Causará o homem sua própria destruição ecológica? Por Xico Graziano

A inteligência humana, quando desafiada pelos problemas ecológicos, cria tecnologias e encontra boas soluções, diz o articulista. Imagem: Divulgação/TV Brasil

Entre previsões alarmistas e avanços científicos, o debate ambiental revela limites do catastrofismo.

Antônio Conselheiro, líder de Canudos, profetizava que “o sertão vai virar mar”. Alimentava assim, em seus seguidores, a esperança de dias melhores, longe da secura da caatinga nordestina.

Carlos Nobre, o maior cientista brasileiro sobre mudanças do clima, escreveu há mais de 50 anos que a Amazônia estava prestes a secar. Ao colapso da hileia seguiria sua “savanização”.

A predição otimista de Antônio Conselheiro se eternizou pela música, por meio do talento de Sá e Guarabira. A canção “Sobradinho” enaltece a construção da maior barragem do Nordeste, que represou o rio São Francisco e inundou o sertão da Bahia por uma faixa de 320 km.

O pessimismo de Carlos Nobre estimulou o catastrofismo ecológico pelo mundo afora. É como se o mundo fosse acabar pelas mãos insensatas da ganância capitalista. Diabolizou-se o moderno agronegócio.

Minha geração universitária, formada nos anos de 1970, foi levada a acreditar no colapso ambiental. Sua principal (triste) inspiração vinha do relatório do Clube de Roma, divulgado em 1972. Os limites do crescimento estavam claros e as soluções se impunham:

  • zerar o crescimento econômico dos países; 
  • controlar o crescimento populacional;
  • reduzir a demanda por recursos naturais

O caos civilizatório estava estimado para dali a algumas décadas. Por isso, era urgente tomar as providências mais radicais visando a reverter o desastre ecológico que se aproximava. Na época, a população mundial já ultrapassara os 3,5 bilhões de habitantes.

A China e a Índia ensaiavam crescer. Não haveria matéria-prima nem recursos ambientais para todos. Poluição atmosférica e de recursos hídricos impediriam a expansão urbana. O petróleo iria acabar até o ano 2000.

Sobre tal desafio eu lecionava na disciplina de desenvolvimento econômico, aos alunos da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (Unesp/Jaboticabal). Em 1980, o agrônomo gaúcho José Lutzenberger, o maior ambientalista brasileiro, havia publicado seu manifesto ecológico. O título do livreto era inquietante: “Fim do futuro ?”

A erosão dos solos estava impedindo a agricultura. Pesticidas químicos matariam milhões de humanos. O desmatamento provocaria uma extinção de espécies que fazia lembrar o fim dos dinossauros. Tudo era muito sombrio.

Em 1988, a Assembleia da ONU criou o IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Mudanças Climáticas). A equação futurista ganhava nova dimensão com a teoria do aquecimento global: emissões de gases de efeito estufa tornariam a Terra inabitável.

A cada relatório do IPCC, aumentava a preocupação. Eventos climáticos extremos arrasariam populações. Os mares engoliriam os litorais apinhados de gente. Falava-se em trágicas ondas de mortalidade pelo calor.

No 4º relatório de avaliação do IPCC, em 2007, o alerta da savanização da Amazônia ganhou destaque. Ao mesmo tempo, as suposições sobre o aquecimento global indicavam maiores índices de chuvas no cerrado do Centro-Oeste. Era curioso.

A floresta amazônica viraria uma espécie de Cerrado, seco, e o Cerrado brasileiro se transformaria em densa floresta, úmida. Para São Paulo, o cenário era apavorante: ao secar o “rio-voador”, que nasce na Amazônia e corre pelo céu dos Andes, cessariam as chuvas no território paulista. Tudo era tenebroso na agenda ambiental.

Nessa época, no governo de José Serra, eu assumi a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. A Cetesb me mostrava que a poluição atmosférica havia caído pela metade na capital paulistana. No campo, avançava o sistema do plantio direto, dando um basta na erosão.

O Código Florestal obrigava a preservação de matas ciliares. Novas moléculas, junto com tecnologia de aplicação correta, mitigavam os graves efeitos dos primeiros defensivos. A produtividade da terra triplicara com as novas tecnologias.

Havia motivos para enfrentar o pessimismo, e assim comecei a combater o catastrofismo no campo. Meu aprendizado dizia que a inteligência humana, quando desafiada pelos problemas ecológicos, cria tecnologias e encontra boas soluções. Avança a sustentabilidade.

Nesses dias, a revista Pnas (Proceedings of the National Academy of Sciences) publicou um artigo contendo evidências científicas que desmentem a hipótese da savanização da Amazônia. Destacada pelo jornal O Estado de S. Paulo, no editorial “Amazônia está longe da “savanização”, a pesquisa se realizou sob a coordenação do conceituado Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).

Cientistas, brasileiros e internacionais, iniciaram os trabalhos em 2004, analisando o efeito de queimadas controladas na floresta da Estação de Pesquisa Tanguro, em Querência (MT). A partir de 2010, interromperam os incêndios e acompanharam, por seguidos anos, no local, o resultado do experimento. Não comprovaram nesse longo período a redução das espécies típicas da Amazônia nem o aumento das espécies de savana.

Ou seja, não comprovaram, na prática, o tipping point, ou o ponto de não retorno da floresta, que já estaria atingido. Nada disso. Controlada a pressão de dano, a natureza se regenera. Quem garante é a ciência.

A Amazônia não desaparecerá. Mas sua permanência exige controlar sua devastação. Nessa tarefa, há que se juntar forças, buscar interesses comuns, somar, não dividir. O grande mal do catastrofismo é sua atitude de sabichão, quando não endeusada: eles, exagerados, os santos; nós, sensatos, os demônios.

Carlos Nobre acaba de ser convidado pelo papa Leão 14 para ser conselheiro do Vaticano. Diz a Bíblia, em Provérbios 9:10, que “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria; conhecer o Santo é ter entendimento”.

Deus o ilumine. E nos proteja.

Foto: via Instagram
Xico Graziano é engenheiro agrônomo e doutor em administração.
Artigo publicado originalmente no Poder360 e gentilmente cedido à SNA pelo autor.
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