
Negociações ocorrem há quase 20 anos
Na esteira da visita à Índia, conforme cobriu o Portal SNA, a comitiva presidencial brasileira esteve na Coreia do Sul, no final de fevereiro. Lá, importantes acordos de cooperação técnica e científica foram celebrados, bem como ampliação de parcerias comerciais nos segmentos de carne suína e frutas, entre outros. Já a carne bovina tenta avançar sobre o rígido mercado sul-coreano, conhecido por seu elevado padrão de exigência sanitária e demanda por cortes nobres. Nesse contexto, a delegação obteve boas notícias, que podem representar o começo de uma abertura.
Isso porque, segundo o Ministro Carlos Fávaro, a Coreia informou que fará auditoria nas plantas frigoríficas brasileiras para verificar se o país atende aos requisitos sanitários e de qualidade necessários para finalizar a negociação. A expectativa é positiva, uma vez que o Brasil é o principal exportador da proteína bovina no mundo e já exporta para mercados com altas exigências regulatórias, como o da China. “Cumprimos todos os protocolos e o presidente Lee Jae Myung garantiu de forma expedita que vai fazer auditoria nas plantas frigoríficas brasileiras”, disse Fávaro.
Após duas décadas de tratativas, o Brasil alcançou um marco sanitário decisivo ao obter o status de país livre de febre aftosa sem vacinação em 2025, outorgado pela Organização Mundial da Saúde Animal. Essa chancela é considerada o passaporte necessário para acessar nações que compõem o chamado mercado premium, conhecidas pelo alto nível de exigência e pelo valor agregado em seus cortes.
O cronograma de abertura de mercado prevê etapas rigorosas de auditoria. Técnicos do governo da Coreia do Sul devem realizar visitas presenciais a fazendas e unidades frigoríficas no Brasil. O objetivo é validar toda a cadeia produtiva, desde o manejo no campo até os protocolos de abate e processamento. A profissionalização das plantas industriais brasileiras é vista como um diferencial competitivo. Atualmente, o país opera com padrões de excelência que atendem às legislações mais severas do mundo. Durante as inspeções, os técnicos estrangeiros avaliam a rastreabilidade do gado e as condições de higiene, garantindo que o produto final entregue ao consumidor sul-coreano mantenha a integridade esperada de um fornecedor de grande porte.
Seul busca diversificar fornecedores
A negociação com Seul também revela as nuances políticas do comércio exterior. Existe uma contradição observada no fluxo comercial sul-coreano: o país já importa proteína animal do Uruguai, que ainda mantém o protocolo de vacinação contra a aftosa. Essa diferenciação evidencia que, além dos critérios técnicos de saúde animal, o acesso a mercados de elite envolve diplomacia e posicionamento estratégico de marca. Para o Brasil, conquistar este espaço significa elevar o patamar de sua balança comercial e reafirmar sua liderança como provedor global de alimentos com segurança e qualidade.

Presente à viagem, o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (ABIEC), Roberto Perosa, se mostrou otimista. “A Coreia é um mercado altamente importador e o Brasil há mais de duas décadas pleiteia a abertura desse acesso. Participamos de reuniões e do seminário empresarial para avançarmos nas tratativas. O processo ainda envolve auditorias e novas visitas de inspeção ao Brasil, e a expectativa é que a visita presidencial ajude a impulsionar essa etapa, para que finalmente possamos acessar o mercado coreano”, disse ele.
Além do rigor sanitário, pesou por muito tempo a pressão dos Estados Unidos pelo domínio nas exportações de carne bovina aos coreanos. Devido à queda de produção americana e aos atritos geopolíticos com o tarifaço do presidente Trump, a Coreia aos poucos aceitou agilizar tratativas com potenciais novos fornecedores, como no caso do Brasil.






