
O Brasil é líder secular e global no mercado cafeeiro. Em 2024, alcançou uma exportação recorde de 50,4 milhões de sacas de 60 kg para 116 países. Um crescimento de 28,5% em relação a 2023. Com cotação elevada por escassez do produto, a receita cambial foi de 12,5 bilhões de dólares, um crescimento de 55,4% em comparação a 2023.
O mercado norte-americano de café é o maior do mundo e movimentou cerca de 24 bilhões de dólares em 2024. Deve chegar a 29 bilhões de dólares em 2029. Trata-se de um mercado diversificado, incluindo grãos integrais, café moído, café instantâneo, cápsulas e pods. Nos dez principais destinos das exportaçõesbrasileiras em 2024, em todos houve crescimento em relação a 2023, com exceção do Japão. Em primeiro lugar estão os EUA, maiores consumidores mundiais de café,com 8,13milhões de sacas importadas do Brasil (crescimento de +34%).
Em 2024, como principais destinos das exportações cafeeiras depois dos EUA, estiveram: a Alemanha, com 7,59 milhões de sacas (+51%); a Bélgica, com 4,35 milhões (+96%); a Itália, com 3,9 milhões(+25%); o Japão, com 2,21 milhões(-6%); a Espanha, com 1,61 milhão (+67%); os Países Baixos (Holanda), com 1,59 milhão (+25%); o México, com 1,50 milhão (+144%); a Turquia, com 1,49 milhão (+9%) e a Rússia, com 1,37 milhão (+101%). Esses dez países representaram 67% das exportações de café do Brasil em 2024.E há ainda outros importadores relevantes como Reino Unido, Coréia do Sul, Canadá, Suécia, França e Colômbia.
Mais de 6% das exportações de café verde (3,16 milhões de sacas) em 2024 foram (e seguem crescendo) para países produtores de café como México (+41,5%), Vietnã (+21,5%), Colômbia (+12,9%), Índia (+9%), Indonésia (+6,4%), Equador (+5,1%), República Dominicana (+1,4%), Cuba (+0,9%) e outros (+1,3%).Essa interação entre produção e exportação em diferentes países ilustra a complexidade do mercado global de café e o papel do Brasil como fornecedor, mesmo para países produtores. E é cada vez maior a diversidade de cafés exportados pelo Brasil, assim como seus destinos.
Com a tarifa de 50% imposta recentemente pelos EUA às exportações brasileiras, caso nenhuma negociação avance, a situação ficará delicada para o Brasil, seus cafeicultores e sua indústria do café. Em particular, aexportação de café solúvel será muito prejudicada, perdendo mercados.
Dia 2 de agosto passado, a embaixada da China anunciou o credenciamento de 183 empresas brasileiras exportadoras de café. A medida é consequência, entre outros, dos acordos para ampliar as exportações, como os ajustados com a rede de cafeterias chinesa Luckin Coffee.
Na mídia e até no Governo, alguns sinalizaram esse fato como uma saída às exportações taxadas pelos EUA: buscar e conquistar novos mercados, um exemplo de caminho a ser seguido em outros produtos taxados etc. Bobagem. Diversificar e ampliar as exportações é sempre relevante, mas números são números.
As importações de café pela China estão crescendo ma non troppo. Em 2024, a China importou 530 mil sacas de café contra mais de 8 milhões dos Estados Unidos. Não há a menor chance de a China absorver esse café. Nem ninguém neste mundo afora. O café brasileiro fala português e inglês. Balbucia mandarim. Contudo, ainda cabe ao Governo Federal agir e ele pode ajudar a cafeicultura e o país de duas maneiras.
Em primeiro lugar, e só depende dele, investir e melhorara infraestrutura logística, sobretudo portuária. Em 2024, o esgotamento da infraestrutura portuária causou contínuos atrasos nos embarques de café,alterações de escala de navios e sucessivas rolagens de cargas.O CECAFE, com dados de 27 empresas (75% das exportações totais de café), revelou um prejuízo de R$ 42,3 milhões até o final de novembro, devido a 1,6 milhão de sacas de café (4.895 contêineres) acumuladas nos portos brasileiros, sem embarque entre janeiro e novembro.Em novembro, segundo o Boletim Detention Zero, 66% dos navios ou 200 de um total de 304 porta-contêineres, tiveram atrasos ou alteração de escalas nos portos do Brasil.
O problema persiste em 2025. Como já ocorrera em maio, só em junho passado, mais de 453 mil sacas de café não conseguiram embarcar devido ao esgotamento da infraestrutura portuária, segundo o CECAFE. O país deixou de receber R$ 1 bilhão como receita cambial e os exportadores tiveram prejuízo de R$ 3 milhões com armazenagens extras. O segundo maior exportador agrícola do mundo precisa promover com urgência a ampliação e modernização de seus portos. E não há plano governamental algum para isso. A administração federal, sem estratégia para o país, vive de taticismos.
A outra maneira é seguir o exemplo dos mineiros, os maiores produtores e exportadores de café, mestres em conversar e dialogar. Minas Gerais concentra 72% da área de café arábica do Brasil. O Governo deve procurar, com humildade mineira,os EUA. Reconstruir, com o jeitinho mineiro, uma relação desgastada. Enegociar. Educadamente. Convidar os gringos para um cafezinho com pão de queijo. Para quem já propôs resolver a guerra da Ucrânia em uma mesa de bar, tomando uma cervejinha, deve ser fácil.







