MELHOR LITROS DE LEITE OU DE ÁLCOOL? Por Evaristo de Miranda

Articulista avalia os números recenes da produção de leite e etanol no Brasil e suas implicações na agricultura, na economia e na matriz energética nacional. Foto: Arquivo SNA

Talvez por amor aos bovinos, sempre desejei maior produção de leite no Brasil, em relação à de etanol. Leite alimenta humanos. Etanol, veículos. Os dois são necessários. Na dinâmica de crescimento da agropecuária, eles seguem empatando, na quantidade e no preço.

Em 2025, segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, a produção brasileira de leite alcançou 36,7 bilhões de litros. Alta de 2,7% em relação aos 35,7 bilhões de litros de 2024, mesmo com redução no número de vacas ordenhadas. Recorde histórico e terceiro crescimento anual consecutivo.

A produção de etanol, analisada pelo ano civil de 2025, registrou 35,9 bilhões de litros, segundo a ANP. A produção derivada da cana-de-açúcar encolheu. A forte expansão das usinas de etanol de milho compensou a queda da produção de cana. O leite segue com uma vantagem de 800 milhões de litros.

Segundo o Cepea/Esalq,pagou-se uma média de R$ 2,78 por litro de etanol hidratado nas usinas paulistas na safra 2025/26.A média anual de 2025 paga ao produtor de leite foi de R$ 2,56 por litro (média Brasil, valores reais deflacionados pelo IPCA).Esses valores variaram ao longo do ano. Não são equivalentes. Dão uma ordem de grandeza e uma vantagem ao etanol. Houve desvalorização de 25,8% no preço do leite pago ao produtor em 2025, dado o aumento considerável na oferta de lácteos e os altos estoques.

A evolução recente mostra uma mudança estrutural na matriz energética nacional. O etanol de milho tinha participação secundária há menos de uma década. Na safra 2025/26, respondeu por 27% de todo o etanol produzido no Brasil. Com as usinas flex(processam cana e milho), a indústria nacional manteve plantas ativas durante os meses de entressafra da cana e elevou o patamar histórico da oferta desse combustível renovável. O caminho está pavimentado para novas expansões desse etanol nas próximas safras.

Entre leite e etanol, o Brasil deve ficar com os dois. Nunca renunciar à inovação. Como no diálogo piracicabano, ao final do afeitado numa barbearia rural:

– Árco o tárco?

– Verva!

Evaristo de Miranda  foi pesquisador da Embrapa por 43 anos. É doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Edição de texto e imagem para a SNA: Marcelo Sá , jornalista, editor e produtor literário (MTb 13.9290)
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