Gaúchos Morrem Saudáveis? Por Evaristo de Miranda

Bandeira do Rio Grande do Sul – Foto: Divulgação Governo do Estado Rio Grande do Sul

Uma cascavel deu um bote certeiro na perna de um agricultor, lá no sertão de Pernambuco, nos idos de 1980. Havia uma equipe de pesquisa de campo da Embrapa em Ouricuri. Um velho sertanejo chegou no lombo de um jumento. Pediu ajuda para seu vitimado afilhado. O doutor José Roberto Miranda, biólogo, especialista em répteis,possuía soro antiofídico, antialérgicos, vários recursos e experiência.

Anoitecia. O Jeep 4×4 foi até onde conseguiu. Depois, o resto, a pé. No casebre, iluminado por lamparinas, o agricultor recebia o “tratamento” de um conhecido benzedor da região. O saber tradicional logo se opôs ao atendimento proposto pelo pesquisador. – Não se deve misturar duas “medicina”, disse o benzedor. A vítima aquiesceu. E mais, logo agregou: – Bastou esses doutô entrarem aqui e minha perna começou doer.

Dr. José Roberto usou muitos argumentos, com suavidade. Concluiu: – Veja meu senhor, sua esposa mascou tabaco e colocou na picada; seu padrinho foi até Ouricuri buscar socorro; seus filhos rezaram; o benzedor veio logo ajudar. Agora é a minha vez. Deixe-me ajudar também. Não teve jeito. Amparado pelo benzedor, o agricultor recusou. A ajuda era desnecessária. O benzedor encerrou: – Podem voltar pra Ouricuri. Ele vai “melhorá”.

Excomungados, exorcizados e defenestrados, retornamos. Era tarde da noite. Andamos em silêncio, sem precisar de lanterna para seguir a trilha na branca caatinga, sob o luar do sertão. Ao chegar no veículo, Dr. José Roberto, frustrado, ajeitou cuidadosamente sua geladeira portátil com os soros antiofídicos, a maleta com medicamentos e instrumentos.Falou. O prognóstico foi sombrio.

Tempos depois, num dia ensolarado, na feira semanal de Ouricuri, em meio a produtores rurais, montes de feijão de corda, bodes, cabras e galinhas amarradas, o Dr. José Roberto encontrou o benzedor. Após as saudações formais entre os dois “profissionais”, ele logo perguntou: – Como está o agricultor picado pela cascavel? O benzedor, sereno, respondeu: – Morreu. O pesquisador exclamou: – Morreu!!! O benzedor, sempre calmo, explicou: – Sim, doutor. Morreu. Mas morreu bem “amelhorado”.

Essa história faz pensar na situação atual de muitos produtores rurais no Rio Grande do Sul. Os agricultores gaúchos enfrentam uma crise econômica, financeira e social profunda, resultado de uma sucessão de eventos climáticos e políticas governamentais desfavoráveis. As ações dos governos federal e estadual para a crise no campo são benzimentos, prodigados para “amelhorar”. Não bastam para curar ou salvar.

Após as grandes enchentes de 2024, o setor agrícola gaúcho continuou a enfrentar dificuldades climáticas e financeiras severas, sem socorro adequado do Poder Público. Nos EUA e na Europa, além de um sistema de seguro rural eficaz e abrangente, existem fundos para atender os produtores em situações dessa natureza. Como o Fundo Europeu Agrícola de Garantia (FEAGA), de mais de 291 bilhões de euros. Por aqui, nada. Só retórica.

Prejuízo

O impacto acumulado no período superou R$ 126 bilhões em perdas de faturamento. Nos últimos 5 anos, o estado gaúcho deixou de produzir 48 milhões de toneladas de grãos em relação ao esperado, devido ao clima e à ausência de apoio à recuperação de fazendas e áreas rurais.

As frustrações sequenciais de safra impossibilitaram pagar financiamentos.Levaram os produtores a um nível crítico de endividamento. As dívidas rurais no estado excedem R$ 27 bilhões. A inadimplência é recorde. O endividamento rural no crédito livre saltou de 3,54% em outubro de 2024 para 11,4% em 2025, o maior da série histórica.Lentidão na liberação de recursos e altas exigências bancárias restringem o acesso dos produtores a novos créditos para recuperar infraestruturas e seguir na atividade rural.

A safra de soja 2024/25 registrou uma queda de produtividade de 38%. A colheita total ficou 8 milhões de toneladas abaixo da previsão.No início de 2026, lavouras de soja no norte do estado enfrentaram mais de 40 dias de seca e calor intenso, com algumas quebras consolidadas. O ciclo começou com otimismo e até projeções de recorde. A ausência de chuvas em fases críticas alterou drasticamente o cenário. Estimativas de perda variam conforme a região e o estágio da lavoura: maiores onde a seca coincidiu com floração e enchimento de grãos, em plantios e variedades precoces. A gravidade da situação levou alguns municípios a decretarem emergência em fevereiro de 2026, citando o comprometimento direto da safra de verão.

O arroz teve um recuo significativode área em 2026: 8% a menos, em relação à safra anterior. Ficou em cerca de 891 mil hectares. É a menor área semeada no Rio Grande do Sul desde 2009, devido preços baixos, altos estoques de passagem e custos de produção.

No feijão, as projeções para a safra 2026 também indicam uma redução na área plantada de mais de 7%. O feijão foi substituído por culturas de maior rentabilidade, como soja ou milho. A redução na oferta de arroz e feijão reflete um ajuste de mercado para tentar conter os baixos preços recebidos pelos produtores, com queda mais acentuada no caso do arroz.

O desânimo alcançou o plantio de inverno. As projeções indicam redução na área plantada com trigo no Rio Grande do Sul em 2026. Embora o estado tenha retomado a liderança nacional na produção do cereal recentemente, o cenário para 2026 é de cautela. A CONAB estima cerca de 2,3 milhões de hectares de trigo no país, uma redução de 5,2%. Produtores gaúchos estão mais conservadores na decisão de plantio. Seu nível de endividamento, os baixos preços do cereal e o custo de produção elevado impactam a capacidade de investimento para a nova safra.

Apesar dos pacotes governamentais anunciados, a percepção no campo é de absoluta insuficiência. Alguns produtores começaram migrar da agricultura para a pecuária. Outros temem abandonar a atividade rural por não fechar as contas.O governo federal anunciou aportes de R$ 12 bilhões para renegociar as dívidas e editou medidas provisórias (como a MP 1.314) para novas linhas de crédito e amortização de dívidas. Na prática…de operacional… pouco, nada ou quase nada e dá no mesmo.

O Governo estadual investiu na reconstrução de estradas e apoio (Plano Rio Grande).Para os produtores as medidas são insuficientes frente à dimensão do prejuízo. Muitos se queixam da pouca ajuda. Pode-se parafrasear o Barão de Itararé: – Não é nada, não é nada… (…)…não é nada. Na Expointer 2025, autoridades federais e estaduais enfrentaram protestos intensos, vaias e coroas de flores (símbolos do luto no setor).

A crise agrícola no Rio Grande do Sul ultrapassou as perdas materiais, afetou a saúde mental e a continuidade das famílias no campo. O agricultor sofre com síndrome pós-traumática, após enchentes históricas e perdas sucessivas. O estado registrou dezenas de casos de suicídio entre produtores rurais em 2025, ligados a endividamento, descaso e depressão.

A agropecuária impacta cerca de 40% do PIB estadual, é fundamental para a economia gaúcha e responsável por grande parte das exportações. A recuperação parcial do agronegócio gaúcho em 2026 é fruto da resiliência dos produtores,cooperativas e organizações. Resulta de seu esforço de reconstrução, solidariedade e parcerias, após os eventos climáticos. O setor ainda lida com margens apertadas, desafios de endividamento e demonstra seu empreendedorismo inovador em eventos como a Expodireto Cotrijal 2026 em Não-Me-Toque. O movimento de quem acredita no campo.

Há anos, os produtores rurais parecem abandonados pelo Poder Público federal e estadual. Não basta só alguma ajuda financeira ou anistia fiscal. A agricultura gaúcha necessita de um verdadeiroPlano Marshallcom investimentos estruturantes, programas e projetos, numa ampla parceria entre setores público e privado,para superar a crise, retornar à normalidade e ao crescimento. Sem isso,fazendas desaparecerão eprodutores morrerão…saudáveis ou“bem amelhorados”, como são apresentados sem narrativas oportunistas se apimentadas do (des)governo em ano eleitoral.

Foto: Divulgação/autor
Foto: Arquivo pessoal
Evaristo de Miranda é pesquisador aposentado da Embrapa, Doutor em Ecologia, escritor e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Artigo publicado originalmente na revista Oeste, gentilmente cedido pelo autor à SNA.
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