China anuncia tarifa de 55% para carne bovina do Brasil

Governo chinês decidiu restringir importações de carne bovina para proteger indústria local. Brasil está entre os países que pagarão sobretaxa caso ultrapasse cotas estabelecidas. Medida entra em vigor já no primeiro dia de 2026. Foto: Arquivo SNA

Medida busca proteger produtores locais após aumento de importações

O Ministério do Comércio da China confirmou nesta terça-feira (31 de dezembro) a aplicação de uma alíquota de 55% sobre carne bovina importada do Brasil, numa tentativa de proteger agricultores e produtores locais, caso determinados limites de compra sejam ultrapassados. Uma série de cotas entrará em vigor a partir de 1º de janeiro, depois de as autoridades de Pequim determinarem que o aumento das importações prejudicou a indústria local. A conclusão veio após uma investigação oficial aberta pelo governo chinês em 2024.

A possibilidade dessa sobretaxa já vinha sendo discutida nas reuniões bilaterais com representantes dos dois países. O Brasil está atualmente entre os principais fornecedores de carne bovina para a China, mas a medida também afetou outras nações, como Argentina, Uruguai, Austrália e Nova Zelândia, que terão direito a enviar volumes em grande parte alinhados à sua participação de mercado no país asiático, segundo comunicado publicado no site do Ministério do Comércio local. Produtores menores, como Mongólia, Coreia do Sul e Tailândia, ficarão isentos.

Após a entrada em vigor já no primeiro dia de 2026, as medidas terão duração de três anos, até 31 de dezembro de 2028, com previsão de flexibilização gradual ao longo do período. Os produtos afetados incluem carne fresca, refrigerada ou congelada, com ou sem osso, inteira ou em meia carcaça, provenientes de bovinos. Para o Brasil, a China estabeleceu uma cota de 1,1 milhão de toneladas. Dentro desse volume, a taxação vigente permanece, com os 55% valendo apenas para remessas excedentes. A cota para a Argentina foi de 510 mil toneladas, e para o Uruguai, de 310 mil toneladas.

Essa disparidade alarmou o setor, já que os rebanhos e territórios dos países vizinhos são bem menores. Os números reservados ao Brasil parecem mais severos, especialmente ao se considerar que a exportação para a China já vinha excedente 1 milhão de toneladas em anos recentes. O setor estima encerrar 2025 com 1,7 milhão de toneladas de carne bovina enviadas o país asiático. Até novembro, as exportações para o mercado chinês alcançaram 1,5 milhão de toneladas e renderam US$ 8 bilhões.

Uma limitação das exportações brasileiras a 1,1 milhão de toneladas representaria um retorno do ritmo de exportações anterior a 2022. Com isso, a partir de agora, a expectativa é de que as previsões de exportação para o Brasil em 2026 sejam revistas, já que autoridades chinesas não descartam ações complementares como a redução do número de frigoríficos habilitados e a redução das linhas de crédito para as empresas importadoras de carne.

Repercussão inicial e expectativa para os próximos passos

Secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, procurou minimizar o anúncio dos chineses e disse que o mercado brasileiro possui alternativas para escoar eventual excedente, sem que as negociações sejam comprometidas. Foto: Carlos Silva/MAPA

Autoridades brasileiras procuraram minimizar o anúncio das tarifas e enfatizar que alguma ação nesse sentido já era esperada. O governo também busca negociar compensação comercial. “Existe a possibilidade de os chineses darem algum tipo de compensação. Eventualmente eles podem conceder a abertura de algum mercado, por exemplo, os mercados de miúdos bovinos e suínos. Pode ser uma saída trabalharmos a abertura destes mercados”, afirmou o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, em conversa com jornalistas.

O secretário acrescentou que o governo também mantém conversas com o governo chinês para que os volumes de carnes que já estão embarcadas em águas internacionais sejam internalizadas, usando parte da cota. Ele salientou que o Brasil tem acesso a mais de 150 mercados para a carne bovina e que abriu sete novos mercados desde o tarifaço americano, tendo, segundo ele, condições de reposicionar parte dos embarques que iriam para a China para outros mercados.

O Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, disse em comunicado que “Ainda que a China represente 50% das nossas compras de carne, de modo geral, não é algo tão preocupante, porque nós trabalhamos muito para a ampliação dos mercados, abrimos 20 mercados para a carne bovina por todo o mundo”. O ministro também detalhou que a cota de carne bovina brasileira destinada ao mercado chinês será de 1,106 milhão de toneladas, o que corresponde a 44% do volume a ser importado com as tarifas regulares atuais.

Fávaro ainda disse que o governo continuará negociando com os chineses para entender a implementação das medidas de salvaguarda. O ministro detalhou, ainda, que pode adotar um esquema de compensação para a carne bovina brasileira com países que eventualmente não conseguirem cumprir a cota de venda para a China.

Em nota conjunta, a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) e a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) adotaram tom de prudência e disseram aguardar que as tratativas possam chegar a um equilíbrio razoável para ambas as partes. As entidades evitaram criticar diretamente a medida adotada pela China, mas reconhecem o impacto no setor. “Nesse cenário, passam a ser necessários ajustes ao longo de toda a cadeia, da produção à exportação, para evitar impactos mais amplos”, diz o comunicado.

A ABIEC e a CNA seguirão acompanhando a implementação das medidas, atuando diretamente junto ao Governo Brasileiro e às autoridades chinesas para reduzir os danos que essa sobretaxa causará aos pecuaristas e exportadores brasileiros e para preservar o fluxo comercial historicamente praticado”, conclui a nota.

Por Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br
Com informações complementares do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
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