
A dimensão e o lugar geopolítico do Brasil estão cada vez mais determinados pelo agronegócio. A crise político-militar entre Irã e Estados Unidos pode afetar a agropecuária brasileira e o Brasil, principalmente através de eventuais novas tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, por impactos nas exportações para o Irã e pelo aumento dos custos de insumos, como energia e fertilizantes.
O agronegócio nacional atende hoje, de forma competitiva, a demanda interna do Brasil e a mundial com grãos e proteínas. O mundo espera e cobra mais alimentos do Brasil. O país deveria se comportar e se apresentar como um fornecedor internacional confiável de alimentos, fibras e energia, com qualidade e preços competitivos. Segundo maior exportador de produtos agrícolas, após os Estados Unidos, o Brasil deveria manter um perfil internacional “baixo”. Uma nação aberta a negociar com todos os países interessados, sem se mesclar em temas políticos internacionais conflitivos, muito acima de sua dimensão econômica e de dissuasão militar.
Não cabe ao Brasil propor a substituição o dólar por outra moeda nas trocas internacionais e expressar delírios de grandeza terceiro-mundista, sem base na realidade. Exemplo dos severos limites políticos internacionais do Brasil e de sua débil influência global foi demonstrado recentemente na COP 30, em Belém.Nenhum chefe de estado dos BRICS (13 países) ou presidente do Mercosul esteve presente no evento, salvo Lula. Não foi uma demonstração portentosa de prestígio político ou liderança global (Rev. Oeste,Ed. 299).
Alguns parecem desconhecer o fato de o Brasil estar na América do Sul e no continente americano. Dada as mudanças na política internacional e comercial dos Estados Unidos, sob a administração Donald Trump, o Irã, a Rússia e a China são exemplos da complexidade e dos riscos de determinadas relações econômicas e políticas do Brasil. Os interesses nacionais pedem, na atual situação, posicionamentos mais neutros e equilibrados. De imediato, o relacionamento econômico e político do Brasil com o Irã e a Rússia, objetos crescentes de sanções internacionais,exige mais atenção. Em breve, será o caso da China. O Congresso dos EUA acaba de aprovar uma investigação sobre as relações da China e o agro brasileiro (Seção 6705 da Lei de Inteligência de 2026).
Em abril de 2025, o ministro da Agricultura do Irã, Gholamreza Nouri Ghezeljeh, visitou o Brasil. Durante a visita e em reuniões com o ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, Carlos Fávaro, ele manifestou o interesse de seu país em instalar uma empresa de navegação iraniana no Brasil e criar uma rota marítima direta entre as duas nações.
Isso reduziria custos logísticos e agilizaria o fluxo comercial entre os dois países. A proposta facilitaria a logística e impulsionaria o comércio bilateral de quase 3 bilhões de dólares em 2025, com potencial de crescimento pelo agronegócio. Os ministros concordaram em criar um comitê agrícola bilateral e consultivo para agilizar pautas de interesse comum, ampliar o intercâmbio técnico e facilitar o comércio de produtos agropecuários.
O ano passado, o Brasil exportou 2,9 bilhões de dólares para o Irã. Foi o 31° destino das exportações brasileiras no mundo e o 5° destino no Oriente Médio, após Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Arábia Saudita. Em 2025, o Brasil importou em produtos do Irã cerca de 85 milhões de dólares. Pouca coisa. Desse montante, 79% foram gastos com a importação de ureia, um fertilizante relevante na agricultura, sobretudo na cultura do milho. O resto foram aquisições de alimentos “natalinos”: uvas passas, nozes, castanhas, pistache e outras frutas. Caviar ainda é uma promessa.
Milho e soja representaram, em 2025, 87% do total exportado ao Irã: 68% foram as exportações de milho, mais de 7 milhões de toneladas ou 1,9 bilhão de dólares. O Irã é o segundo comprador de milho brasileiro, depois da China, e representa mais de20% dessas exportações. Após o milho está a soja, com cerca de 563 milhões de dólares (19% dessas exportações). O agro brasileiro também exporta ao Irã açúcar, carne bovina e outros itens. As exportações para o Irã são superiores as realizadas para a Rússia, África do Sul e Suíça.
Neste momento de conflito e desordem no Irã, as exportações de milho estão temporariamente suspensas. Há dificuldades de comunicação e para obtenção de cartas de crédito. O elemento mais perturbador foi a afirmação recente do presidente Donald Trump, segundo a qual: “A partir de hoje, qualquer país que fizer negócios com a República Islâmica do Irã pagará uma tarifa de 25% sobre todos os negócios que realizar com os Estados Unidos da América. Esta ordem é final e definitiva.”
Para ter-se uma comparação, em 2025, o Brasil exportou um recorde histórico de 349 bilhões de dólares. Desse total, cerca de 34 bilhões foram para os Estados Unidos, um valor 6% inferior a 2024, devido a questão das tarifas impostas ao Brasil pelo presidente Donald Trump. Os Estados Unidos representam o destino de mais de 10% das exportações brasileiras, enquanto o Irã menos de 1% (0,8%). Eles são a terceira maior origem de importações brasileiras, atrás da União Europeia e da China. E entre os principais itens importados estão bens de capital.
O documento oficial, detalhando a ordem executiva presidencial norte-americana, ainda não foi apresentado. Qual seria o alcance dessa determinação norte-americana sobre as exportações chinesas e europeias para os EUA? Enorme. E para o Brasil? Uma suspensão de toda relação econômica com o Irã afetaria direta e principalmente o setor agropecuário.
Mais de 90% das exportações brasileiras para o Irã são do setor agropecuário e cerca de 17% da ureia importada pelo Brasil vem do Irã. A escalada do conflito no Oriente Médio pode interromper a cadeia de suprimentos, aumentar o preço do barril de petróleo, elevar os custos do frete marítimo e dos insumos agrícolas no Brasil.
Mesmo se as sanções atuais dos Estados Unidos não incluírem alimentos, o financiamento e a logística das operações com o Irã serão afetados. Em um incidente anterior, navios iranianos ficaram retidos em portos brasileiros por falta de combustível, devido ao medo de sanções secundárias por parte das empresas fornecedoras. Novas tensões podem gerar incertezas logísticas e de pagamento, dificultando o comércio com o Irã.
A imposição de tarifas adicionais de 25% às exportações brasileiras para os Estados Unidos teria um forte impacto na economia brasileira e de outros países. O caminho natural e mais sensato seria o cessamento temporário das relações comerciais com o Irã,até a solução dessa crise geopolítica.
Para o Irã, seria um desastre adicional. O país enfrenta inflação e escassez de alimentos. A nação persa é o 17º maior importador mundial de grãos.Absorve anualmente cerca de 21 milhões de toneladas entre milho, trigo, farelo de soja, soja em grão e cevada. Sua segurança alimentar depende diretamente de importações.
O outro caminho para o Brasil seria o pouco provável enfrentamento geopolítico com os norte-americanos e a manutenção de um comércio com o Irã, já inviabilizado pela crise político-militar. Por outro lado, com intervenção militar norte-americana e a possível e eminente mudança política no Irã, tudo isso poderá se resolver, rapidamente, como num Conto das Mil e uma Noites.Ou não. Não dá para vaticinar.
Como me dizia, nos idos de FHC, o pecuarista, banqueiro e ex-ministro da agricultura José Eduardo Andrade Vieira: “No Brasil, o único risco que você não corre é morrer de tédio”.Affaire à suivre.







