Etanol do Brasil sob pressão dos EUA

A proposta do governo de Donald Trump de reduzir o volume obrigatório de consumo de biocombustíveis mais “limpos” em 2018 nos EUA acirra a pressão sobre a indústria de etanol do Brasil e pode elevar o superávit da balança bilateral do biocombustível em favor dos americanos, justamente em um momento em que o governo brasileiro avalia se impõe ou não uma taxa sobre as importações do produto.

Em documento apresentado na quarta-feira (5), a Agência de Proteção Ambiental (Epa, na sigla em inglês) propôs um mandato para os biocombustíveis “avançados”, com “pegada” de carbono menor que os biocombustíveis “convencionais”, de 4.24 bilhões de galões em 2018 contra 4.28 bilhões vigentes neste ano. Já em relação ao mandato para o biocombustível convencional (como o etanol de milho, produzido pela indústria americana), a proposta é de manutenção em 15 bilhões de litros.

 

 

Sem considerar dentro do mandato de avançados o volume previsto para biodiesel e etanol celulósico, o espaço para outros biocombustíveis avançados, entre eles o etanol de cana, ficaria em 1.9 bilhão de galões, contra 1.969 bilhão de galões atuais. Para o etanol de cana, que os EUA importam sobretudo do Brasil, a Epa propôs importação de 100 milhões de galões, metade das metas de 2016 e deste ano.

O argumento da Epa para essa redução é que, mesmo com uma meta de 200 milhões de galões, o Brasil já diminuiu suas exportações aos EUA no ano passado, uma vez que as usinas brasileiras priorizaram a produção de açúcar porque os preços da commodity estavam mais remuneradores. Em 2016, o Brasil exportou 34 milhões de galões de etanol aos EUA, não apenas longe da meta como 64% abaixo do ano anterior.

Para João Paulo Botelho, analista da consultoria FCStone, contudo, a redução da meta irá desestimular os misturadores de combustíveis dos EUA a importar o etanol de cana. Além disso, os valores dos créditos de uso de biocombustível (os RINs) gerados pelas tradings que exportam o produto brasileiro aos EUA podem cair, consequentemente pressionando a remuneração das usinas no Brasil, afirma ele.

As propostas da Epa agora passam por consultas públicas. Nesse processo, a União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica), que representa o setor do Centro-Sul, informou que “espera ter a oportunidade de demonstrar e reforçar à Epa o desempenho ambiental do etanol brasileiro e o quanto ele pode continuar a contribuir para uma matriz energética americana mais limpa, se as condições de mercado estiverem presentes”.

Por sua vez, a Associação de Combustíveis Renováveis dos EUA (RFA, na sigla em inglês) comemorou a manutenção do mandato para biocombustíveis convencionais e disse ter “preocupação” apenas com a redução do mandato para biocombustíveis celulósicos, para 238 milhões de galões, ante os atuais 311 milhões de galões.

A notícia de um possível desestímulo às exportações aos EUA vem em um mau momento para o etanol no Brasil, já que as importações do produto americano, que em 2016 foram operadas por companhias como Raízen e Copersucar, dispararam recentemente.

Em 2016, o Brasil teve um déficit na balança comercial de etanol com os EUA de US$ 321 milhões, de acordo com dados do Agrostat, serviço de estatística do Ministério da Agricultura. Até então, a única vez em que o Brasil registrou déficit nessa balança com os americanos havia sido em 2011, segundo o Agrostat.

O desequilíbrio em 2016 levou a indústria brasileira de etanol a pedir a taxação das importações do produto, que atualmente é isento de tarifa. O Ministério da Agricultura abraçou a causa e apresentou uma defesa de uma taxa de 17%.

Pautada na reunião do Comitê Executivo de Gestão (Gecex), grupo técnico da Câmara de Comércio Exterior (Camex), da última terça-feira, a decisão sobre o pleito foi adiada para o dia 25, a pedido do Ministério da Fazenda, segundo fontes. Procurado, o ministério informou que não comentaria. Sem a taxação das importações e sem um incentivo do governo dos EUA, principal destino das exportações brasileiras de etanol, a tendência é que o déficit dessa balança cresça.

Um dos primeiros a apresentar à Camex o pedido de taxação, Renato Cunha, presidente do Sindaçúcar de Pernambuco, diz que a produção das usinas do Nordeste pode se tornar inviável já nesta safra sem o imposto. “Quando as distribuidoras se abastecem com etanol de fora, pode haver gargalos de armazenagem, porque a usina produz e não sabe quando vai vender”, disse.

O Brasil tem reduzido seu peso nas exportações globais de etanol e não é de hoje. De 2013 a 2015, a participação do país nos embarques mundiais caiu de 40% para 26%, enquanto a fatia dos EUA avançou de 33% para 45% no período, segundo dados da consultoria Datagro.

 

Fonte: Valor Econômico

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