Cultivo de produtos para conserva gera renda para pequenos produtores

No norte de Minas Gerais, um grupo de pequenos agricultores melhorou de vida depois que uma agroindústria familiar se instalou na região.

A terra é seca, mas abençoada pelas águas do Rio Gorutuba que represadas garantem a produção das pequenas e grandes propriedades de Janaúba, região norte de Minas Gerais.

O município do semi-árido mineiro conta hoje com quase seis mil hectares de lavoura irrigada e é um importante pólo produtor de frutas, principalmente banana.

Além disso, de uns anos pra cá, Janaúba vem descobrindo uma nova vocação. Produzir variedades de pepino, específicas para conserva, acabou se tornando uma boa alternativa de renda para os pequenos produtores da região. Esse tipo de pepino não requer muita terra, produz rápido e tem mercado garantido.

Trinta dias depois do plantio começa a colheita, que dura mais 28 dias. Um único hectare de pepino rende aproximadamente 20 toneladas. O “mercado garantido” fica por de Vito Warken que deixou o Rio Grande do Sul no final da década de 1990 para instalar uma fábrica de conservas na cidade. “A grande vantagem que a gente oferece é um preço definido, acertado, e a garantia de que toda a produção a gente compra dele”, declara.

Vito compra o pepino em três tamanhos. “O tipo um vai até 5,5 cm, o tipo 2 vai até 7,5 cm e tem o tipo 3, acima de 7,5 cm. Ele vai ser uma componente do picles, uma conserva muito consumida no mercado. Nós pagamos R$ 1,5 por quilo no tipo1, o tipo 2, R$ 1,10 e o maior a R$ 0,40, o quilo.

Hoje, o dono da fábrica conta com 36 produtores parceiros. Um dos mais novos é o Roberto Santos, que está colhendo pela primeira vez. Ele tem uma propriedade familiar de sete hectares e decidiu ocupar com pepino uma área de 0,8, que equivale a oito mil metros quadrados.

“Vou repetir a experiência, tem mais um pedaço do outro lado, que dá mais ou menos uns 0,8 também, estou montando a irrigação lá e se deus quiser continuar a parceria aí. O dinheiro é rápido e de uma forma ou de outra você ainda gera emprego para a vizinhança”, afirma Roberto Santos.

A seleção do pepino colhido é serviço da família. Eliana Santos, mulher do Roberto, coordena o trabalho. “Eu seleciono os de primeira, segunda e terceira. A gente já vai tirando, colocando no saco, já fica prontinho pra pesar e colocar no caminhão pra carregar”, explica.

Quem está há mais tempo na atividade garante que o lucro é bom, beira os dez mil reais por hectare/safra – que dura cerca de 60 dias. Mas nem sempre foi assim. Antes da instalação da agroindústria de Vito Warken, os pequenos agricultores de Janaúba não queriam nem ouvir falar de pepino. Um trauma antigo, caso de Expedito Correia Lima, que começou a lidar com a cultura no final da década de setenta:

“Já teve comprador que não pagou, já teve vários compradores e nenhum se afirmou na região, então o desequilíbrio maior que tinha antes era isso. A gente chegou até a pensar em desistir, até desistiu um tempo por causa disso, depois que ele chegou pra cé equilibrou bem melhor. Ele foi uma pessoa que chegou, começou devagar, mas começou de pé no chão, então, hoje a gente considera ele um empresário de médio porte, muito bem sucedido e que vem dando essa sustentação a esse tipo de cultura que a gente sempre produziu”.

Pra conquistar a confiança dos produtores, além de garantia de compra e preço, Vito dá assistência técnica, financia sementes, adubo, defensivo. Às vezes, até empresta o dinheiro pra pagar a mão-de-obra da colheita. A fábrica ainda retira o produto diariamente nas propriedades e o agricultor não gasta com o frete até a cidade.

Setenta por cento de tudo que a agroindústria processa é pepino, mas por causa do sucesso desse modelo de parceria, mais culturas que servem para fazer conserva, vão conquistando espaço na região.

Outro produto que ganhou destaque por aqui foi o mini-milho, um milho convencional só que colhido quando está bem novinho. O agricultor Amauri Benedito Nunes só vê vantagens no cultivo do mini-milho. A fábrica compra toda a produção. Além disso, ele também serve para fazer rotação de cultura com o pepino – carro-chefe da propriedade – e pra reforçar a alimentação das vacas de leite com a palha e até com a espiga que passou do ponto.

Amauri tem doze hectares irrigados e conta que a parceria com a agroindústria de conserva mudou a vida da família. “Melhorou demais, porque a gente sofre muito com a falta de crédito e às vezes a gente tem a terra pra plantar, tem a água disponível, mas não tem condição de iniciar. Essa parceria, se a gente precisar de um adubo, e às vezes até de um adiantamento pra qualquer coisa que a gente precisa, a gente consegue. Essa parceira tem aquela confiança. É como se fosse um banco sem burocracia”, afirma.

A fábrica ainda incentiva a produção de cenoura, pimenta malagueta, pimenta biquinho. Junto com os agricultores da região, ela cresce: por mês, em média, compra e processa 80 toneladas de produto pra conserva. Tudo sob a rígida supervisão da família de Vito, a esposa e os dois filhos. Felipe é administrador e Camila, engenheira de alimentos. Ela explica que o segredo do sucesso deles está no frescor dos produtos, já que tudo é processado in natura:

“Caso a empresa se localizasse distante das áreas produtivas, o produto teria que receber uma etapa inicial de conservação, que seria manter ele em água com adição de sal. Com esse processo o produto já iniciaria uma fermentação e aí ele perderia algumas das características sensoriais que a gente considera positiva, que é a crocância, ele vai se tornando mais translúcido, menos firme e também um pouco mais salgado”, explica Camila Linck Warken.

Fonte: G1

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