Margens mais estreitas na carne bovina

Publicado em 18/05/2017

Quando a Polícia Federal sacudiu, em 17 de março, a rotina dos frigoríficos brasileiros, atraindo os holofotes internacionais para um escândalo de grandes proporções, a expectativa de executivos da indústria de carne já não era das melhores. Pressionados pela forte apreciação do real, muitos haviam jogado a toalha. Os resultados do primeiro trimestre, inevitavelmente, seriam mais fracos. Mas veio a Operação Carne Fraca, e o que estava complicado se agravou.

Maior indústria de carne bovina, a JBS foi pega no contrapé, com 90.000 toneladas de carne bovina no mar, a caminho de destinos variados que, em maior ou menor medida, passaram a barrar os produtos brasileiros. Marfrig e Minerva, respectivamente, segunda e terceira maior empresa de carne bovina, também tiveram de segurar seus estoques, o que aumentou a necessidade de capital de giro.

Tratado com reserva pelos frigoríficos até então, o impacto financeiro ficou um pouco mais claro anteontem, com a divulgação do balanço da JBS referente ao primeiro trimestre. Na semana passada, Minerva Foods e Marfrig também reportaram os resultados do período.

Embora o câmbio tenha feito os maiores estragos no balanço do trimestre, a Carne Fraca provocou um impacto “relevante” sobre os frigoríficos de carne bovina, disse na terça-feira o presidente global da JBS, Wesley Batista, em teleconferência. Apenas na operação de carne bovina da empresa, a investigação pode ter reduzido o lucro antes de juros impostos, depreciação e amortização (EBITDA, na sigla em inglês) em aproximadamente R$ 250 milhões.

Diretamente, o empresário evitou detalhar o impacto financeiro da Carne Fraca, mas forneceu pistas. De acordo com ele, o real mais valorizado “ajustou” para baixo o patamar de margens da indústria brasileira de carne bovina, para algo entre 5% e 9%, “entre mid single digit e high single digit”, estimou Batista, em condições normais de temperatura e pressão. Antes da alteração cambial, a margem dessa indústria era de dois dígitos.

Entre janeiro e março, porém, a margem EBITDA da JBS MERCOSUL, unidade de negócios que reúne as operações de carne bovina e subprodutos na América do Sul, foi de apenas 1%, uma queda de 9,9% em relação à margem EBITDA de 10,1% de igual período de 2016, quando o dólar estava próximo dos R$ 4,00.

Se tivesse atingido a margem mínima de 5% em condições normais, a JBS MERCOSUL teria reportado um EBITDA de R$ 310.5 milhões. Mas o resultado foi de apenas R$ 59.4 milhões ou R$ 251 milhões a menos.

De longe, a JBS foi a companhia de carne bovina mais afetada pela operação Carne Fraca no primeiro trimestre. As margens da Minerva também caíram, mas com uma intensidade muito menor. No primeiro trimestre, a margem EBITDA da empresa ficou em 9,2%, contra 10,8% um ano antes. Na Marfrig Beef (que reúne as operações de bovinos na América do Sul), a margem caiu de 9% para apenas 6,7%.

Segundo analistas, a JBS MERCOSUL foi a mais prejudicada pela Carne Fraca no primeiro trimestre devido ao seu gigantismo. A escala da empresa, cujo faturamento é mais de três vezes superior ao das concorrentes (gráficos acima) tornam a gestão dos estoques muito mais delicada.

Não à toa, observou um analista de um banco estrangeiro, a JBS foi primeira companhia a paralisar os abates, reduzindo inicialmente o nível de produção em 30%. Posteriormente, no fim de março, deu férias coletivas de 20 dias para os funcionários de dez dos 36 frigoríficos de bovinos, cortando drasticamente a produção prevista para abril.

Em entrevista recente ao Valor, o CEO da Marfrig, Martín Secco, admitiu o efeito negativo da Carne Fraca no primeiro trimestre, mas ressaltou que o câmbio foi mais prejudicial no período. Na Minerva, a Carne Fraca foi a justificativa para a piora do fluxo de caixa. A necessidade de capital de girou aumentou em R$ 40 milhões no período devido à investigação.

Neste segundo trimestre, a Carne Fraca voltará a afetar o resultado dos frigoríficos, reconheceram os executivos das três maiores empresas do setor. A boa notícia é que, após forte queda das exportações em abril, a situação se normalizou.

 

Fonte: Valor

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