Tarifa dos EUA sobre parceiros do Irã deixa exportações brasileiras em alerta

Até o momento, porém, a Casa Branca não divulgou os detalhes formais da medida, o que mantém incertezas quanto ao seu alcance e à forma de implementação – Foto: Canva

 Com a nova crise política no Irã, em meio a ondas de protestos contra o regime dos aiatolás, o Brasil monitora possíveis desdobramentos comerciais do conflito. Isso porque o presidente americano Donald Trump anunciou que irá sobretaxar em até 25% produtos oriundos de países que façam negócios com os iranianos. A sanção deve vir através de nova ordem executiva, ainda a ser assinada pelo mandatário republicano. A tensão entre Irã e Estados Unidos remonta ao final da década de 1970, quando os países romperam relações diplomáticas em meio a hostilidades mútuas, tendo como pano de fundo a alta do petróleo e a revolução islâmica que depôs a monarquia local.

O Brasil pode ser afetado pela medida em razão da relação comercial com o país do Oriente Médio. Em 2025, empresas brasileiras importaram US$ 84,5 milhões do Irã, principalmente ureia, pistache e uvas secas. Já as exportações somaram US$ 2,9 bilhões. Apesar dos valores envolvidos, o Irã não está entre os 20 principais parceiros comerciais do Brasil, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

Milho e Soja

Milho e soja lideraram os embarques em 2025 e, juntos, responderam por 87,2% do total exportado. O milho foi o principal produto com participação de 67,9% e exportações superiores a US$ 1,9 bilhão. A soja ocupou a segunda posição, com 19,3% do total e movimentação próxima de US$ 563 milhões. Também aparecem entre os principais itens enviados ao Irã, açúcares e produtos de confeitaria, farelos de soja destinados à alimentação animal e petróleo, de acordo com estatísticas oficiais do comércio exterior.

O comércio entre Brasil e Irã somou quase R$ 3 bilhões, em 2025, conforme dados do MDIC. Embora esse montante represente apenas 0,84% das exportações totais do país, o Irã figura como o quinto principal destino das vendas brasileiras no Oriente Médio.

Ureia

No entanto, cabe lembrar que a ureia iraniana é componente fundamental para a fabricação de fertilizantes químicos de uso agrícola, dos quais o Brasil possui notória dependência, importando compostos também de países como Rússia, China e Canadá. Ademais, as transações agropecuárias entre Brasil e Irã refletem a dinâmica do comércio exterior. A demanda iraniana por milho e soja atua como um lastro importante para os preços dessas commodities no mercado internacional, influenciando diretamente as cotações nas bolsas internacionais especializadas.

 Desafios na geopolítica

O Agro está no centro dessa relação e a manutenção de um superávit em parcerias assim contribui para a solidez da balança comercial brasileira, um fator que pode influenciar a taxa de câmbio do real frente ao dólar, algo crucial em tempos de forte pressão geopolítica sobre acordos e transações, sobretudo no setor agropecuário. Cabe enfatizar que o Irã está numa região determinante na logística de rotas navais, o que pode encarecer o frete, como já aconteceu em 2023 e 2024.

Para além da questão econômica, a relação com o Irã pode reabrir um foco de instabilidade com os americanos, após o tarifaço do ano passado. A crise afetou em cheio as exportações brasileiras, em especial commodities como carne, café e frutas. Mesmo com a retirada da sobretaxa de 40%, que demandou esforços diplomáticos e políticos sem precedentes, alguns itens seguem onerados ao entrar nos Estados Unidos. E ainda houve a manutenção da tarifa de 10% anunciada em abril de 2025.

BRICS

Com os iranianos também integrando os BRICS, bloco que ainda conta com Brasil, China e Rússia , entre outros, e desagrada Donald Trump por se contrapor aos EUA em termos de propostas comerciais, o desafio é equilibrar as parcerias sem comprometer a tradição nacional de neutralidade diplomática. Essa capacidade tem sido posta à prova nos últimos anos, com conflitos eclodindo em áreas de interesse, a exemplo da Guerra entre Rússia e Ucrânia, além da Faixa de Gaza e da recente deposição de Nicolás Maduro, na Venezuela.

Na condição de potência exportadora da agropecuária, o Brasil deve se manifestar com moderação e tempestividade, para seguir construindo pontes e ampliando o diálogo, mesmo nos cenários mais difíceis. Como agora, muitas vezes os produtores e empresários complementam essa busca de soluções e ajudam a garantir a continuidade das parcerias tão importantes para o setor no Brasil. Foi essa soma de esforços que possibilitou consensos nas crises recentes.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br e Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br
Com informações complementares dos Ministérios da Agricultura e das Relações Exteriores (MDIC)
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