Seguro paramétrico avança no Brasil como resposta aos riscos climáticos no agro

Diferentemente dos seguros convencionais, o seguro paramétrico não depende da comprovação direta de perdas na propriedade – Foto: Canva

O aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas tem pressionado o setor agropecuário brasileiro a buscar novos mecanismos de proteção financeira. Nesse contexto, o seguro paramétrico, também conhecido como seguro de índice, vem ganhando espaço como uma alternativa inovadora ao modelo tradicional, especialmente por oferecer maior agilidade e previsibilidade no pagamento de indenizações.

Modus operandi

Diferentemente dos seguros convencionais, o seguro paramétrico não depende da comprovação direta de perdas na propriedade. A indenização é acionada automaticamente quando um determinado índice, a exemplo do volume de chuva, temperatura ou velocidade do vento, ou ainda a variação de umidade relativa do ar, umidade do solo atinge um limite estipulado em contrato. Esse modelo utiliza dados objetivos, geralmente fornecidos por estações meteorológicas ou sensores, eliminando a necessidade de perícias presenciais e reduzindo custos operacionais.

De acordo com Fernando Pimentel, consultor do Grupo Aliare, normalmente, a apólice de seguro paramétrico tem o mesmo objetivo de um seguro rural convencional. “A diferença é que a parte da regulação de sinistro é diferente por ser toda automática. Isso porque o interessado, na verdade, faz um seguro, por exemplo, em relação a um índice pluviométrico e ele vai reportar o risco de um evento. No caso agrícola, é importante consultar a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) no site do governo federal para entender mais sobre esse tipo de seguro e também confirmar se a seguradora está devidamente habilitada”.

Agilidade

Na prática, o funcionamento é baseado em três elementos principais: o índice de referência, como a precipitação acumulada; o gatilho, valor mínimo ou máximo que aciona o pagamento, e o valor da indenização. Caso o índice observado atinja o gatilho dentro do período contratado, o pagamento é liberado automaticamente, muitas vezes em poucos dias. Essa rapidez é considerada uma das principais vantagens do modelo, sobretudo em atividades como a agricultura, onde o fluxo de caixa é altamente sensível a perdas climáticas.

Para Fernando Pimental, é importante entender que o seguro paramétrico não é perfeito, bem como o seguro rural. “No seguro rural, por vezes, o produtor vai fazer em relação à sua propriedade. Em seguida, a seguradora vai comprovar se teve a visita de um perito com uma análise de satélite. Com isso, vai definir o grau de perda e fazer a indenização. No caso do paramétrico é mais simples. Era para chover 250 milímetros, choveu 200 milímetros. Tem-se um déficit de 50 milímetros. Daí verifica-se a apólice para qual é a métrica adotada para indenização e será aplicada a franquia. Normalmente, ela existe nas apólices quando ocorre o sinistro. Neste formato, há uma indenização imediata. Então ele é um outro caminho”.

Adoção incipiente

No Brasil, a adoção do seguro paramétrico ainda é considerada incipiente, mas vem evoluindo nos últimos anos. Em 2021, o país registrou a primeira apólice desse tipo para a produção de cacau no sul da Bahia, utilizando dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) como base para os índices climáticos. A iniciativa marcou um passo importante na validação do modelo no território nacional, especialmente para culturas sensíveis à variação de chuvas.

Vantagens

Entre as vantagens do seguro paramétrico estão a rapidez no pagamento, a transparência dos critérios e a redução de disputas sobre perdas. Por outro lado, há limitações importantes, como o chamado “risco de base”, quando o índice não reflete perfeitamente a perda real do produtor e a dependência de dados confiáveis e bem distribuídos geograficamente. É também um seguro mais barato, porque não existe o custo de regulação de sinistro.

“E a questão do seguro agora, de uma maneira geral, seja o convencional, seja o paramétrico, é uma questão de cultura. Hoje, no Brasil, o brasileiro tem muito mais cultura de fazer o seguro do seu carro, da sua casa, do que da lavoura. Principalmente em algumas geografias onde, supostamente, a produção agrícola tem risco menor. E isso, infelizmente, é um problema para as seguradoras, porque você não consegue diluir o risco em regiões de menos sinistralidade em regiões com mais sinistralidade. Então essa questão da sinistralidade, estatisticamente, impacta as seguradoras, concluiu o consultor do Grupo Aliare.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br

 

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