Lodo tratado vira insumo e reduz custos para agricultores

Programa da Sanepar transforma resíduo do tratamento de esgoto em fonte de nutrientes para o solo e mostra como a economia circular pode aproximar saneamento e produção agrícola- Foto: Canva

Um resíduo gerado nas cidades está encontrando um novo destino no campo. Em vez de seguir para aterros sanitários, o lodo produzido no tratamento de esgoto pode, após passar por processos de higienização, controle de qualidade e avaliação técnica, ser utilizado na agricultura como fonte de matéria orgânica e nutrientes. A experiência da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) mostra o potencial dessa alternativa para reduzir custos de produção, melhorar as condições do solo e dar novo uso a um material que seria descartado.

Mantido desde 2007, o Programa de Uso Agrícola do Lodo de Esgoto da Sanepar já se tornou uma referência na utilização sustentável desse resíduo. Em 2025, 183 agricultores receberam mais de 27 mil toneladas de lodo, destinadas ao uso agrícola no Paraná. A companhia informa que o programa foi referenciado pela Organização das Nações Unidas (ONU) e despertou o interesse de empresas de saneamento de outros estados brasileiros.

A proposta une duas pontas de uma mesma cadeia: o saneamento e a agricultura. O lodo é rico em matéria orgânica e contém nutrientes como nitrogênio, fósforo, enxofre, cálcio e magnésio. Como parte do processo de higienização utiliza cal, o material também pode contribuir para a correção do pH do solo. Segundo a Sanepar, sua aplicação pode melhorar propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, além de reduzir custos e favorecer a produtividade dos cultivos.

Economia que chega ao campo

A redução das despesas com insumos é um dos principais atrativos para os agricultores. Em 2021, a Sanepar destinou gratuitamente 14,37 mil toneladas de lodo, utilizadas em 2.655 hectares por 89 produtores de 52 municípios paranaenses. Naquele ano, o valor estimado do material chegou a aproximadamente R$ 2,15 milhões, considerando os benefícios proporcionados aos agricultores.

Um dos exemplos é o produtor João Angelo Costa Gomes, que utilizou o lodo em 200 hectares na região de Ponta Grossa. Segundo relato divulgado pela Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), a aplicação poderia representar uma economia de cerca de R$ 58 mil em uma operação de correção do solo que seria realizada com calcário. O produtor também utilizou o material na adubação verde, preparando a área para o cultivo de trigo e soja.

A experiência também aparece em propriedades menores. Carlos Henrique de Paula, de Paranavaí, produtor de gado de corte, relatou melhora na qualidade das plantas e aumento da quantidade de massa em sua capineira. De acordo com o produtor, a utilização do lodo representa uma economia de pelo menos R$ 10 mil por ano, já que reduz a necessidade de aquisição de produtos destinados ao fornecimento de matéria orgânica ao solo.

O impacto econômico ganha ainda mais importância diante da pressão dos custos sobre a atividade agrícola, especialmente para pequenos produtores. No modelo adotado pela Sanepar, agricultores cadastrados, com áreas aptas e culturas autorizadas, recebem o material gratuitamente, conforme a disponibilidade regional. A companhia também informa que não cobra pelo transporte e oferece acompanhamento técnico para a aplicação.

Mais matéria orgânica, menos desperdício

Para além da economia direta para o produtor, a utilização agrícola do lodo representa uma estratégia de reaproveitamento de nutrientes. O material que antes seria considerado um resíduo passa a retornar ao sistema produtivo, contribuindo para a fertilidade do solo e reduzindo a necessidade de destinação em aterros sanitários.

A iniciativa se aproxima, portanto, dos princípios da economia circular, em que resíduos de uma atividade podem se transformar em recursos para outra. No caso do lodo de esgoto, o saneamento deixa de ser visto apenas como uma etapa de coleta e tratamento e passa a integrar uma cadeia mais ampla de recuperação de matéria orgânica e nutrientes.

Desde o início do programa, em 2007, cerca de 400 mil toneladas de lodo já haviam sido aplicadas na agricultura paranaense, segundo dados divulgados pela Aesbe. A entidade estimou, à época, aproximadamente R$ 60 milhões em benefícios para a agricultura, além da destinação ambientalmente adequada do material.

A experiência também dialoga com a busca por sistemas agrícolas mais eficientes no uso de recursos. Estudos citados pela Aesbe apontam que práticas sustentáveis de manejo do solo, associadas ao uso de insumos provenientes de resíduos orgânicos, podem contribuir para aumentar a eficiência e diminuir a dependência de determinados insumos minerais.

Segurança depende de controle técnico

Embora apresente potencial agronômico e econômico, o lodo de esgoto não pode ser aplicado de maneira indiscriminada. O aproveitamento agrícola depende de tratamento, análises laboratoriais, avaliação do solo, definição da dose e acompanhamento técnico.
A Sanepar informa que o material é higienizado para atender à legislação e que sua utilização agrícola é autorizada pelo Instituto Água e Terra (IAT), órgão ambiental do Paraná. A companhia também realiza controle de qualidade e acompanhamento do processo até a aplicação no solo.

O procedimento começa pela avaliação das características da propriedade. Amostras de solo são coletadas e encaminhadas para análise, permitindo que os técnicos definam a quantidade adequada de lodo a ser aplicada. Os lotes também passam por tratamento para eliminação de patógenos e por análises laboratoriais antes da liberação.

A destinação ainda é condicionada às culturas autorizadas. Segundo a Sanepar, o biossólido pode ser utilizado, entre outras, em culturas como aveia, café, cana-de-açúcar, capineira, milho, soja e trigo. Há, entretanto, restrições para pastagens, áreas de integração lavoura-pecuária-floresta, hortas, tubérculos, raízes, culturas inundadas e cultivos cuja parte comestível tenha contato com o solo.

Um modelo que aproxima cidade e campo

O programa da Sanepar evidencia uma possibilidade de integração entre políticas de saneamento, gestão de resíduos e desenvolvimento agrícola. O que é produzido nas estações de tratamento de esgoto pode, sob critérios técnicos e ambientais, retornar ao campo como fonte de matéria orgânica e nutrientes.

Para o produtor, a iniciativa pode representar economia na compra de determinados insumos e melhoria das condições do solo. Para o setor de saneamento, significa encontrar uma destinação mais útil para um resíduo produzido em grande escala. Para o meio ambiente, abre espaço para reduzir o envio do material aos aterros e ampliar o reaproveitamento de recursos.

O modelo também apresenta uma dimensão social importante ao alcançar produtores de diferentes municípios e oferecer o material sem custo, conforme as condições estabelecidas pelo programa. Em um cenário de aumento dos custos de produção, iniciativas desse tipo podem contribuir especialmente para ampliar as alternativas disponíveis aos pequenos agricultores.

Mais do que transformar lodo em adubo, a experiência paranaense aponta para uma mudança de perspectiva: resíduos urbanos podem deixar de ser vistos apenas como passivos e passar a integrar novos ciclos produtivos. Quando há tratamento adequado, fiscalização e acompanhamento técnico, o saneamento pode gerar benefícios que ultrapassam os limites das cidades e chegam diretamente ao solo onde se produz alimento.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
Com informações da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) e Sanepar
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