OS ANÚNCIOS DO SOLSTÍCIO DE INVERNO. Por Evaristo de Miranda

Nas festas juninas, agrocultura alcança o mundo urbano. A tradição rural invade a cidade e nela planta arraiais e quermesses. Na imagem praça enfeitada para festa junina. Foto: https://commons.wikimedia.org/

O fortunatus nimium, sua si bona norint agrícolas!

Virgílio, Geórgicas II, 458

(Felizes seriam os agricultores,

se soubessem quão felizes são.)

O sol nasce para todos e sempre a Leste

Ab Oriente lux. Nunca no mesmo local onde nasceu no dia anterior. Dada a inclinação do eixo rotacional terrestre, o sol não nasce, nem se põe, exatamente no mesmo local.Ele está em aparente deslocamento. Durante o outono, o sol se dirige em direção ao Norte. No dia 21 de junho, o Sol atinge sua máxima declinação setentrional. Daí a origem da palavra solstício: o astro parece estacionar antes de iniciar seu retorno aparente em direção ao Sul.Duas manifestações desse fenômeno astronômico são facilmente observáveis em casa, nas escolas e no trabalho.

A marcação do sol, como fazem os agricultores, pode ser realizada em casa. Da janela,varanda ou sacada do apartamento marque onde o sol surge ou desaparece no horizonte nestes dias. Compare esse ponto, essa referência, com a posição do nascer ou pôr do sol em dezembro, no solstício de verão, perto do Natal. A distância será grande. Quanto mais ao sul do Brasil, maior. Imperceptível no dia a dia. No solstício, começa o inverno.

O 21 de junho é o dia mais curto e a noite mais longa do ano no Hemisfério Sul.Existem monumentos astronômicos, criados há milhares de anos, para marcar os solstícios, como o desconhecido e impressionante Observatório Astronômico de Calçoeneno Amapá, com mais de 2.000 anos. O Observatório Astronômico de Stonehenge é o Calçoene da Inglaterra.

Nos dias próximos ao solstício de inverno, os raios solares penetram profundamente no interior das casas, pelas janelas voltadas à face Norte. Observam-se as sombras mais longas de todo o ano, bem direcionadas ao Sul. Ao meio-dia, sobretudo no Sul e Sudeste, o sol sobe pouco na abóboda celeste. Poderia ser chamado “o dia das sombras longas”. Esse fenômeno astronômico preciso é observável no quintal de casa, nas escolas e calçadas. A cada dia, na mesma hora, essa sombra diminuirá de tamanho.

Fator educacional

Essas observações nas escolas são um material pedagógico concreto e excepcional para uso no ensino de ciências, geografia, ecologia, matemática e história. Quem usa? Quais professores sabem disso? Entre cerca de 80 países participantes do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), o Brasil anda lá pela sexagésima posição. E não melhora.

No solstício de inverno, o sol está a pino a 23 graus e 27 minutos de latitude Norte. Lá, ao meio-dia, os raios solares incidem perpendiculares ao solo. Postes, casas e pessoas na posição vertical, não “apresentam” sombra, sobre sua base. Nesse dia, a projeção do caminho do sol no chão “traça” o paralelo conhecido como Trópico de Câncer. Em 21 de junho, o sol passa a pino sobre países do hemisfério Norte comoTaiwan, China, Índia, Emirados Árabes, Egito, Líbia, Argélia, Mauritânia, Bahamas, Sul dos EUA, México e Havaí.

Na Grécia antiga, a beleza dos céus estava na precisão matemática dos ciclos celestes. Da beleza do cosmos, deriva a palavra cosmética. Embora o inverno apenas se inicie, a partir do solstício a duração dos dias volta a crescer.

O solstício de inverno está associado ao fim do ano agrícola ao encerramento das colheitas, ao desfrute dos resultados do suado e árduo trabalho no campo, aos festejos juninos. Apesar das diferenças territoriais no Brasil, até junho encerram-se as colheitas de soja, milho, arroz, feijão, laranja, algodão, tubérculos, frutas e outras. É tempo de aferir, conferir, vender e armazenar: 350 milhões de toneladas de grãos. Há muito tempo, o agro e a agroindústria brasileira já alimentam mais de um bilhão de pessoas.

Os festejos de São João coincidem com o tempo do solstício do inverno. Na origem, as festas juninas são uma celebração católica, estival, ibérica, rural e tradicional de junho, desde o século IV. O Catolicismo, herdeiro da tradição judaica, sempre celebrou eventos cósmicos (solstícios e equinócios) associados ao calendário litúrgico. A evangelização ressignificou práticas locais. Inicialmente eram festas joaninas, dado o vínculo com S. João, o único santo católico festejado no dia de seu nascimento e não de sua morte. Com o tempo viraram juninas e até julinas.As festas juninas são uma das mais expressivas manifestações culturais brasileiras.

Nas festas juninas, agrocultura alcança o mundo urbano. A tradição rural invade a cidade e nela planta arraiais e quermesses. O arraial junino nas cidades, espaço profano e sagrado, é como uma aldeia rural temporária, ao lado de igrejas, escolas e espaços públicos. Ele é organizado com bandeirinhas, portais de bambu, flores do cipó de S. João, mastro dos santos, barracas de comidas e bebidas típicas, jogos, danças, músicas e muita diversão. Crianças urbanas se vestem de caipira. Chapéus de palha e botas expressam um jeito de mostrar o homem da roça.

A base da culinária junina são plantas nativas: milho, amendoim e batata doce. Degusta-se milho verde, assado e cozido, pipoca, pamonha, curau, mungunzá, canjica, cuscuz, bolo de fubá, batata-doce, cozida ou assada nas brasas das fogueiras, doce de batata-doce, amendoim, pé-de-moleque e paçoca. No Sul e Sudeste, estão presentes pinhão, vinho quente, chocolate e quentão.O mundo rural vive intensamente esse tempo de alegria. As festas juninas movimentam cerca de 8 bilhões de reais e 26 milhões de pessoas.

Em junho, as fogueiras iluminam as trevas, esquentam amores e corações. E aquecem noites frias. Em muitas comunidades rurais, homens e mulheres caminham descalços sobre as brasas (2Sm 22,13). Soltam-se fogos para acordar S. João.Por que chove no dia de S. João? Segundo a tradição rural, é inveja de S. Pedro. Como a festa para S. João é a maior, S. Pedro manda uma chuvinha para acalmar os ânimos e atenuar um pouco o seu brilho.

No solstício, o céu, a terra e os homens explicam-se mutuamente. O fogo é símbolo de purificação e iluminação. O solstício, a vitória progressiva da luz, as festas e fogueiras juninas convidam todos, campo e cidade, a se prepararem ao plantio primaveril, serem fecundos, crescerem e darem frutos, como no chamado do início da Criação (Gn 1,28).Tempo de iluminação, tão necessária ao entrevado Brasil.

Ab Oriente lux? Ab Occidente progressus!

Evaristo de Miranda foi pesquisador da Embrapa por 43 anos, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Edição de imagem e texto para a SNA: Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb 13.9290) 
Facebook
Twitter
LinkedIn
WhatsApp