Caatinga: entre inovação privada e vício público. Por Evaristo de Miranda

Foto de Jaime Dantas na Unsplash
Artigo elaborado especialmente para a SNA

Dia Nacional da Caatinga

A Caatinga ainda é frequentemente tratada como sinônimo de problema. É um erro — e um erro caro. Ao longo de décadas, a pesquisa científica tem contribuído para mudar essa percepção. O Dia Nacional da Caatinga, celebrado em 28 de abril, lembra tratar-se de um bioma exclusivamente brasileiro e homenageia o agrônomo e ecólogo pernambucano João Vasconcelos Sobrinho, pioneiro em sua compreensão e defesa.

Na década de 1980, durante a criação da Embrapa Semiárido, em Petrolina, trabalhei por cinco anos com Vasconcelos Sobrinho. Já no fim da carreira, ele integrava um conselho de sábios na Embrapa, no auge de sua lucidez.

Com cerca de 11% do território nacional, a Caatinga abrange oito estados do Nordeste e o norte de Minas Gerais. É um mosaico complexo de climas, solos, vegetações e realidades socioeconômicas. São mais de mil municípios, cada qual com sua história, estrutura produtiva e desafios. Generalizações, nesse contexto, não apenas simplificam — distorcem.

A partir do fim dos anos 1970, a Embrapa estruturou uma ampla agenda voltada ao semiárido. Ao lado de nomes como Manuel Correia de Andrade e Dárdano de Andrade Lima, Vasconcelos Sobrinho apoiou meu trabalho na coordenação do Programa Nacional de Pesquisa de Avaliação dos Recursos Naturais e Socioeconômicos do Trópico Semiárido.

Foram centenas de projetos em áreas como solos, clima, biodiversidade, sistemas produtivos, irrigação, pobreza rural e estrutura agrária. Diferentemente do conhecimento acumulado anteriormente, houve transformações concretas: tecnologias foram incorporadas aos sistemas produtivos e passaram a moldar a agropecuária regional.

Na agricultura de sequeiro, essas tecnologias garantem água para famílias, rebanhos e um mínimo de produção, mesmo em anos de seca. A expansão da aposentadoria rural e de programas de transferência de renda — como Bolsa Família, Bolsa Estiagem, Seguro Defeso e Auxílio Gás — reduziu a vulnerabilidade diante das secas. As crises sociais do passado (frentes de emergência, saques, êxodo) desapareceram. Mas também criaram desafios.

Hoje, milhões de pessoas — em sua maioria pequenos produtores — dependem cada vez menos da agropecuária. Em parte dos casos, deixam de cultivar e evitam empregos temporários por receio de perder benefícios assistenciais. Consolidou-se um patamar de sobrevivência estável, sustentado por rendas extra-agrícolas. Como me disse um pequeno produtor no sertão pernambucano: –Doutor, entre o sol e a enxada na roça e a varanda de casa com o dinheiro do governo, o que o senhor prefere?

A agricultura de sequeiro perde espaço. Houve uma grande redução do pessoal ocupado na agropecuária da Caatinga, da ordem de 917 mil pessoas entre os Censos Agropecuários do IBGE de 2006 e 2017, com queda de 3% em relação à participação total no Brasil. O processo continua. As áreas cultivadas encolhem. O campo envelhece. Os jovens migram para as cidades. O próximo Censo Agropecuário confirmará essa tendência e revelará a nova complexidade social das políticas públicas assistencialistas, quando orientadas por interesses políticos e eleitorais.

O sequeiro recua e a irrigação privada avança — e rapidamente. Destaca-se a fruticultura de capital intensivo nas chapadas do Apodi e da Diamantina e no Vale do São Francisco. A pecuária bovina, caprina e ovina também passa por intensificação e ganho de escala, com avanços contínuos em manejo de pastagens, nutrição, sanidade, bem-estar animal e melhoramento genético. A inovação tecnológica é o eixo central da convivência com o semiárido.

Nesses contextos, a Caatinga deixa de ser vista apenas como território de escassez e assistencialismo. Passa a se afirmar como espaço de soluções. Produzir, conservar e viver com dignidade no semiárido não é apenas possível — já está em curso, impulsionado por empreendedores e trabalhadores resilientes.

Valorizar a Caatinga exige reconhecer sua singularidade e os avanços construídos por produtores e pesquisadores. Não se trata de negar suas limitações, mas de compreender seu potencial. Ela não é um problema a ser superado. É uma realidade a ser entendida e um patrimônio a ser desenvolvido com inteligência e trabalho. Não basta sentar-se na varanda.

No centro desse processo está o sertanejo, cuja resiliência e capacidade de adaptação continuam decisivas para o futuro do semiárido. Cada produtor constrói seu próprio caminho. Sua fibra não pode ser enfraquecida por propostas assistencialistas nem pela cultura da aversão ao trabalho.

O risco das políticas públicas atuais é conhecido há décadas. Já advertiam Luiz Gonzaga e Zé Dantas, em 1953, na canção Vozes da Seca:

“Mas doutor, uma esmola a um homem que é são

Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão.”

Evaristo de Miranda, ex-pesquisador da Embrapa por 42 anos, também é escritor, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Edição de texto e imagem para a SNA: Marcelo Sá – jornalista/editor e produtor literário (MTb13.9290) marcelosa@sna.agr.br

 

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