OVELHAS,CORDEIROS E MARRADAS. Por Evaristo de Miranda

Boni pastoris est tondere pecus, non deglubere. (Bom pastor tosa as ovelhas, não as esfola) Ditado latino

O Brasil é terra de mansas ovelhas? Um rebanho, levando vida de gado, estilo “povo marcado, povo feliz”? Na pecuária, o país é dos bovinos. Mais de230 milhões contra 22 milhões de ovelhas, das quais 73% no Nordeste. Novidade: a busca por carne de cordeiro de qualidade e queijos de leite de ovelha estimula e renova a ovinocultura. Essa demanda não para de crescer e gera maior importação. O rebanho de ovinos cresce 5% ao ano. É pouco. Não atende a demanda por carne. O Brasil precisa de mais ovinos e agora, sobretudo, aprender a dar marradas.

Bois e ovelhas são bovídeos. Quem tira o b do bovino, obtém um ovino. A ovelha (Ovis aries) é um ruminante (sub-família Caprinae). Sem um peso bovino, ela vive no céu, no cosmos. Há milênios é símbolo de força da natureza, fertilidade e objeto religioso, como no sacrifício de Isaque por Abraão (Gn 22,6-12).Instrumento de sopro, o chifre do carneiro, o shofar, emitia sons de alerta e é utilizado até hoje em rituais e festas judaicas. Cordeiro de Deus é otítulo dado a Jesus Cristo (1Cor 5,7).

Áries(símbolo , Unicode♈) é primeiro dos doze signos do zodíaco. Inicia no equinócio em20 de março e vai até 21 de abril. No hemisfério norte é primavera,tempo de semeadura.O signo está associado à constelação de Áries.Na mitologia grega, a constelação evocavao carneiro mítico aladoCrisómalo, filho de Poseidon com a ninfa Teófana. Ele nadava, corria e voava! Sua lã era de ouro, o velo de ouro, tosão de ouro ou velino. Outorgava prosperidade e poder. Ensejou a busca de Jasão e dos Argonautas.

Por andar nos céus, o cordeiroé um dos animais mais usados em oferendas aos deuses nas culturas meso-orientais. Faz parte do cardápio da Páscoa judaica e cristã. Éevocado em toda missa durante a eucaristia (banquete pascal). Marca a festa muçulmana do sacrifício,Eid al-Adha.

O carneiro é o macho da ovelha. Cordeiro é a designação dos juvenis. Os termosvariam: borrego, recém-nascidos até um ano; anho,cordeiros de um a dois anos (Portugal).A ovelha nomeia humanos: Agnelo, Agnes, Raquel e Talita. Entre ovelhas famosas está Dolly.Primeiro clone de mamífero gerado de uma célula adulta retirada de outra ovelha, por cientistas da Universidade de Edimburgo. Está empalhada no Museu Nacional da Escócia.

A ovelha foi um dos primeiros animais domesticados pelo homem.Desde o Neolítico forneceu alimento (leite e carne), vestimenta, proteção (lã e pele) e diversos artefatos de couro. Sua domesticação iniciou em 9000 a.C. no Iraque. Foiefetivada na Idade do Bronze. Ovelhas descendem do muflão ou muflão-asiático (Ovis orientalis), presentenas montanhasda Turquia ao Irã. Houve cruzamentos com outros ovinos selvagens, como o urial (Ovis vignei), de áreas montanhosas da Turquia, Rússia, Paquistão, Índia e Ásia Central.

A visão das ovelhas é limitada. Seus olhos ficam um pouco mais para a lateral da cabeça. Sua visão frontal não é tão desenvolvida. Animais considerados presas na natureza possuem olhos lateralizados. Ajuda a enxergar ao redor. A visão periférica das ovelhas alcança quase 300 graus. Seu instinto é o de fugir ao perceber qualquer perigo. Não necessitam a visão apurada de predadores para localizar presas, estimar distancias etc.

Seus olhos lateralizados recebem pouca luz vinda de cima. As cores não são bem refletidas. O mundo das ovelhas não é multicolorido. Míopes, enxergam uns 10 metros de distância. Presas fáceis, necessitam a proteção do pastor e deseus cães. Fêmeas gestantes e recém-nascidos são os mais vulneráveis.

Em rebanhos, quando não é possível recolher todos os animais, pelo menos os mais indefesos devem ficar em local fechado à noite. Seus predadores são onças, pumas, raposas, cães, urubus e até carcarás. Como na música de João do Vale e José Candido da Silva, Carcará: “Os burrego novinho num pode andá. Ele puxa no imbigo inté matá. Carcará pega, mata e come”.

Cães de pastoreio ajudam como guias do rebanho, buscam ovelhas perdidas, afugentam e enfrentam predadores. O bom cão pastor é calmo, controla suas emoções, sem agressividade com pessoas ou animais. Não pode ameaçaras próprias ovelhas. Entre os bons cães pastores estão: Border Collie; Pastor Alemão; Boiadeiro Australiano; Ovelheiro Gaúcho; Pastor Maremano; Pastor Belga; Kepie; Boiadeiro Suíço e Welsh Corgi Pembroke.

Graças a capacidade de adaptação das raças de ovelhas a diferentes climas, relevos e vegetações, a ovinocultura está presente em praticamente todos os continentes. Os cinco maiores rebanhos estão na Ásia, África e Oceania. A China lidera (157 milhões de cabeças), seguidapela Austrália (101 milhões),Índia (62,5 milhões), Irã (54 milhões) e Sudão (48 milhões). A Nova Zelândia é recorde em densidade: 6 ovelhas por habitante.

O Brasil possui cerca de 22 milhões de cabeças de ovinos. A Bahia lidera com 4,6 milhões, 23,5%. SeguemPernambuco (18%) e Rio Grande do Sul (15%). Os três estadossomam mais de 50% do rebanho. Com Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte chega-se a 78% dos efetivos, concentrados em dois biomas: Caatinga e Pampa, como mostram os mapas da Embrapa Territorial.

Existem raças selecionadas para carne, lã, leite, couro e por rusticidade, prolificidade, conformação de carcaça, queda natural da lã, resistência à verminose etc. Entre as raças de ovinos criadas no Brasil estão: Santa Inês, Morada Nova, Cariri, Somalis, Hampshire Down, Dâmara ou Rabo Largo,Suffolk, Dohene Merino, Corriedale, Texel e Dorper.

No Nordeste, a produção ainda é de subsistência. No Sul,é mais intensiva e está inserida no mercado de carnes, lãs e peles.Sant’Ana do Livramento(RS) é considerada a capital da ovinocultura. Promove anualmente exposições e feiras para a venda de “reprodutores e ventres” de sete raças ovinas.

A produção de carne se tornou o principal objetivo da ovinocultura. Os consumidores demandam cada vez mais cortes tradicionais como lombo, pernil, paleta, carré, costela, picanha… E apreciam novos produtos como hambúrguer de ovelha, linguiça, kafta, espetinho, bolinhos temperados etc.

O brasileiro é consumidor de carne de frango (46 kg/habitante/ano), bovina (26 kg), suína (19,5 kg) e de ovos (14,4 kg). O consumo da ovina é de apenas 1,5 kg/hab/ano. Pode ser multiplicado por dez. Faltacarne de cordeiro. Frigoríficos têm capacidade ociosa por carência de animais para abate.

Com apequena oferta interna, 50% da carne ovinaé importada do Uruguai, Argentina e Chile. Até da Austrália importou-seem 2024, apesar do potencial de criação e produção existente. OBrasil até exporta um pouco de carne e, sobretudo,pele de ovinos:uns 5 milhões de dólares por ano, principalmentea Portugal e Itália. De janeiro e maio de 2025, a exportação da ovinocultura gerou 2 milhões de dólares, 62% superior ao mesmo período em 2024. O Piauí respondeu por 75% dessa exportação: 1,5 milhão de dólares em peles, sobretudo para a produção de pelica, couro nobre, macio, flexível e de toque aveludado. Ela é valorizada na confecção de calçados, luvas, bolsas e acessórios de luxo, por sua elegância e acabamento requintado. São Paulo liderou em produtos cárneos: 150 mil dólares.

Nunca se pagou tão bem pelas carnes de ovinos. O ciclo da ovinocultura é rápido. Um cordeiro está pronto para abate em 90 a 120 dias. Em bovinos, a lotação é de um animal por hectare. Com ovinos é de cinco, para um peso médio de 60 kg.Qual a razão do Brasil produzir pouca carne ovina? Quais os principais desafios em situações tão diferenciadas entre Nordeste e o Sul? Como uniros elos dessa cadeia produtiva pouco conhecida?

Uma iniciativa inovadoraé a Expedição Bééé Brasil. Ela busca identificar os gargalos da criação de ovinos em cada estado. Criadores, cooperativas, órgãos públicos e privados, instituições de ensino e pesquisa, laticínios, frigoríficos e curtumes são visitados e entrevistados. Um relatório final apresenta um resumo da ovinocultura em cada estado, com dados e propostas para melhorar a governança da cadeia produtiva. O projeto já avançou pelo Sul e Sudeste. Até outubro de 2026, analisará todos os estados.

Paracoordenação do projeto, centros de pesquisa estaduais e federais (EmbrapaPecuária Sul e Caprinos e Ovinos) dispõem de resultados excepcionais. Essas informações técnicas transformariam a eficiência e produtividade, se chegassem aos criadores de forma rápida e adequada. Difusão etransferência de tecnologias seguem um desafio na ovinocultura.

Os produtores precisam organizar e aprimorar a governança da cadeia produtiva, sobretudo de ovinos de corte. Para atender demandas de alta produtividade e qualidade é precisoapoio do governo para investir em saúde, bem-estar animal, controle sanitário, melhoramento genético, nutrição, práticas de manejo e cuidado do rebanho em diferentes ciclos produtivos.

Ovinos dão marradas. O comportamento é natural e aprendido. Ter a cabeça sempre pronta para marradas é uma característica genética. Terminou por denominar um instrumento de guerra, usado por milênios para derrubar portões, muralhas e afundar navios: o aríete (de áries, carneiro). Em muitos casos, ele tinha na ponta a figura reforçada de um carneiro de chifre volteado.

Dos símbolos ovinos, o aríete é talvez o mais necessário ao produtor e ao povo. O momento é de usar a cabeça, não patas ou garras, para derrubar muralhas, abater prisões e pôr em fuga a tirania liberticida. Aos déspotas, lobos em peles de cordeiros, desfrutando das benesses do poder, mantendo ovelhas submissas com pretensas bolsas e bondades, cabe a voz dos profetas:

Ai dos pastores de Israel que se apascentam a si mesmos!

Não devem os pastores apascentar as ovelhas?

Comeis a gordura, e vos vestis da lã; matais o cevado;

mas não apascentais as ovelhas.

As fracas não fortalecestes, a doente não curastes, a quebrada não ligastes, a desgarrada não tornastes a trazer e a perdida não buscastes;

mas dominais sobre elas com rigor e dureza (Ezequiel 34,2-4).

Evaristo de Miranda é pesquisador, escritor, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA. https://evaristodemiranda.com.br/ .
Artigo publicado originalmente na revista Oeste e gentilmente cedido à SNA pelo autor.
Crédito: Mapas e foto de Evaristo de Miranda
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