Boa demanda por chocolate estimula moagem de cacau

No embalo do crescimento econômico global do ano passado e dos preços relativamente baixos do cacau, a moagem da matéria-prima realizada pelas indústrias para atender a produção de chocolate  (que, por ser um produto “de luxo”, é bastante sensível a oscilações de renda), cresceu em importantes polos industriais em 2018.

Considerando dados divulgados recentemente sobre os volumes processados na Europa, na América do Norte, na Ásia, na Costa do Marfim e no Brasil, as empresas processadoras utilizaram, no total, cerca de 3.5 milhões de toneladas de cacau no ano passado, quase 4% a mais do que em 2017.

O avanço reforça estimativas de que a demanda por chocolate continua aquecida no mundo, o que já chegou a alimentar especulações sobre uma possível escassez de cacau para atender o consumo crescente.

Em meados de janeiro, porém, o mercado centrara o foco apenas nos dados das regiões mais desenvolvidas do planeta e se decepcionaram com os resultados, o que fez os preços da amêndoa recuarem nas bolsas recentemente.

Analistas ponderaram, contudo, que os investidores menosprezaram o desempenho da atividade nas regiões emergentes, que vêm oferecendo expressiva contribuição para o crescimento da moagem global já há alguns anos.

Termômetro disso é a Ásia, que há anos já processa mais cacau do que a América do Norte. No continente, a utilização de amêndoa cresceu 7,8% em 2018 na comparação com o ano anterior e alcançou 781.000 toneladas, segundo a Associação de Cacau da Ásia. Foram 56.700 toneladas a mais.

Quem também já ultrapassou a indústria americana foi a Costa do Marfim, que lidera o cultivo mundial de cacau e está em segundo lugar no ranking de países processadores da matéria-prima, atrás apenas da Holanda.

No ano passado, as fábricas instaladas no país africano moeram 515.000 toneladas da amêndoa, segundo estimativa da consultoria INTL FCStone com base em dados dos exportadores. Em relação a 2017, o aumento foi de 2,4%, ou 12.000 toneladas.

As indústrias instaladas na América do Norte, por sua vez, vêm mantendo um ritmo estável de moagem de cacau nos últimos anos. De acordo com a Associação Nacional dos Confeiteiros dos Estados Unidos, que também reúne os dados do México e do Canadá,, as indústrias da região processaram no ano passado 484.100 toneladas, o mesmo patamar de 2017 e de 2016.

Já a Europa continua imbatível na liderança do processamento de cacau e produção de chocolates e confeitos. Em 2018, as indústrias do continente incrementaram a quantidade de cacau processado em 58.200 toneladas e bateram recorde com 1.4 milhão de toneladas, conforme informações da Associação Europeia de Cacau (ECA, na sigla em inglês). Em termos percentuais, a variação foi de 4,2%.

O Brasil, que abriga quatro plantas processadoras de cacau, moeu 230.800 toneladas de cacau no ano passado, com um leve aumento de 1,2%, segundo levantamento da TH Consultoria, sediada em Salvador, na Bahia.

“Já temos observado em relatórios há um tempo essa tendência de crescimento mais rápido do processamento nos centros de produção agrícola”, disse Lucas Warwar, analista da FCStone.

“Embora o consumo de chocolates continue maior nos países mais desenvolvidos e isso seja, ao fim e ao cabo, o que puxa a demanda por processamento de cacau, as indústrias localizadas nas regiões mais ricas não têm mais capacidade ociosa suficiente para atender a esse crescimento”.

Na Costa do Marfim, investimentos de multinacionais como Cargill e Olam, atraídos por benefícios fiscais concedidos pelo governo, garantiram ao país hoje uma capacidade instalada para moer até 712.000 toneladas por ano. Gigantes do segmento também fizeram aportes relevantes na Indonésia e na Malásia, onde compram cacau produzido na região e ainda importam da África.

Embora o consumo de chocolate nessas regiões também esteja em flagrante ascensão, o ritmo de processamento de cacau ainda depende basicamente das oscilações de renda nos países desenvolvidos – que tende a perder fôlego neste ano.

“As margens de processamento continuam elevadas em comparação às médias históricas. Mas estamos em contexto geral de desaceleração do crescimento. A tendência é que a moagem continue crescendo, mas não em ritmo tão acelerado”, disse Warwar, da FCStone.

 

Valor Econômico

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