Escassez impulsiona preços do feijão e aumenta revolta dos brasileiros

Como muitas pessoas no Brasil, Maria da Glória Silva não considera uma refeição completa aquela que não tenha arroz e feijão. Ela come isso seis dias por semana, tanto no almoço como no jantar, com uma boa colherada de alho como tempero ao lado de uma carne de frango ou porco.

Recentemente, no entanto, Maria da Glória ficou indignada que o quilo do seu feijão predileto dobrou de preço, para R$ 12,00, quando antes custava cerca de R$ 5,00 ou R$ 6,00. Ela agora gasta quase um sexto de seu orçamento mensal na compra deste alimento de primeira necessidade.

“Nós não podemos ficar sem feijão”, disse a lojista de 58 anos, do bairro operário de Itaquera, em São Paulo. “Todos estão furiosos.”

Em meio a uma grave recessão, um processo de impeachment presidencial, uma epidemia de Zika e o maior escândalo de corrupção da história do País, os brasileiros estão agora sofrendo com os preços exorbitantes de uma de suas comidas favoritas.

O clima irregular levou à pior safra do grão em quatro anos. Juntamente com a inflação, a escassez estimulou uma disparada nos preços do feijão.

O tipo mais atingido é o feijão carioca, famoso pelo seu caldo cremoso quando cozido. Esta variedade castanho claro, que é a favorita de Maria da Gloria e milhões de brasileiros, representa cerca de 65% das vendas de feijão no Brasil.

Durante o ano passado, os preços de varejo do carioca subiram quatro vezes mais rápido que a taxa de inflação.

Em um supermercado na cidade de São Paulo, o aviso na entrada pedia desculpas pelo aumento no preço do carioca, oferecendo também, alternativas que incluía lentilhas e ervilhas.

Mas, para muitos comer feijão diariamente se tornou um hábito difícil de abandonar. Sete em cada dez brasileiros consomem alguma variedade do grão em sua alimentação diária.

O consumo médio anual é de 19 quilos de feijão per capita de acordo com dados do IBRAFE (Instituto Brasileiro de Feijão e Pulses). Em comparação aos Estados Unidos a média é de 3,5 quilos por pessoa/ano.

Diante da oferta limitada e o aumento dos preços, os brasileiros ainda lidaram com humor. Piadas (memes) nas redes sociais mostravam carros blindados entregando feijão para supermercados e namorados que ofereciam anéis de feijão como presente.

Outras publicações noticiaram que a presidente afastada, Dilma Rousseff, doou 625.000 toneladas de feijão para Cuba em 2015 sendo a responsável pela atual escassez.

Seu substituto, o presidente interino Michel Temer – cujos índices de aprovação são quase tão baixos quanto de Dilma Rousseff – não quer correr riscos.

No mês passado, ele anunciou via Twitter que o Brasil iria suspender as tarifas de importação temporariamente, para permitir que feijão estrangeiro chegasse às prateleiras dos supermercados.

Mas as importações não devem satisfazer os consumidores exigentes do Brasil. Enquanto as variedades, incluindo o feijão preto – um ingrediente chave da feijoada – são cultivados em outros países, o carioca raramente é encontrado no exterior.

Uma mistura infeliz de chuvas e seca nos estados produtores do país limitou severamente as colheitas deste ano. João Oliveira, um fazendeiro no sudeste do estado de Minas Gerais, disse que sua produção em maio foi de cerca de 450 quilos de grãos por hectare, cerca de um quinto da colheita típica.

“As coisas não correram bem. As chuvas pararam e o sol castigou as lavouras”, disse Oliveira, que cultiva principalmente o feijão carioca.

A Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) prevê queda de 6,1% na colheita de feijão no País, para 2.9 milhões de toneladas. Já a IBRAFE estima colheita de 1.5 milhões do carioca neste ano, quase 22% a menos que no ano passado.

Devido a escassez, os preços altos para soja e milho têm incentivado pequenos produtores a plantarem essas culturas ao invés de feijão. A Conab aponta que área plantada de grãos para a temporada 2015/2016 foi a menor em pelo menos 39 anos.

“Temos um ditado, ‘você pode ficar sem dinheiro, mas nunca sem feijão'”, disse Lüders, do Ibrafe. “Bem, agora ficamos sem feijão”.

 

 

 

Fonte: Wall Street Journal

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