China traça estratégia para ampliar produção de grãos e reduzir dependência externa

Os relatórios oficiais indicam que as autoridades pretendem ampliar o rendimento unitário de culturas como cereais e oleaginosas em grandes extensões de terras agrícolas – Edição de imagem: Larissa Machado

O governo da China anunciou um plano para elevar a capacidade nacional de produção de grãos para cerca de 725 milhões de toneladas no período entre 2026 e 2030. A meta, divulgada em documentos do novo plano quinquenal e em relatórios apresentados ao Parlamento, prioriza ganhos de produtividade agrícola por meio de inovação tecnológica, melhoria das sementes e preservação dos solos, em vez da ampliação da área cultivada.

Maior produtor global

Em 2024, o país registrou produção recorde de 715 milhões de toneladas de grãos, mantendo sua posição como maior produtor global. Ainda assim, o governo considera necessário fortalecer a segurança alimentar diante de riscos no cenário internacional, especialmente após o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde circulam grandes volumes de petróleo e fertilizantes destinados a diversos países, incluindo a China.

Aumento de produtividade por área

Segundo o analista de políticas agrícolas da China, Matthew Nicol, o aumento da produtividade por área cultivada tornou-se essencial para atingir as metas do país. De acordo com ele, as limitações relacionadas à disponibilidade de terras agrícolas e recursos de irrigação restringem a expansão da produção por meio da abertura de novas áreas, tornando indispensável o avanço tecnológico para elevar o rendimento das lavouras.

Cereais e oleaginosas

Os relatórios oficiais indicam que as autoridades pretendem ampliar o rendimento unitário de culturas como cereais e oleaginosas em grandes extensões de terras agrícolas. Ao mesmo tempo, o governo buscará manter estável a produção de arroz e trigo, enquanto planeja expandir a capacidade produtiva de milho e soja.

Segurança alimentar

Com restrições de terra e água, a estratégia chinesa para garantir segurança alimentar no longo prazo inclui investimentos em mecanização agrícola, inovação genética e novas tecnologias de cultivo. Apesar da colheita recorde registrada no último ano, o país ainda depende de importações relevantes de produtos agrícolas, sobretudo soja. Os Estados Unidos, além de rival geopolítico, figuram como o segundo maior fornecedor desse produto ao mercado chinês.

Para reduzir essa dependência, o plano governamental prevê a criação de canais de abastecimento externos considerados “estáveis e controláveis”, além da diversificação das origens das importações. O documento também destaca o incentivo ao desenvolvimento da biologia sintética e de novas fontes de proteína como alternativas para diminuir a necessidade de compras no exterior.

Alimentação animal

Nesse contexto, Pequim já anunciou medidas voltadas ao setor de alimentação animal. Em abril do ano passado, o país apresentou uma estratégia para reduzir a participação do farelo de soja nas rações animais para 10% até 2030, iniciativa que também ocorre em meio à disputa comercial com os Estados Unidos.

Recuperação de solos produtivos

Outra frente da política agrícola envolve a proteção e recuperação de solos produtivos. As autoridades pretendem intensificar a preservação do solo negro localizado no Nordeste da China, considerado um dos mais férteis do país, além de ampliar ações de recuperação e aproveitamento de terras salinas-alcalinas para uso agrícola.

Modernização de áreas agrícolas

O plano quinquenal também estabelece prioridade para a modernização de áreas agrícolas permanentes em regiões de alto potencial produtivo, incluindo planícies, áreas irrigadas e regiões do Nordeste. A meta é desenvolver terras agrícolas de alto padrão, capazes de sustentar níveis mais elevados de produção.

Como parte desse esforço, o governo deve divulgar ainda este ano os resultados de um levantamento nacional do solo realizado ao longo de quatro anos e concluído em 2025. A pesquisa anterior, divulgada em 2014, apontou que cerca de 40% das terras aráveis do país apresentavam algum grau de degradação, resultado do uso intensivo de produtos químicos e da contaminação por metais pesados.

Estratégia agrícola

A estratégia agrícola também inclui o desenvolvimento de novas variedades de culturas com alto rendimento, qualidade superior e maior resistência a condições adversas. Paralelamente, o governo pretende fortalecer a segurança das sementes e acelerar programas voltados à revitalização da indústria do setor.

De acordo com especialistas, termos utilizados nos documentos oficiais, como “variedades inovadoras”, frequentemente se referem a plantas geneticamente modificadas ou editadas geneticamente, ainda que essas tecnologias não sejam citadas de forma direta. O plano prevê ainda a expansão de aplicações digitais impulsionadas por inteligência artificial na agricultura e avanços no cultivo biotecnológico.

Nos últimos anos, a China iniciou a comercialização de variedades geneticamente modificadas de milho e soja como parte de sua estratégia para elevar a produtividade e reforçar a segurança alimentar. Apesar disso, a adoção dessas tecnologias ainda ocorre de forma gradual, em parte devido à cautela de consumidores em relação aos produtos transgênicos.

Produção de suínos

Paralelamente às medidas voltadas ao aumento da produção de grãos, o governo chinês também orientou ajustes no setor de suinocultura. O Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais solicitou aos produtores que reduzam o ritmo de produção e intensifiquem o controle de custos, diante do atual cenário de excesso de oferta no mercado interno.

Limites de produção

Durante reunião com representantes do setor, as autoridades recomendaram o cumprimento dos limites de produção previstos para 2025 e a criação de um sistema de registro que permita aprimorar os mecanismos de monitoramento da atividade.

Pressão nos preços

O mercado de carne suína enfrenta um período de pressão nos preços. Em dezembro, as cotações registraram queda anual de 14,6%, refletindo um ciclo prolongado de desvalorização associado à demanda doméstica enfraquecida, à desaceleração econômica e às mudanças nos hábitos de consumo da população.

A China permanece como a maior produtora mundial de suínos. Em 2024, foram abatidos aproximadamente 720 milhões de animais no país. Já no quarto trimestre de 2025, a produção alcançou 15,7 milhões de toneladas de carne suína, o maior volume registrado para o período desde 2018.

O elevado nível de oferta combinado ao consumo mais fraco tem pressionado a rentabilidade dos produtores, cenário que reforça a necessidade de ajustes na produção para reequilibrar o mercado doméstico. Nesse contexto, o governo busca alinhar políticas agrícolas e pecuárias com o objetivo de garantir estabilidade ao abastecimento alimentar e reduzir vulnerabilidades externas no longo prazo.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
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