
Desde janeiro, a Embrapa Café possui novo titular em sua Chefia – Geral. É o engenheiro agrônomo Rodolfo Osorio de Oliveira, que também é especialista em Economia e Administração Agroindustrial pela ESALQ/USP e Mestre em Desenvolvimento Econômico pela Unicamp. Além da sólida formação acadêmica, possui trajetória profissional reconhecida e fecunda, incluindo passagens de sucesso no Ministério da Agricultura e também na Embrapa Alimentos e Territórios.
Escolhido após apresentar projeto de trabalho em audiência pública no ano passado, Rodolfo conversou com o Portal SNA sobre os desafios que tem pela frente e como pretende enfrentá-los. Para ele, a cafeicultura brasileira possui traços complexos e singulares, somente possíveis com avanços de pesquisa científica e parcerias entre setores público e privado. O novo Chefe – Geral também abordou como o trabalho da entidade dialoga com as urgências econômicas e geopolíticas do momento, além das crescentes demandas por produção sustentável.
Além disso, ele aponta a necessidade de estimular a produção em áreas pouco associadas à cafeicultura, como a Amazônia. Por fim, Rodolfo defende que integrar atividades como turismo, inovação tecnológica e estudo de mercados consumidores ajuda na geração de renda e de quem produz e fomenta o progresso social das comunidades. Confira a íntegra da entrevista a seguir.
SNA: Quais são os principais desafios que o senhor vislumbra para sua recém iniciada gestão como chefe-geral da Embrapa Café, e de que forma pretende enfrentá-los?
Rodolfo de Oliveira: São três os principais desafios. O primeiro é dar visibilidade e acesso aos resultados entregues pelo Consórcio Brasileiro de Pesquisa do Café. O segundo é consolidar a gestão da pesquisa na Embrapa Café, por meio da reformulação estratégica da sua estrutura de gestão institucional. E o terceiro é o apoio à consolidação da cafeicultura nacional, fortalecendo os territórios tradicionais (principalmente no Sudeste) e ampliar o alcance da pesquisa e da inovação em territórios não tradicionais, como a Amazônia, o Nordeste e o Centro-Oeste. A realização desses objetivos só é possível com o fortalecimento de parcerias já tradicionais, principalmente no âmbito do Consórcio, e da consolidação de novos parceiros nas áreas de pesquisa, inovação, assistência técnica e extensão rural.
SNA: O Brasil exerce longevo protagonismo na produção e exportação de café, com a excelência do produto atestada pelo vasto mercado consumidor e rigorosos testes de controle da qualidade. Como a Embrapa Café pode contribuir para aperfeiçoar ainda mais um setor tão bem sucedido?
Rodolfo de Oliveira: O Brasil é o maior produtor e exportador, e o segundo maior consumidor de cafés no mundo. Essa liderança se estabeleceu com base no investimento em ciência e inovação, que se traduziu em ganhos de produtividade e adaptação da cafeicultura às diferentes condições de clima e de solo nas regiões brasileiras. A ciência pode fazer muito mais, com investimento em pesquisa e inovação para a produção de cafés de qualidade, com sustentabilidade e diferenciação territorial, reconhecendo a dimensão continental brasileira e valorizando sua diversidade. Sustentabilidade é produção com eficiência econômica, respeito ambiental (de preferência com saldo positivo, por meio do sequestro de carbono), social e rastreabilidade, focando em sistemas produtivos adaptados às mudanças climáticas. Qualidade anda junto com diferenciação, buscando desenvolver as características únicas de cada terroir brasileiro.
SNA: De que forma o diálogo com governos, iniciativa privada e entidades de representação pode contribuir para o trabalho de pesquisa e ciência desempenhado pela Embrapa Café?
Rodolfo de Oliveira: A cafeicultura brasileira talvez seja uma das mais complexas do mundo. Aqui produzimos cafés arábicas e canéforas, com sustentabilidade, qualidade, diferenciação e rastreabilidade. Esse desenvolvimento só foi possível com parcerias entre os diversos segmentos das cadeias de valor, entre atores públicos e privados. Num mundo cada vez mais competitivo e complexo, onde o desempenho econômico da cafeicultura brasileira depende também de questões geopolíticas, a compreensão da interdependência dos elos da cadeia de valor do café é cada vez mais essencial. Nesse contexto, estabelecer redes de cooperação e de atuação conjunta é crucial na busca por soluções viáveis e inovações necessárias para que a cafeicultura continue cumprindo seu papel de vetor de transformações sociais, econômicas e ambientais, contribuindo para o desenvolvimento sustentável brasileiro.
SNA: O café tem sido um dos produtos mais afetados por barreiras tarifárias, cotações elevadas e eventos climáticos. Como acontecimentos dessa natureza influenciam as propostas de trabalho e outras decisões da Embrapa Café?
Rodolfo de Oliveira: Toda a agricultura brasileira já sente de perto os efeitos das mudanças climáticas. O desastre de 2024 no Rio Grande do Sul mostra isso. O enfrentamento desses desafios passa, necessariamente, pela evolução constante da competitividade da cadeia de valor do café. A base para isso está na ciência, na tecnologia e na inovação. As organizações de pesquisa e inovação precisam estar atentas à evolução dos mercados e aos desafios climáticos, buscando adaptar sua operação a essa nova realidade. A Embrapa já vem incluindo em seus planejamentos de pesquisa a adaptação às incertezas geradas pelas mudanças climáticas, tendo como diretriz a adaptação de seus programas de pesquisa e inovação às condições de produção mais desafiadoras; a valorização da diversidade da cafeicultura brasileira em seus mais de 35 territórios cafeeiros, presentes em quase todos os biomas; e fazer chegar aos cafeicultores nos diversos territórios brasileiros os conhecimentos desenvolvidos nesse novo cenário de adaptação às mudanças climáticas.
SNA: As novas tecnologias, a exemplo da inteligência artificial, vem sendo assimiladas rapidamente pela agricultura no mundo todo e impactando as cadeias produtivas. Em sua opinião, o Brasil seguirá na vanguarda dessas novidades, das quais sempre foi pioneiro, em especial no segmento do café?
Rodolfo de Oliveira: Inteligência artificial, aplicativos, acesso à internet 5G e outras tecnologias são ferramentas cruciais para o processo de inovação, mas existe uma etapa anterior a isso: a geração de conhecimentos e de dados confiáveis que possibilitem sua utilização de maneira eficiente, eficaz e transformadora. As ferramentas de inteligência artificial que utilizam bases de dados confiáveis, voltadas às reais necessidades dos cafeicultores, podem facilitar a tomada de decisão quanto à escolha dos cultivares mais adaptados às condições de solo e de clima dos diferentes territórios, bem como na adaptação de diferentes tecnologias produtivas em sistemas eficientes e que atendam às demandas de mercado.
SNA: A cafeicultura brasileira também é conhecida por seu protagonismo na adoção de práticas sustentáveis e uso racional de recursos hídricos, entre outros cuidados. A Embrapa Café tem sido fundamental nisso. O que precisa ser repensado ou aprimorado neste sentido, em sua opinião, diante das novas demandas que buscam conciliar preservação e pujança produtiva?
Rodolfo de Oliveira: Sustentabilidade envolve geração de renda, preservação ambiental e justiça social. Recursos naturais, como o solo e a água, são estratégicos e devem ser encarados de forma integrada. A cafeicultura sustentável precisa ser eficiente e gerar prosperidade para os cafeicultores. Renda da produção e da comercialização do café, mas também de serviços ambientais associados, como o sequestro e a comercialização de carbono, aproveitamento de resíduos, como o biochar, e a integração com outras atividades econômicas, como o turismo.
Por Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário marcelosa@sna.agr.br






