A demanda firme por soja brasileira, tanto por parte da China quanto da indústria nacional de aves e suínos, também influenciada pelo apetite dos asiáticos, continua a levar os preços do grão a renovar máximas.
Com mais de 95% do volume recorde de 125 milhões de toneladas colhidas na safra 2019/20 já negociado, o carro-chefe do agronegócio no país não tem gerado bons resultados apenas para agricultores e tradings. Com farelo e óleo também valorizados, as margens de processamento estão igualmente em alta e, ao que tudo indica, o cenário deverá impulsionar novos avanços da cadeia produtiva na safra 2020/21, cujo plantio começará em setembro.
Nesta semana, o indicador Esalq/BM&FBovespa para a saca de 60 quilos negociada no porto de Paranaguá (PR) superou pela primeira vez a marca de R$ 130,00. Em agosto, a valorização supera 10%, e nos últimos 12 meses se aproxima de 55%. Em termos reais, se trata do maior patamar desde 2012.
Mas não é só o grão que está em rota ascendente. Para as empresas processadoras, farelo e óleo também estão atraentes. “Não se pode esperar preços recordes para a soja se os derivados não estiverem rentáveis”, disse Lucílio Alves, responsável pela área de grãos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) ao Valor.
Mesmo com a progressiva valorização da soja em grão, alavancada pelo câmbio, a margem de lucro das indústrias, considerando os preços FOB da matéria-prima, do farelo e do óleo de soja em Paranaguá, aumentou 5% apenas entre 30 de julho e 6 de agosto. Chegou a US$ 27,27 por tonelada nos negócios para entrega em setembro, segundo o Cepea, enquanto no mesmo período do ano passado ficou em US$ 11,42 por tonelada.
“Estamos em um ano atípico, em que muitos fatores convergem para a valorização da oleaginosa, notadamente a forte demanda chinesa por grão e farelo e a valorização do dólar ante ao real”, disse Daniel Amaral, economista-chefe da Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove), que representa grandes grupos como ADM, Amaggi, Bunge, Cargill, Cofco Louis Dreyfus Company, entre outros.
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No primeiro semestre foram processadas no País 23.38 milhões de toneladas de soja, 6,60% mais que no mesmo período de 2019. A Abiove estima que o volume chegará a 44.6 milhões de toneladas em 2020 como um todo, ou seja, 1.2 milhão de toneladas a mais que no ano passado. “Mesmo com a pandemia e com o dólar estimulando as exportações, as indústrias que se planejaram não estão com falta de produto”, afirmou Amaral.
Para Carlos Cogo, sócio-diretor da Cogo Consultoria, a forte demanda por farelo de soja brasileiro no mercado internacional, ampliada após a elevação das tarifas de exportação na Argentina, também pesa a favor das indústrias.
De janeiro a julho, o Brasil exportou 10.3 milhões de toneladas de farelo de soja, com aumento de 5,60% em relação aos sete primeiros meses de 2019. Em agosto, os embarques devem somar 1.8 milhão de toneladas, segundo a Associação Nacionais dos Exportadores de Cereais (Anec).
“Como o ritmo de exportações de farelo foi muito maior que o habitual, as indústrias estão tendo de correr atrás do grão que ainda está disponível no mercado para recompor estoques”, disse Luiz Fernando Roque, analista da Safras & Mercado. E esse movimento, claro, também colabora para manter os preços da matéria-prima em patamar recorde, tendo em vista que a corrida para ampliar os embarques da matéria-prima continua a todo o vapor.
De janeiro a julho, as exportações da oleaginosa somaram 69.8 milhões de toneladas, com aumento de 36% em relação ao mesmo período de 2019, segundo a Anec. Caso as 6.58 milhões de toneladas estimadas para agosto sejam de fato embarcadas, o total chegará a 76.4 milhões de toneladas – 20 milhões de toneladas a mais que nos oito primeiros meses do ano passado.
Para complementar o abastecimento interno sem prejudicar muito os estoques, as importações do grão do Brasil, que lidera a produção e as exportações mundiais, também deverão bater recorde. O volume poderá chegar a 1 milhão de toneladas neste ano, estimam a Safras & Mercado e a consultoria StoneX.
Até agora, o maior volume comprado no exterior, principalmente em vizinhos da América do Sul, foi em 2014 (500.000 toneladas). Até julho, foram 400.000 toneladas. “Todo ano importamos um pouco, mas esse patamar é inédito”, disse Roque.
No caso do óleo de soja, quem puxa a demanda é a produção de biodiesel para o mercado doméstico. Apesar das turbulências nesse mercado nos últimos dias, com o impasse provocado pela redução da mistura obrigatória do biocombustível no diesel fóssil de 12% para 10%, a medida sinaliza que há destino garantido para a produção.
Valor Econômico






