
Apesar de registrar crescimento ao longo dos anos, o mercado de alimentos orgânicos encontra nos preços mais elevados o principal empecilho para novos avanços – especialmente num cenário inflacionário.
O mercado de orgânicos movimenta cerca de R$ 7 bilhões no Brasil, na estimativa do Instituto Organis, que identifica em pesquisas crescimento gradual e contínuo no consumo desses produtos: o total de brasileiros que levam à mesa pelo menos algum orgânico subiu de 15% em 2017 para 36% em 2023. “Nossa expectativa é democratizar o acesso e facilitar a presença dos orgânicos nas prateleiras dos supermercados”, disse Sandra Caires, presidente da organização.
A Jalles Machado, uma das maiores exportadoras de açúcar orgânico do mundo, informou, no balanço do quarto trimestre da safra 2024/2025, que a receita com o produto cresceu 38,20% na comparação com o mesmo período da safra anterior. A companhia do setor sucroenergético reportou prejuízo no período de R$ 8.5 milhões, mas destacou incremento nas vendas destinadas ao mercado interno para o açúcar orgânico, compensando em parte a queda nas exportações devido a entraves logísticos. Além disso, os preços do orgânico subiram 11,30% sobre um ano antes.
“Essa frente de atuação é estratégica para o nosso negócio na medida em que contribui para um portifólio diversificado de produtos, com menos exposição à volatilidade do mercado de commodities”, informou o diretor-presidente da Jalles, Otávio Lages de Siqueira Filho, no último relatório de sustentabilidade da empresa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_63b422c2caee4269b8b34177e8876b93/internal_photos/bs/2025/p/z/na1gJcQ5STcxlapgnu0g/rev-agro-arte-052-agr-familiar.jpg)
A busca por alimentação saudável, livre de agrotóxicos, seria o principal motor da evolução. Porém o preço mais alto dos orgânicos é apontado como fator primordial para excluí-los da cesta de compras por 54% dos pesquisados. No contexto em que a inflação dos alimentos segue alta, os produtores não têm encontrado caminhos para ampliar o mercado.
“O preço mais alto dos orgânicos é o grande entrave ao avanço. Um quilo de feijão carioca produzido pelo método convencional custa R$ 6,00; o orgânico chega a custar R$ 30, cinco vezes mais”, indica Dário Dal Piaz, fundador da Fazenda Orgânica Guata Porã e diretor do Mercado Orgânico, que oferece, on-line, 3.000 produtos orgânicos, de 900 produtores, além de 100 toneladas de frutas congeladas por ano de produção própria em Atibaia (SP). Ele relata que a receita do market place cresceu 180% de 2023 para 2024.
Mercado com potencial de mais de R$ 200 bilhões
Piaz estima o tamanho do mercado de orgânicos em R$ 48 bilhões anuais, número bem maior do que o cálculo do Organis. “Nossa conta leva em consideração que hoje um terço da dieta de 7% da população é constituído por orgânicos”, diz. “Se 20% da população adotá-los em metade da dieta, chegamos ao potencial de R$ 252 bilhões”, projeta. “Esse índice de consumo já é realidade na Europa, por exemplo, onde o preço do orgânico nunca ultrapassa 30% do convencional”, observa.
“Para que cresça o consumo de orgânicos, derrubando preços, é preciso reduzir a burocracia na liberação de crédito ao pequeno produtor e aumentar a escala na produção, prestando atenção aos fatores climáticos”, resume Sylvia Wachsner, diretora da Sociedade Nacional de Agricultura e coordenadora da plataforma CI Orgânicos.
A agricultura familiar é responsável por 23% do valor bruto da produção agropecuária do Brasil, equivalente a R$ 324.3 bilhões. Grande parte dos alimentos produzidos pelas famílias é de orgânicos e agroecológicos. Frutas, verduras e legumes estão entre as culturas mais presentes, com destaque nos últimos anos para a produção de arroz agroecológico, no Sul do País. O número de produtores de orgânicos registrados no Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) cresceu 120% em dez anos, saltando de 11.400 em 2015 para 25.200 em 2025. O Paraná lidera, com mais de 3.000 certificações.
A comprovação de que o aumento de escala derruba o preço vem da experiência do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), hoje o maior produtor de arroz agroecológico da América Latina. Na safra 2024/2025, foram produzidas 14.000 toneladas, que correspondem a cerca de 300.000 sacas do grão. Cerca de 10.000 toneladas saíram da Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Reforma Agrária de Viamão (Coperav), que reúne 375 famílias no assentamento Filhos de Sepé, o maior do Rio Grande do Sul, comandada por Huli Zang. “
No ano da enchente, colhemos 40% menos. Mas, para a próxima safra, projetamos alta de 20%”, disse. “Nosso diferencial é a larga escala. Assim, conseguimos vender um quilo de arroz agulhinha orgânico por R$ 7,00, igual ao preço do produto convencional em um supermercado.” Para custear a plantação, são usados os mecanismos oferecidos pelo governo, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
O governo federal acaba de anunciar o repasse de R$ 89 bilhões ao Plano Safra da Agricultura Familiar para o biênio 2025/2026, sendo R$ 78 bilhões reservados ao Pronaf, principal fonte de financiamento para o segmento, com o restante dos recursos dirigidos a políticas de crédito rural, compras públicas, seguro agrícola, assistência técnica e garantia de preço mínimo. Houve aumento de R$ 2 bilhões (equivalente a 2,60%) em relação à edição passada. Mantendo a política das últimas três edições, os juros, fixados em 3% para financiamento da produção de alimentos como arroz, feijão, mandioca, rutas, verduras, ovos e leite, caem para 2% quando usados para cultivos por meio de sistemas orgânicos e agroecológicos.
O produtor de frutas André Medeiros, de São Francisco de Paula (RS), colhe 15.000 quilos de mirtilo anualmente, mas reclama da dificuldade em acessar os recursos. “Nossa produção é artesanal, demanda mais cuidados. Os custos começam na certificação, pela qual pagamos até R$ 10.000,00, se for por auditoria. Para nós, da agricultura familiar, é muito dinheiro.”
A agricultora Maria do Céu Silva, que produz 450 quilos de macaxeira e batata-doce agroecológicas a cada colheita (duas ou três vezes ao ano) em Polo da Borborema, em Solânea (PB), disse que consegue vender parte da produção nas feiras da região, mas a garantia de escoamento vem do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), com fornecimento para escolas. Por meio do programa, ela recebe R$ 1.800,00 a cada venda. “Se não fosse a política pública, ficaria bem mais difícil”, disse ela.






