
A expansão dos biocombustíveis no Brasil, impulsionada por investimentos e inovação tecnológica, aumenta a necessidade de segurança cibernética nas usinas. A digitalização dos processos industriais, a automação e a integração com sistemas de energia ampliam os riscos de ataques capazes de interromper a produção de combustíveis renováveis, açúcar e eletricidade.
Projetos relacionados aos biocombustíveis e à transição energética somam R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados no país, segundo dados apresentados durante o painel “Biocombustíveis e Transição Energética”, na terceira edição do Global Agribusiness Forum, realizado em São Paulo, nos dias 1º e 2 de outubro.
Novos mercados
Em sua fala durante o evento, Mário Campos Filho, presidente executivo da SIAMIG/Bioenergia Brasil, destacou o potencial de expansão dos biocombustíveis para além dos veículos leves, com aplicações na aviação, no transporte marítimo, nas máquinas agrícolas e na produção de biogás e biometano.
Segundo o executivo, mecanismos de mensuração da intensidade de carbono, como os associados ao RenovaBio, ajudaram a incorporar a descarbonização às estratégias do setor. Ele também citou experiências com misturas envolvendo etanol no transporte marítimo e o uso de biometano no transporte de açúcar, no deslocamento da cana e em equipamentos agrícolas.
O etanol também pode servir de matéria-prima para a produção de combustível sustentável de aviação (SAF). Para Campos, a conquista de novos mercados pode ampliar a demanda por combustíveis renováveis brasileiros e fortalecer a participação do país na transição energética.
Produção em expansão
Entre janeiro e agosto de 2026, a produção brasileira de biodiesel alcançou aproximadamente 6,83 milhões de metros cúbicos, ante 6,34 milhões no mesmo período de 2025, crescimento de cerca de 7,8%, conforme dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
O etanol de milho também amplia sua participação no mercado nacional. Segundo a União Nacional do Etanol de Milho (UNEM), o cereal já representa cerca de 30% da produção brasileira de etanol, enquanto a cana-de-açúcar responde pelos outros 70%. Para Amaury Pekelman, presidente-executivo da entidade, a participação do milho poderá chegar a 40% ou 45% na próxima década. A produção atual, estimada em 10 bilhões de litros, poderá receber outros 10 bilhões de litros nesse intervalo.
Além do combustível, o processamento do milho gera coprodutos, como o DDG, utilizado na alimentação animal, ampliando a integração entre os mercados de energia e alimentos e criando novas oportunidades para os produtores rurais.
Riscos cibernéticos
Contudo, a expansão e a modernização das usinas trazem desafios relacionados à segurança digital. Leonardo Cardoso, diretor de Relações Institucionais da TI Safe, empresa especializada em segurança cibernética de infraestruturas críticas, alerta que a integração entre produção de combustíveis, geração elétrica e automação pode ampliar os impactos de um ataque.
As instalações utilizam sensores, telecomunicações, redes corporativas e sistemas de supervisão e controle. A conexão entre a Tecnologia da Informação (TI) e a Tecnologia Operacional (TO) exige estratégias integradas de proteção. Sem mecanismos adequados de isolamento e controle de acesso, uma invasão iniciada nos sistemas administrativos pode alcançar ambientes responsáveis pelo funcionamento físico da usina.
No setor elétrico, a ANEEL e o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) estabelecem diretrizes e controles de segurança cibernética para os agentes e ambientes abrangidos pela regulamentação.
Um caso registrado na Austrália, em junho de 2026, demonstra os possíveis efeitos desses incidentes. A produtora Mackay Sugar teve as operações das usinas de Farleigh e Racecourse interrompidas após um ataque cibernético, com impactos no processamento, na colheita e no transporte de cana-de-açúcar. O episódio evidencia que as consequências podem atingir também produtores rurais e outros elos da cadeia produtiva.
Proteção e continuidade operacional
Diante desse cenário, a segurança cibernética precisa acompanhar os investimentos em produtividade e inovação. Além de proteger redes e equipamentos próprios, as empresas devem avaliar riscos relacionados a fornecedores de tecnologia e parceiros comerciais.
Com o crescimento do biodiesel, a expansão do etanol de milho e a abertura de novos mercados para combustíveis renováveis, a proteção das infraestruturas industriais torna-se fundamental para garantir a continuidade das operações. A modernização do setor exige não apenas eficiência e conectividade, mas também capacidade de prevenir ataques e reduzir seus impactos sobre a produção e o abastecimento.
Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
Agradecimento à Assessoria da TI Safe.
Informações adicionais: ANEEL, UNEM e Governo Federal.






