Plano para melhorar escoamento é recebido com cautela por produtores

Estocagem a céu aberto: pesadelo para os produtores
Estocagem a céu aberto: pesadelo para os produtores

As filas de caminhões na entrada dos portos, os buracos nas estradas e os grãos estocados a céu aberto são imagens que ninguém quer voltar a ver em 2014. Com a expectativa de colher a maior safra da história – que pode chegar a 200 milhões de toneladas, segundo a Conab –, os agricultores brasileiros deparam-se novamente com uma antiga preocupação: como armazenar e transportar uma produção que cresce a cada ano. No dia 11 de dezembro, o governo anunciou uma série de medidas com o objetivo de facilitar o escoamento da safra agrícola – porém o anúncio ainda é visto com cautela pelo setor produtivo.

Entre as novidades está a abertura dos portos durante 24 horas, sete dias por semana, para agilizar a liberação de carga nos portos. Também estão previstos investimentos para a ampliação da capacidade de armazenagem pública (R$ 500 milhões para construir dez novas unidades e modernizar 84) e privada (R$ 25 bilhões para financiamentos nos próximos cinco anos). O programa prevê, ainda, obras de manutenção de algumas das rodovias mais utilizadas para o escoamento da safra, em especial na região Centro-Oeste (que deve produzir mais de 80 milhões de toneladas de grãos).

Uma das mudanças anunciadas é a nova forma de agendamento para a chegada de caminhões no Porto de Santos, feita a partir da origem da carga. Os veículos só poderão dirigir-se ao terminal portuário quando existirem vagas no estacionamento rotativo. O objetivo é evitar as filas de caminhões comuns durante a época de embarque da produção. O ministro da Agricultura, Antônio Andrade, destacou que a competência do setor, que pode resultar em uma safra recorde, cria necessidades que precisam ser enfrentadas pelo governo. “É isso que estamos fazendo ao apresentar um pacote de soluções para escoar a grande produção brasileira de grãos”, afirmou.

Representantes dos produtores rurais reagiram ao anúncio sem entusiasmo. “O passado nos direciona para a possibilidade de que seja de novo só um anúncio. Esperamos que não”, disse o diretor-administrativo da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato), Nelson Piccoli. Ele argumenta que há três anos a Conab reconhece que a capacidade armazenadora é pequena e de má qualidade. “Passaram-se esses três anos e ela não fez nada. Nós ficamos com o pé atrás”, acrescenta.

O dirigente da Famato também vê pontos positivos no anúncio feito pelo Ministério da Agricultura. “O governo está focado e dando oportunidades para que o setor privado também possa trabalhar em cima de estradas, transporte e armazenagem”, considera. Mas o produtor, segundo Piccoli, também tem de fazer a sua parte. “Ele tem que se organizar em grupos para usar esse dinheiro que o governo está ofertando e construir armazéns. Depende bastante do esforço das pessoas”, observa.

 

Protásio diz
Protásio lembra que as perdas médias de grãos no Brasil são superiores a 10% da produção anual

 

Enquanto espera a implementação das medidas, o campo continua a sofrer as consequências da logística deficiente. O diretor técnico da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) Paulo Protásio lembra que as perdas médias de grãos no Brasil são superiores a 10% da produção anual, segundo o Ministério da Agricultura, Conab e FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura). “Isso representou cerca de 12 milhões de toneladas no ano passado, porém, a soma com as perdas em qualidade pode elevar mais ainda esse percentual, uma vez que comprometem o uso do grão ou o classificam para uso com menor valor”, explica.

Na opinião do especialista, as demandas do setor referentes ao escoamento da safra poderão ser atendidas no longo prazo, desde que haja uma organização de forma consistente. “São 25 anos de histórico de crescimento de safra e 25 anos de problemas (de escoamento)”, observou. Ele chama a atenção para o paradoxo existente entre a curva de crescimento da produção agrícola e a do seu escoamento. “Apesar das ações, planos e investimentos realizados, existem claramente um déficit na área de armazenamento, elevada deficiência na infraestrutura de transporte e serviços, o que resulta em elevado custo de logística. Tal custo afeta a competitividade e o barateamento da produção.”

 

Por Equipe SNA/RJ

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