Cacau também é segmento muito impactado por taxação americana

Setor cacaueiro teme forte abalo, em função do tarifaço imposto pelo governo americano, pois processamento é fundamental na cadeia produtiva. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

 Processamento é fundamental na cadeia produtiva cacaueira

O Portal SNA já abordou anteriormente como a crise da vassoura de bruxa, entre as décadas de 80 e 90 do século passado, redesenhou a indústria cacaueira no Brasil. O fungo fez o país perder em competitividade para mercados africanos e asiáticos, numa crise que obrigou produtores a reinventar suas cadeias produtivas, mesmo com a praga sob controle. Agora, o setor teme um novo e forte abalo, em função do tarifaço imposto pelo governo americano, que vem provocando um efeito cascata na agropecuária nacional. Autoridades e órgãos de representação seguem mobilizados em tratativas e o governo anunciou na semana passada um pacote de auxílio aos mais afetados.

O setor do cacau se preocupa porque sua estrutura produtiva depende da moagem das amêndoas, cujo subproduto principal é a manteiga de cacau, derivado fortemente demandado pelo mercado americano, que concentra praticamente 100% das exportações brasileiras do item. Segundo cálculos preliminares dos produtores, a indústria de processamento de cacau deve amargar perdas de aproximadamente R$ 180 milhões com a medida imposta pelo presidente dos Estados Unidos. É uma indústria que gera empregos, entre diretos e indiretos, a cerca de 200 mil pessoas.

A Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) é uma das entidades que estimam o prejuízo e analisam o que pode acontecer se a alíquota de 50% se mantiver a médio e longo prazo. Em entrevista ao jornal paranaense Gazeta do Povo, a presidente – executiva da AIPC, Ana Paula Losi, disse que com o novo cenário tarifário, o mercado americano, segundo principal destino dos derivados brasileiros e responsável por 18% das exportações do setor, torna-se economicamente inviável.

Isso porque, segundo Ana Paula, a cada três toneladas de amêndoa de cacau, é obtida uma tonelada de manteiga. A demanda interna pelo subproduto corresponde a cerca de 80% da produção, enquanto o restante é praticamente todo destinado aos Estados Unidos. “Com a perda do mercado americano, ao invés de pensar em aumentar a moagem, temos que começar a avaliar a redução”, afirma a presidente-executiva da AIPC. Em 2024, as exportações de derivados de cacau para os Estados Unidos somaram US$ 72,7 milhões (cerca de R$ 363 milhões). Somente no primeiro semestre de 2025, os embarques já alcançaram US$ 64,8 milhões (R$ 325 milhões), mais de 25% do total exportado no período pelo setor.

A indústria brasileira processa cerca de 250 mil toneladas de cacau por ano, enquanto a produção anual varia entre 180 mil e 200 mil toneladas do fruto. Essa diferença é resolvida com a importação da amêndoa sob o regime de drawback. Nessa modalidade, o produto pode ser importado com isenção tributária, desde que utilizado como insumo para a produção de derivados, com maior valor agregado, destinados à exportação. Uma redução no processamento para evitar o excesso de manteiga, no entanto, levaria a uma diminuição na produção do pó de cacau, muito demandado pelo mercado interno. Como consequência, o Brasil pode precisar aumentar as importações do pó.

Com a perda do mercado americano, o dilema se aprofunda, dificultando inclusive o cumprimento de diversos atos concessórios no regime de drawback, com vencimentos entre dezembro de 2025 e março de 2027, gerando insegurança jurídica, risco de multas e aumento expressivo nos custos operacionais. Como o drawback foi flexibilizado no pacote de auxílio anunciado pelo governo, o setor ganhou certo fôlego, mas ainda há muita preocupação com o futuro das atividades.

Fica difícil também redirecionar as exportações, pois os mercados cacaueiros da África e Ásia possuem algumas isenções tarifárias na União Europeia, por exemplo, como no caso da manteiga de cacau. A brasileira paga 8% de alíquota ao entrar no bloco, e o continente europeu é o maior produtor de processados no segmento. Ao contrário do café, o volume produzido em terras nacionais pode ser facilmente obtido por americanos em outros lugares. O momento, portanto, é de apreensão.

Outros setores se movimentam e governo segue confiante

Enquanto isso, o setor produtivo de mel indicou ao governo federal que a base da cadeia, em especial os cerca de 500 mil pequenos apicultores do país, precisam de uma série de medidas para tentar neutralizar os efeitos do tarifaço dos Estados Unidos. Os produtores querem melhorias no acesso às compras governamentais e sugeriram que parte das 50 mil toneladas que deixarão de ser vendidas aos americanos possa virar estoque público.

Os criadores de abelhas também pediram apoio do governo para incentivar o consumo de mel no país, limitado a 65 gramas por pessoa por ano, com divulgação e campanhas publicitárias nas redes oficiais de médio e longo prazo. Com pouco mercado interno, 80% da produção nacional, que está próxima de 90 mil toneladas anuais, precisam ser exportadas. Mais da metade dos embarques vão para os EUA, que incluíram o produto na lista da sobretaxa de 50%. As informações são Confederação Brasileira de Apicultura (CBA).

O Ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou na última sexta – feira 15 de agosto que segue confiante na retirada das tarifas dos Estados Unidos sobre a carne bovina, o café e os pescados do Brasil. Ele ressaltou que o país continua aberto ao diálogo para negociar com os americanos. “Ainda acredito que vamos tirar carne, café e pescados dessa lista de tarifa de 50%, como já aconteceu com a madeira e o suco de laranja. Independentemente disso, é determinação do presidente Lula buscar novos mercados”, afirmou a jornalistas após um evento.

Na mesma ocasião, ele afirmou que o Japão deverá abrir formalmente seu mercado para a carne bovina brasileira ainda em 2025, após acerto na visita da comitiva presidencial em março, como mostrou o Portal SNA. Segundo ele, as negociações estão avançadas e há expectativa de anúncio do aval japonês em novembro ou dezembro deste ano. Fávaro disse ainda que a possível abertura ajudará o setor pecuário brasileiro a superar a perda do mercado americano.

Secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua,. Foto: Carlos Silva/MAPA

Nesta semana, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, esteve no Japão e se reuniu com autoridades locais para tratar do assunto. As negociações duram mais de 20 anos. A expectativa é que os japoneses autorizem embarques de carne bovina dos três Estados da região Sul, que obtiveram o reconhecimento de zonas livres de febre aftosa sem vacinação antes do restante do país. Em maio deste ano, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) estendeu o status a todas as unidades da federação.

O ministro disse ainda que o Vietnã, que abriu seu mercado em março para a carne bovina brasileira, vai habilitar 20 frigoríficas em breve, além de possíveis novas habilitações para Indonésia e Filipinas, que deu aval para as exportações de carne com osso e miúdos bovinos recentemente. O Portal SNA mostrou recentemente o andamento das tratativas nesses países, das quais a Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) participou ativamente.

Por Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br
Com informações da Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau, Ministério da Agricultura e Confederação Brasileira de Apicultura.
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