América Latina mostra força na exportação agropecuária

A América Latina e o Caribe deverão consolidar sua posição de maior região exportadora de produtos agropecuários nos próximos dez anos, com o Brasil em posição central na produção e nos embarques de produtos como soja, milho, carnes, açúcar e café. A estimativa é da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da agência da ONU para agricultura e alimentação (FAO), que publicaram na manhã de ontem o relatório “Perspectivas Agrícolas 2019-2028”.

Conforme mostram os relatórios anuais anteriores divulgados pelos dois órgãos, ao longo dos anos 2000 as Américas em geral reforçaram sua posição de grandes fornecedoras globais de alimentos. Para os próximos dez anos, as perspectivas são especialmente favoráveis para a América Latina e o Caribe, que ainda têm terras disponíveis para a expansão da produção e água abundante.

A região já representa 14% da produção e 23% das exportações mundiais agropecuárias e de pescados. Até 2028, a fatia nas exportações deverá superar 25%, o que a consolidará como líder mundial no fornecimento de produtos do agronegócio.

O ritmo de crescimento da produção na América Latina, incluindo o México, e no Caribe deverá arrefecer ligeiramente entre 2019 e 2028, mas ainda assim, segundo OCDE e FAO, chegará a 22% no caso dos cereais e a 16% nos produtos da pecuária, 7% e 2% acima das progressões médias globais previstas, respectivamente.

A desaceleração da produção será definida pelo desempenho das exportações, o que mostra a importância de uma maior abertura do comércio global para a região. Liderados pelo Brasil, os embarques de açúcar deverão crescer 6,90%, os de trigo e arroz aumentarão 23% e 24%, respectivamente, e os de oleaginosas, encabeçados pela soja, 40,50%. Também até 2028 as vendas externas de carne bovina tendem a avançar 57%; as de carne suína vão aumentar 33% e as de carne de frango subirão 27%.

Segundo o relatório de OCDE e FAO, as exportações agropecuárias da América do Norte (Estados Unidos e Canadá), por sua vez, deverão registrar incremento mais moderado nos próximos dez anos.

Os embarques da Austrália e da Nova Zelândia continuarão estáveis, como estão há duas décadas, enquanto a Europa, incluindo Rússia e Ucrânia, consolidará sua transformação de importadora a exportadora líquida de produtos agrícolas, em parte pela estagnação de sua população. O crescimento da produção, puxado, sobretudo, por Rússia e Ucrânia, importantes players nos mercados de trigo e milho, respectivamente, será determinante nesse processo.

Segundo a OCDE e FAO, América Latina e Caribe estarão em condição privilegiada de atender à dinâmica demanda por alimentos da África Subsaariana, da Índia e da China, por exemplo. Mas a China, que estimulou o crescimento da demanda mundial por produtos agropecuários nos anos 2000, verá esse aumento diminuir nos próximos dez anos, embora o fluxo vá continuar robusto.

A participação chinesa nas importações globais de soja passou de menos de 30%, no início da década passada, para mais de 60%; nas de leite, a fatia subiu de 10% a 20%. Segundo o estudo, essas proporções não vão mudar entre 2019 e 2028.

A maior parte das commodities agrícolas analisadas no relatório deverão registrar baixas em seus preços reais de cerca de 1,20% ao ano na próxima década, em razão do crescimento da produtividade. No caso de produtos como óleo, leite em pó e etanol, a tendência é de estabilidade ou de pequenas valorizações.

De acordo com a OCDE e FAO, a produção agropecuária deverá crescer 15% no planeta nos próximos dez anos, sem grandes alterações na dinâmica de uso da terra. A expansão será dividida essencialmente entre países emergentes e em desenvolvimento, graças à disponibilidade de recursos naturais na América Latina e à aceleração da demanda na Índia e África, por exemplo.

O avanço da produção será bem mais modesto na América do Norte e na Europa, onde as produtividades em geral já atingiram níveis elevados e as políticas ambientais limitam possibilidades de expansões expressivas. Já o consumo global deverá aumentar 1,20% no caso dos cereais, 1,70% no de produtos de origem animal, 1,80% no de açúcar e óleos vegetais e 1,90% no de leguminosas.

No mercado de cereais, as exportações deverão crescer no rastro do aumento da oferta de milho, o que poderá compensar a queda nas vendas de trigo e de cereais secundários. A demanda por cereais deverá aumentar mais para a alimentação animal do que para humana. E, até 2028, América Latina e Caribe vão produzir 18% do total mundial de milho, 11% do trigo e 4% do arroz.

A produção mundial de soja deverá continuar a avançar 1,60% ao ano. Segundo o estudo, o Brasil se consolidará como o maior produtor mundial, com 144 milhões de toneladas até 2028, superando os EUA. Mas, para OCDE e FAO, o desenvolvimento da produção e das exportações americanas e brasileiras de soja dependerá das negociações comerciais em andamento entre Pequim e Washington.

A produção de outras oleaginosas aumentará 1,40% ao ano, em ritmo menor que o da última década, sob o efeito da desaceleração da demanda por óleo de canola como matéria-prima para biodiesel na Europa.

Com relação ao açúcar, o estudo lembra que há dois anos a Índia tomou do Brasil o título de maior país produtor do mundo, mas reforça que os brasileiros continuarão a dominar o comércio mundial da commodity e que sua fatia de mercado, em baixa há alguns anos, voltará a crescer no início dos anos 2020. A Tailândia continuará a ser um concorrente importante em mercados em expansão da África, do Oriente Médio e da Ásia.

Em diversos países desenvolvidos e em alguns em desenvolvimento, África do Sul, Brasil, México, Egito, Paraguai e Turquia, o consumo de açúcar alcançará níveis preocupantes do ponto de vista de saúde (obesidade, diabete e outros problemas), o que poderá precipitar a adoção de medidas como a taxação de bebidas com elevados do produto, conforme a análise dos órgãos multilaterais.

Enquanto isso, a oferta mundial de carne deve continuar em expansão. Até 2028, a expectativa é que a produção mundial tenha crescido 13% em relação à década anterior. Os preços reais poderão declinar no médio prazo nessa frente, em linha com um avanço maior da oferta do que da demanda. A carne de frango deverá ser motor do incremento da produção total, mas o ritmo tende a ser menor que o observado até agora.

No mercado de algodão, a produção mundial deverá progredir 16% até 2028, a partir do aumento da área cultivada. A Índia tende a permanecer como o principal produtor mundial, e os EUA vão manter na liderança das exportador.

Mas o Brasil vai se firmar no grupo dos grandes exportadores, graças ao plantio na safra de inverno, semeada em áreas que no verão são ocupadas por soja. Assim, a fatia brasileira nas exportações poderá subir dos atuais 10% para quase 15% em 2028. O preço real do algodão, por sua vez, deverá recuar 23% nos próximos três anos e se aproximar da cotação do poliéster.

No tabuleiro do café, o Brasil, maior produtor e exportador mundial, aumentou sua fatia global de 23% para 29% nas últimas duas décadas, enquanto a da Colômbia caiu 8%, de 17% para 9%. Na próxima década, a alta do consumo em emergentes como China, Rússia e Coreia do Sul e em países exportadores como Índia, Indonésia e Vietnã deverá valorizar o potencial de produção na América Latina e no Caribe. Mas a região deverá se adaptar a mudanças climáticas que afetarão a produção em alguns polos.

Ainda segundo o estudo da OCDE e FAO, a produção mundial de leite deverá aumentar 1,70% por ano, mais rapidamente do que o ritmo de avanço previsto para a maioria dos demais produtos agropecuários. E no caso dos biocarburantes, a demanda poderá passar por uma desaceleração. É esperado aumento da demanda na Indonésia, onde o biodiesel é produzido a partir do óleo de palma, e na China e no Brasil, que utilizam mandioca e cana-de-açúcar, e milho, no caso brasileiro, para produzir etanol.

 

Valor Econômico

Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp