Mercado orgânico em alta e feira em baixa: O descompasso da Biofach 2026

A Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) esteve presente neste evento, por meio do Centro de Inteligência em Orgânicos (CI Orgânicos) – Foto: Sylvia Wachsner

A Alemanha consolidou-se como o maior mercado de produtos orgânicos da Europa e o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. Em 2024, as vendas de orgânicos no país cresceram 5,7% em relação ao ano anterior, alcançando 17 bilhões de euros (US$ 20,14 bilhões), resultado que refletiu não apenas aumento de faturamento, mas também incremento de volume comercializado.

A expectativa é de que, em 2025, o mercado atinja 18,7 bilhões de euros (US$ 22,15 bilhões). O avanço do consumo tem sido impulsionado principalmente por supermercados e farmácias de desconto, que ampliaram a oferta desses produtos. Apesar da recuperação do comércio após um período de retração provocado pela inflação e da demanda crescente, a produção orgânica segue limitada e representa 11,5% do total das terras agrícolas do país.

(Esq.) Julia Mariot, comercial da Ecocitrus – cooperativa de agricultores familiares da Rede OrganicsNet, ao lado de Sylvia Wachsner, dir. da SNA e coord. do CI Orgânicos.

Biofach Nuremberg 2026

Esse cenário foi debatido durante a Biofach Nuremberg 2026, na Alemanha, tida como a principal feira mundial de alimentos orgânicos, que reúne mais de 35 mil visitantes profissionais de cerca de 140 países e teve início na última terça-feira (10), encerrando hoje (13). O Brasil marca presença no evento há mais de 15 anos, com um estande organizado pela APEX Brasil, reunindo desde cooperativas da agricultura familiar até grandes empresas consolidadas exportadoras de orgânicos. A participação brasileira mantém, ano após ano, um portfólio semelhante de produtos, como açúcar orgânico, açaí, mel, erva-mate, temperos e castanha de caju e castanha-do-brasil, tendo como novidade mais recente a castanha de Baru, apresentada pela cooperativa Copabase.

Encolhimento

Na edição de 2026, entretanto, observou-se uma redução no tamanho da feira, no número de países participantes e no público visitante, percepção compartilhada por Sylvia Wachsner, diretora da Sociedade Nacional de Agricultura (SNA) e coordenadora do Centro de Inteligência em Orgânicos (CI Orgânicos), que acompanha o evento.

Segundo ela, houve diminuição de estandes de países tradicionalmente presentes, como Chile, Equador e Peru, além da redução da participação argentina e de diversos países europeus. Mesmo com a Índia, país homenageado em 2026, ocupando uma grande área, registraram-se corredores vazios e menor circulação de visitantes. Empresas brasileiras que participam da Biofach há vários anos também relataram menos interessados, redução de compradores de geração de novos negócios.

Juventude e inovações

A feira abriu espaço para jovens inovadores, novas empresas e startups, mas, de acordo com relatos colhidos no evento, o ecossistema de apoio público e universitário na Europa mostrou-se menos estruturado do que o brasileiro, levando muitos empreendedores a investirem recursos próprios em seus projetos.

Diante desse contexto, a presença da SNA, por meio do CI Orgânicos, na Biofach Nuremberg 2026 ganha relevância estratégica ao levantar questionamentos sobre o futuro do evento e da participação brasileira. Entre eles, Sylvia Wachsner  fez um convite a refletir se o chamado “hype” das feiras orgânicas se esgotou, ou se produtores e marcas já consolidados não dependem mais desse tipo de exposição, ou ainda se as relações B2B estão suficientemente estabelecidas para dispensar investimentos frequentes em feiras.

“Eventos mais amplos como Sial e Anuga passaram a cumprir esse papel? Pergunto-me se ainda faz sentido uma feira anual em um mercado mais maduro e quais devem ser, daqui em diante, os caminhos mais eficazes para fortalecer a exportação de alimentos orgânicos brasileiros e dimensionar os investimentos públicos e privados na Biofach de Nuremberg”, concluiu a coordenadora do CI Orgânicos.

Por Larissa Machado
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