Mudança na presidência do Supremo renova debate sobre litígios que atrasam desenvolvimento do agronegócio

Ministro Edson Fachin discursa após tomar posse como novo presidente do STF. Cerimônia foi prestigiada pelas cúpulas do Executivo e Legislativo. Foto: Antonio Augusto/STF

Projeto da Ferrogrão aguarda desfecho de processo há anos

Com frequência, o Portal SNA aborda como a judicialização de questões importantes para a agropecuária nacional atrasa o desenvolvimento do setor e gera insegurança jurídica. Várias vezes, o Supremo Tribunal Federal é ator importante dessas discussões, como ocorreu na definição do Marco Temporal, entre outros casos. Mas a inovação da jurisprudência nas decisões, bem como interpretações “criativas” de leis muito claras, contribuem para o desgaste com demais Poderes da República e acarreta mais lentidão em processos de sumo interesse para o agronegócio.

Na última segunda, 29 de setembro, o STF empossou seu novo presidente, Ministro Edson Fachin, que ficará no cargo por dois anos. Dos vários desafios que irá enfrentar na administração da Corte e definição das pautas de julgamento, estão assuntos que dizem respeito ao setor produtivo agropecuário e suas ramificações logísticas. É o caso da Ferrogrão, sobre a qual este Portal já se debruçou.  Agora, a análise voltará ao plenário nesta quarta, 1 de outubro, já por determinação do novo presidente. A relatoria da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) n. 6553 é do ministro Alexandre de Moraes.

A ADI questiona a Lei 13.452/2017, originada do projeto de conversão da Medida Provisória (MP) 758/2016, que excluiu cerca de 862 hectares do Parque Nacional do Jamanxim (PA) e os destinou aos leitos e às faixas de domínio da Ferrogrão (EF-170) e da BR-163. Autor da ação, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) sustenta, entre outros pontos, que a lei afeta os povos indígenas que habitam a região e que o parque é um patrimônio cultural imaterial. Em 2023, houve uma tentativa conciliatória, sem resultados.

Um atraso que custa bilhões e prejudica a competitividade do país

Traçado da Ferrogrão. Divulgação: Ministério dos Transportes

O empreendimento é um dos maiores projetos de infraestrutura e logística já propostos para a Amazônia, prometendo facilitar o escoamento de grãos do Centro-Oeste brasileiro. O modal conectará Sinop (MT) a Itaituba (PA) através de 933 quilômetros de ferrovia, transformando-se na principal eixo de transportes de carga do bioma.  Articulado desde o governo Temer (MDB) e agora parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) federal, o projeto prevê capacidade para transportar 40 milhões de toneladas anuais de grãos. A ferrovia pode reduzir em até 20% os custos atuais, fortalecendo a posição brasileira no mercado internacional.

Em síntese, são R$ 20 bilhões em investimentos privados e a competitividade do agronegócio brasileiro aguardando definição. Mais do que o julgamento em si, trata-se de um teste sobre a capacidade do país em equilibrar desenvolvimento com preservação ambiental. A indefinição custa caro em oportunidades perdidas, sobretudo em momentos de sobressaltos geopolíticos e econômicos como o de agora. Ao fim, o resultado enviará um sinal aos investidores privados sobre o grau de previsibilidade regulatória no país. Para o mercado, essa clareza institucional vale tanto quanto os próprios trilhos da ferrovia.

O senador Zequinha Marinho (Podemos – PA), que integra a Frente Parlamentar da Agropecuária e preside a Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) do Senado, disse em entrevista ao Portal “O Liberal” que o lobby de ONGs e outros grupos de interesse prejudicou a Ferrogrão e a Tramitação da ADI no Supremo. Ele também criticou o abandono, por sucessivos governos, do transporte por trens. “O Brasil fez uma opção pela indústria do caminhão há cem anos e deixou as ferrovias de lado. Foi um grande erro estratégico. Como é que você trabalha num país dessa dimensão sem também priorizar o modal ferroviário?”, complementou o senador.

Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br
Com informações complementares do Ministério dos Transportes, Tribunal de Contas da União (TCU) e Agência FPA.
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