Café passa por momento delicado em virtude da conjuntura global

Setor cafeeiro enfrenta instabilidade de cotações, além de se preocupar com a Lei de Reciprocidade Econômica, cujos trâmites de aplicação o governo brasileiro já iniciou, em resposta ao tarifaço. Foto: Pixabay

Tarifaço e escassez dos principais mercados pressionam cotação

O café brasileiro enfrenta fase difícil. Uma das principais commodities afetadas pelo tarifaço americano, como o Portal SNA mostrou desde o começo, o produto já vinha tendo sua cotação pressionada pela conjuntura do mercado internacional e puxava a inflação de gêneros alimentícios no país antes mesmo da taxação anunciada pelos Estados Unidos. Contratos fechados com países asiáticos e europeus nesse ínterim já refletem o efeito adverso: na Intercontinental Exchange (ICE), o contrato para dezembro saiu de US$ 287,55 por saca em 31 de julho para US$ 378,30 por saca na sexta-feira (22/8), uma alta no mês de 31,6%.

De acordo com o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé), os americanos pararam de comprar do Brasil e passaram a buscar grãos de outras origens. Mas, devido à oferta global escassa, os preços voltaram a subir mesmo no fim da colheita brasileira do arábica. Isso gerou uma onda de incertezas e vários mercados asiáticos e europeus anteciparam suas compras. Outros fatores também contribuem, como a perda de mais de 400 mil sacas de arábica na região do cerrado mineiro, atingido por forte geada entre os dias 10 e 11 de agosto, conforme divulgado pela  Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado (Expocacer).

Assim, o preço continua a subir, e o mercado segue apreensivo, sem saber quando haverá um alívio nas cotações que permita negociar com mais serenidade. Com o nervosismo dos compradores, apesar do cenário adverso, as vendas se recuperaram depois de decorrido certo tempo do anúncio da alíquota de 50%. Segundo dados da balança comercial divulgados pelo governo, nas três primeiras semanas de agosto os embarques de café verde cresceram 14% em comparação com o mesmo período do ano passado. Em julho, segundo o Cecafé, as exportações haviam recuado 27,6%, para 2,73 milhões de sacas. Em receita, houve aumento de 10,4%, para US$ 1,03 bilhão.

Mas esses resultados não diminuem a preocupação dos cafeicultores, que ainda buscam uma inclusão na lista de exceções do tarifaço, como ocorreu com o suco de laranja. Para isso, contam com a ajuda do próprio mercado americano, já que os importadores se viram sem opções razoáveis para substituir o grão brasileiro. Cabe lembrar que Trump impôs tarifas de 20% ao Vietnã e 10% à Colômbia, que são produtores de peso. Assim, os consumidores dos Estados Unidos também são afetados, embora seja difícil dizer até que ponto isso influenciará as decisões da Casa Branca.

Entidades pregam cautela antes de eventual retaliação

Todo esse panorama faz os representantes do setor pregarem cautela antes de uma possível retaliação por parte do governo brasileiro, caso as tratativas não avancem. Isso porque, no fim de agosto, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) confirmou que recebeu um pedido formal do Ministério das Relações Exteriores para iniciar o processo de aplicação de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos.

Segundo nota divulgada pela Camex, o pedido foi encaminhado ao Comitê-Executivo de Gestão (Gecex), responsável por avaliar se o caso se enquadra nas condições previstas pela recém-aprovada Lei de Reciprocidade Econômica. Caso o processo seja admitido, o Gecex poderá instituir um Grupo de Trabalho para elaborar uma proposta de ações retaliatórias, que será submetida à consulta pública antes de ser encaminhada Conselho Estratégico da Camex (CEC) para deliberação final.

Com isso em mente, os cafeicultores buscam nova rodada de negociação com órgãos americanos. Na próxima semana, exportadores brasileiros discutirão a tarifa de 50% sobre seus produtos nos Estados Unidos. A agenda inclui encontros com escritórios de advocacia, National Coffee Association (NCA), representantes da indústria cafeeira, Departamento de Estado, e evento da Câmara de Comércio Brasil-EUA, na Embaixada do Brasil em Washington. Por isso, pensar na Lei de Reciprocidade Econômica pode atrapalhar esses esforços.

A repercussão do tarifaço esteve entre os assuntos debatidos na 4ª Reunião  do Comitê Conjunto da Organização Internacional do Café (OIC) , realizada em agosto. O Brasil marcou presença de forma ativa por meio da Rebraslon (Representação Permanente junto aos Organismos Internacionais em Londres), representada competentemente pelo embaixador José Augusto Silveira de Andrade, por Antônio Carlos Galvão França e por Fernanda Medeiros. Também participou o Conselho Nacional do Café,  na pessoa de seu presidente Silas Brasileiro,  membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.

O Brasil tem se posicionado de forma propositiva, apresentando sugestões e colaborando para a construção de soluções que garantam maior eficiência e representatividade às ações da OIC”, destacou Silas, com sua habitual serenidade e visão estratégica.

Além das fontes já destacadas no texto, contribuíram com informações o Ministério da Agricultura e da Fazenda. Agradecimento: Alexandre Costa (CNC).
Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br
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