE
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