Impactos da pandemia ainda não são graves nas exportações do agronegócio, indica pesquisa

Monitoramento realizado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) ainda não identificou problemas expressivos causados pela pandemia do novo Coronavírus para as exportações de produtos do agronegócio do país. No primeiro bimestre, os embarques setoriais renderam US$ 12.2 bilhões, US$ 1.1 bilhão menos que no mesmo período de 2019.

A área técnica internacional da entidade informou que até o momento nenhum caso de interrupção de contrato foi reportado para qualquer destino no mundo, apesar de relatos de renegociações para exportação de mercadorias frescas da Europa. Fechamento de bares e restaurante, restrições em voos e protecionismo são pontos de alerta neste momento.

“Houve queda (nos valores exportados este ano), mas não muito significativa. Boa parte dos contratos foram negociados no ano passado, portanto, ainda não é possível dizer que a responsável foi a pandemia. Nos próximos meses poderemos ver melhor esses impactos em termos de balança”, afirmou hoje a gerente de Inteligência Comercial da CNA, Sueme Andrade.

“Temos de aguardar o fechamento do mês para ter informações mais atualizadas. Mas, mesmo durante o pico da epidemia, exportamos mais carne bovina que no ano passado. Houve problemas, mas é muito individualizado, e a China está voltando com tudo”, analisou Lígia Dutra, superintendente de Relações Internacionais da CNA.

“A retomada das atividades na China e as medidas adotadas por diversos países para garantir o abastecimento alimentar tendem a sustentar o volume das exportações brasileiras mesmo com a pandemia”.

A normalização das operações nos portos chineses é o principal destaque. “A vida está voltando ao normal, as empresas retomando os trabalhos e as pessoas estão voltando às ruas. O governo chinês diz que 80% dos trabalhadores voltaram”, disse Lígia.

“Os portos já voltaram a operar normalmente. Antes não havia interrupções de contratos, mas houve atrasos porque os trabalhadores não estavam indo, não tinha transporte. Agora já está normalizado”.

A previsão de contração de 13% das atividades industriais na China e de 20% das vendas no varejo no país asiático ainda preocupam. “Tem um reflexo no mundo, e a China é nossa principal parceira comercial. Pode ter um reflexo, mas para os produtos que o Brasil exporta a gente tem visto fluxo normal”, afirmou Lígia.

Na União Europeia, segundo principal destino dos produtos agropecuários brasileiros, o alerta é para o fechamento de bares e restaurantes. “Outra preocupação é a questão dos voos internacionais, e tem havido restrição lá. Algumas frutas e outros produtos frescos usam transporte aéreo para distribuição”, disse Sueme Andrade.

Na França e na Itália, o consumo de produtos frescos, como queijos, peixes, frutas e hortaliças, diminuiu. “Isso também gera preocupação do exportador do lado de cá. Algumas empresas italianas, de menor porte, estão buscando renegociar contratos de produtos que seriam importados do Brasil, mas não houve nenhum caso concreto de interrupção de contrato”, informou Sueme.

No Oriente Médio, os governos locais começaram a implementar medidas para garantir a segurança alimentar da população, como a diminuição de burocracia para a importação de alimentos. O desembaraço mais rígido e demorado está normalizado na Arábia Saudita, avaliou a CNA.

Em países islâmicos, a proximidade do início do mês sagrado, o Ramadã, também gera uma “flexibilidade nas regras”. No Marrocos, por exemplo, documentos cobrados no momento da importação podem ser entregues posteriormente. Medidas para facilitar o fluxo de mercadorias também foram tomadas no Egito, Vietnã e Indonésia, até com a redução de impostos de importação.

Já nos Estados Unidos, terceiro principal destino das exportações do agronegócio brasileiro, a preocupação é com o protecionismo. No pacote de medidas que o setor americano pediu ao governo está, novamente, a solicitação para o fechamento do mercado para carne bovina in natura do Brasil. Segundo Lígia Dutra, casos assim surgem “no meio de cenários conturbados” e é preciso estar atento para “não dar asas aos interesses protecionistas”.

A CNA destacou que o Congresso dos EUA deverá votar um pacote de US$ 1.2 bilhão para assistência alimentar e compras governamentais. Desse total, US$ 400 milhões são apenas para aquisição de commodities. “O governo está investindo em compras para manter a produção agrícola”, disse Lígia.

 

Valor Econômico

 

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