Ferramenta inédita de hedge busca reduzir volatilidade no mercado leiteiro

Na prática, o mecanismo funciona como uma espécie de seguro de preço – Foto: Canva

O mercado leiteiro brasileiro deu um passo em direção à maior previsibilidade e proteção contra oscilações de preços com o lançamento, na última quarta-feira (13), de uma ferramenta de hedge voltada ao setor. Desenvolvida pela StoneX em parceria com o CEPEA, a iniciativa foi apresentada na sede da CNA e permitirá que produtores, cooperativas, laticínios, tradings e varejistas travem preços futuros e reduzam os impactos da volatilidade do mercado. Na ocasião, o presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da CNA, Jônadan Ma, assinou simbolicamente o primeiro contrato da ferramenta.

O primeiro vice-presidente da CNA, Gedeão Silveira Pereira, afirmou que o lançamento é fruto de um trabalho conjunto envolvendo técnicos e especialistas da cadeia leiteira. Para ele, o instrumento representa um avanço importante para o agronegócio brasileiro. “O mercado pode se beneficiar de mecanismos como este. Precisamos deixar um legado para os nossos sucessores, que vão assumir as propriedades e torná-las negócios ainda melhores”, declarou.

Para o vice-presidente da Sociedade Nacional de Agricultura, Hélio Sirimarco, o aumento da procura por mecanismos de proteção financeira já é percebido em diferentes cadeias agropecuárias. Segundo ele, o hedge, por meio de derivativos, contratos futuros, contratos a termo e opções, vem sendo cada vez mais utilizado por setores preocupados com os riscos de preço. “O setor leiteiro, assim como outros segmentos do agro, busca agora formas de se proteger das oscilações de mercado”, afirmou.

Sirimarco lembrou ainda que levantamento recente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) apontou crescimento na utilização dessas ferramentas por confinadores de gado em Mato Grosso, reflexo das incertezas econômicas e geopolíticas globais. De acordo com os dados citados pelo dirigente, quase 39% dos confinadores já utilizam contratos a termo, enquanto as operações com contratos futuros na B3 chegam a 3,7%. “A tendência é que setores que ainda não utilizam esse tipo de mecanismo passem a adotá-lo, como acontece agora com o segmento de laticínios”, ressaltou.

Mercado de balcão

A ferramenta disponibiliza quatro produtos negociados em mercado de balcão (OTC), sem listagem em bolsa: leite ao produtor e leite UHT, ambos em contratos de 40 mil litros; queijo muçarela, em lotes de 4 mil quilos; e leite em pó integral industrial, em contratos de cinco toneladas. A liquidação financeira utiliza como referência os indicadores do CEPEA, com fechamento realizado no último dia útil de cada mês.

Na prática, o mecanismo funciona como uma espécie de seguro de preço. Um produtor que fixe antecipadamente o valor do litro do leite em R$ 2,00, por exemplo, garante essa remuneração independentemente das oscilações do mercado até a liquidação do contrato. Caso o preço suba para R$ 2,50, ele recebe a diferença negativa na operação financeira; se cair para R$ 1,50, é compensado pela corretora. Assim, o resultado líquido permanece no valor previamente travado.

Objetivo e como participar

O objetivo da ferramenta não é ampliar ganhos, mas assegurar margem financeira e previsibilidade. Uma vez que o produtor entende qual margem deseja alcançar ao longo dos meses, ele consegue vender antecipadamente e entregar o leite sem a incerteza do preço futuro.

Para participar, é necessário abrir conta na StoneX e arcar com os custos de corretagem padrão, além das exigências de margem de garantia e ajustes diários conforme o comportamento do mercado. A empresa informou ainda que contratos fracionados estarão disponíveis, permitindo a adesão de pequenos produtores. Um contrato corresponde a 40 mil litros, mas o produtor pode operar meio contrato, sendo uma ferramenta bastante acessível.

Com mais de três décadas de atuação no mercado internacional de lácteos, a StoneX afirma concentrar cerca de 60% das operações globais de hedge do segmento. A experiência acumulada na Europa serviu de referência para o desenvolvimento do modelo brasileiro. “Há 30 anos, vivíamos esse mesmo momento na Europa. Hoje, 95% daquele mercado opera hedge conosco”, disse a consultora da Stonex, Mariane Tufani.

Lógica de curto prazo

Já a pesquisadora do CEPEA, Natália Grigol, avaliou que a cadeia leiteira brasileira ainda opera sob uma lógica de curto prazo, o que compromete investimentos e reduz competitividade. Segundo ela, a falta de previsibilidade dificulta o planejamento tanto para produtores quanto para a indústria, impactando diretamente a capacidade de expansão e modernização do setor.

Natália Grigol destacou ainda que a previsibilidade proporcionada pelo hedge pode beneficiar toda a cadeia produtiva, chegando também ao consumidor final. “Uma produção melhor planejada tende a garantir maior regularidade de preços e qualidade dos alimentos”, afirmou. Para a pesquisadora, a parceria entre CEPEA e StoneX demonstra visão estratégica de longo prazo para o fortalecimento da cadeia láctea nacional.

Investigação

O lançamento da ferramenta ocorre em meio à investigação de dumping aberta pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) contra importações de leite em pó da Argentina e do Uruguai, processo solicitado pela CNA e que aguarda decisão final da Camex. Em 2024, até novembro, o Brasil importou o equivalente a 1,4 bilhão de litros de lácteos, sendo 760 milhões da Argentina e 566 milhões do Uruguai.

Para Jônadan Ma, as discussões sobre defesa comercial e previsibilidade de preços caminham juntas. “Não adiantaria falar em mercado futuro se continuássemos enfrentando uma concorrência desleal e predatória”, afirmou.

De acordo com dados do IBGE, o Brasil ocupa atualmente a sexta posição entre os maiores produtores de leite do mundo, com 35,7 bilhões de litros produzidos em 2024, volume recorde para o país. A atividade está presente em 99% dos municípios brasileiros e reúne cerca de 1,2 milhão de propriedades rurais, movimentando um Valor Bruto da Produção (VBP) estimado em R$ 87,5 bilhões.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr
Com informações da Stonex, Cepea, CNA e IBGE
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