Guedes forma equipe liberal pragmática

Com a escolha dos presidentes dos bancos federais, a equipe de Paulo Guedes começa a tomar forma, com preponderância de nomes do mercado financeiro com passagens pelo antigo banco Bozano, Simonsen e de economistas da Universidade de Chicago e da Fundação Getulio Vargas (FGV). Há quatro décadas, isso seria a garantia de um governo claramente liberal, mas o tempo fez com que as posições ideológicas dessas escolas de economia se diluíssem.

Ex-diretor do BNDES, o economista Rubem Novaes, um PhD pela Universidade de Chicago, será o presidente do Banco do Brasil, informou Guedes ontem. O economista Pedro Guimarães, PhD pela Universidade de Rochester, assume a Caixa Econômica Federal, depois de mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro, com passagens por Bozano, BTG Pactual e Brasil Plural.

Para presidir o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foi escolhido o economista Carlos Von Doellinger, que foi secretário da comissão de programação financeira entre 1980 e 1983, órgão que antecedeu a Secretaria do Tesouro. Ele é um economista do próprio Ipea, com extensa produção de estudos sobre o setor externo.

O Valor ouviu diferentes opiniões no mercado financeiro sobre a indicação de Guimarães para a Caixa. Um executivo diz que ele tem grande experiência em operações de fusões e aquisições. “Ele conhece o mundo das instituições financeiras ligadas ao governo”, afirma uma fonte.

Guimarães participou da operação de aumento de participação da BB Seguros na Brasilprev e há muito tempo vinha estudando a estrutura da Caixa. Outros executivos do mercado lembraram que ele é genro de Leo Pinheiro, ex-presidente e sócio da OAS, um dos delatores da operação LavaJato, mas não teve seu nome envolvido no escândalo. Outro disse que ele é “inteligente”, mas pondera que a Caixa é um banco com operações mais complexas do que o Plural.

Novaes foi membro do conselho técnico da Confederação Nacional do Comércio (CNC). Segundo uma fonte, ele tem um perfil mais acadêmico e, nos últimos anos, estava afastado das atividades mais diretas no mercado. Foi diretor do BNDES quando o banco ganhou a última letra da sigla e passou a ter uma função também social.

Sempre defendeu a redução do crédito subsidiado e deve focar em tornar o BB mais competitivo, buscando a privatização e parcerias de áreas que não forem o core business do banco. “Acho que ele vai focar em áreas prioritárias para o BB e reduzir a competição com a Caixa em alguns setores”, disse um executivo.

Novaes foi citado ainda no caso do banco Marka, investigado por suposto tráfico de influência. O economista foi acusado, na época, de envolvimento nas operações de venda de dólares no mercado futuro aos bancos Marka e FonteCindam. Segundo depoimento do próprio Novaes, ele tentou ajudar Salvatore Cacciola, então dono do banco Marka, a fim de evitar a quebra da instituição. Foi absolvido.

Ontem, após a indicação, ele disse que sua gestão no BB será voltada à eficiência, ao enxugamento e às privatizações “no que for possível”. Descartou uma venda total da instituição e disse que as alienações de braços da empresa serão feitas via mercado de capitais.

“Você vai procurar fazer primeiro operações que mobilizem o mercado de capitais, com o máximo de transparência possível. Aquela fase de privatização em que se direcionava a venda para determinados compradores e montava consórcios de compra está ultrapassada. Hoje a ideia é usar o mercado de capitais na privatização”, afirmou o economista.

Guedes, ele próprio um PhD por Chicago, já havia escolhido outros economistas que passaram por essa escola: Roberto Castello Branco, para presidir a Petrobras; e Joaquim Levy, para o comando do BNDES. Todos, assim como Guedes, têm ligações com a Fundação Getulio Vargas (FGV).

O futuro presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, começou a carreira de banqueiro no Bozano, que foi adquirido pelo Santander, onde se tornou vice-presidente. Quando se tornou conselheiro da campanha de Bolsonaro, Guedes era sócio e diretor-executivo da Bozano Investimentos.

Nos anos 1970, Chicago era associada ao pensamento econômico liberal, com o monetarista Milton Friedman entre um dos principais expoentes. Naquela época, as universidades eram divididas em dois grandes grupos: as mais liberais eram chamadas de “freshwater” (ou água doce) e incluíam universidades próximas aos Grandes Lagos, como Chicago, Cornell e Rochester; e o outro grupo que aceitava a maior intervenção do governo para o equilíbrio da economia era conhecido como “saltwater”, ou água do mar, incluindo universidades próximas das costas dos Estados Unidos, como Princeton, Yale e Berkeley.

No Brasil, a FGV era considerada mais ortodoxa na década de 1970. Um grupo de economistas abertos ao pensamento heterodoxo, incluindo Francisco Lopes e Edmar Bacha, deixou esse centro para fundar o Departamento de Economia da PUC-Rio.

“Houve uma convergência entre o pensamento desses dois grupos de universidades americanas e, hoje, essa divisão não existe mais”, afirmou o economista da FGV José Júlio Senna. “Dados os problemas gritantes que temos hoje no Brasil, não há diferença de opiniões sobre o que precisa ser feito.”

O que há de novo na equipe de Guedes é a ausência desenvolvimentistas, que criavam pluralismo, e maiores divisões, tanto nos governos Lula e FHC.

“É uma equipe com sólida formação acadêmica e consistência intelectual, com visão pró-mercados. Sem aquela divisão entre ortodoxos pró-mercado e desenvolvimentistas, que acreditam no protagonismo do Estado, típica de governos passados”, afirmou Mario Mesquita, ex-diretor de Política Econômica do BC e economista-chefe do Itaú Unibanco.

Um economista com passagem pelo governo nota que, apesar de toda a retórica liberal da campanha eleitoral, Guedes já está adotando um tom mais pragmático. No caso das privatizações, por exemplo, a Petrobras e bancos federais seguirão sob o controle do Estado. Serão vendidas algumas atividades, como distribuição de combustíveis e área de cartões de crédito da Caixa, que neste segundo caso fazia parte inclusive das propostas do governo Dilma.

Sem recursos para fazer a transição para o regime de contas individuais na Previdência, sistema adotado pelos ‘Chicago Boys’ no Chile, o futuro ministro da Economia diz que a prioridade é equacionar o déficit do sistema de repartição.

Senna, da FGV, disse que, mais do que o perfil liberal, Guedes escolheu nomes de sua confiança para cargos-chave, pois alguns são amigos de longa data, como no caso de Novaes e Castello Branco.

 

Fonte: Valor Econômico

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp