Biotecnologia ajuda a elevar produtividade de trutas

23/02/2016|
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Pesquisadora científica da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, Yara Aiko Tabata afirma que a produção do sucedâneo de caviar, utilizando ovas de trutas, é uma opção como novo produto de valor agregado. Foto: Arquivo APTA

Os criatórios brasileiros de trutas caracterizam-se, em sua maioria, como empreendimentos agrícolas do tipo familiar, pois os recursos hídricos favoráveis para a criação dessa espécie são escassos, resultando em unidades com baixa escala de produção. Yara Aiko Tabata, pesquisadora científica da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA), aponta o uso da biotecnologia para o incremento da produtividade da espécie, aliada à diversificação de produtos de valor agregado.

“É preciso capacitar truticultores, técnicos em aquicultura e empresários do setor de gastronomia no desenvolvimento da truta e oferecer novidades tanto em tecnologias de cultivo para aumentar a qualidade e a produtividade, quanto em métodos de processamento pós-tanque, ampliando desse modo as formas de apresentação de produtos derivados deste pescado junto ao consumidor”, sugere.

Segundo a pesquisadora, devido a uma série de problemas, decorrentes de certo modo da baixa escala de produção (que caracteriza a maioria das unidades produtoras), somado à falta de espírito cooperativista, grande parte das truticulturas brasileiras ainda continua sem as licenças necessárias para a produção e a comercialização.

“Com o incremento da importação de pescados, sobretudo de salmonídeos (trutas e salmões) provenientes do Chile, associado ao aumento da produção brasileira de pescados (tilápias), a truticultura vive um cenário bastante delicado”, analisa.

Yara cita como agravantes da baixa escala de produção as restrições de locais passíveis de implantação de uma truticultura. Conforme explica, águas com temperaturas que não ultrapassem os 20 graus centígrados somente são encontradas no Brasil em regiões de alta altitude, onde predominam riachos que apresentam baixos volumes de água e não possibilitam a produção em grande escala.

“Assim, para se tornarem economicamente viáveis, as truticulturas brasileiras necessitam de uma exploração bastante racional dos recursos hídricos, com otimização das instalações e adequação dos manejos”, comenta.

Outro ponto destacado pela pesquisadora como desfavorável para a atividade é o fato de a truta ser uma espécie exótica e, por ter o hábito alimentar carnívoro, é enquadrada como de alto risco ambiental, o que torna ainda mais complicada a obtenção de licença ambiental. “Além disto, ainda há a dificuldade na certificação sanitária, pois a baixa escala de produção inviabiliza a instalação de abatedouros certificados”, observa.

 

ALTERNATIVA

Uma alternativa para se manter na atividade, segundo a pesquisadora, é investir em tecnologias que permitam ao produtor uma diversificação de mercado. “A produtividade pode ser melhorada empregando-se biotecnologias aplicadas à reprodução da truta arco-íris. Dentre elas as técnicas de reversão sexual para obtenção de lotes 100% fêmeas e de triploidização para produção de lotes estéreis merecem destaque. Já a produção do sucedâneo de caviar, utilizando ovas de trutas, é uma opção como novo produto de valor agregado”, aponta.

Devido à sobrepesca de esturjão e sua possível extinção, diversas pesquisas vêm sendo feitas para buscar espécies alternativas de peixes para substituir as ovas para confecção do caviar. Considerado uma iguaria gastronômica e com elevado valor agregado, o caviar obtido das ovas do esturjão desperta interesse do consumidor.

No Brasil, a tecnologia de obtenção do sucedâneo de caviar de ovas da truta arco-íris foi desenvolvida pela Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, através da Apta, em uma parceria envolvendo a Unidade Laboratorial de Referência em Tecnologia do Pescado do Instituto de Pesca (Centro do Pescado Marinho de Santos) e a Unidade de Pesquisa e Desenvolvimento (UPD) de Campos do Jordão da Apta, com suporte financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“As ovas da truta são coletadas por compressão abdominal, lavadas em solução salina e, após imersão em ácido lático, são submetidas a salga, envase e pasteurização. O produto assim processado e armazenado sob refrigeração poderá ser consumido em até seis meses”, explica.

 

Por equipe SNA/SP