
A Embrapa assinou, na última segunda-feira (08), um Memorando de Entendimento (MOU) de cooperação científica e tecnológica com um consórcio formado por cinco empresas privadas, sendo três indianas e duas brasileiras, com foco na transferência e validação de tecnologias genômicas para a pecuária leiteira da Índia. O acordo, que terá validade de dez anos, envolve as companhias indianas Leads Agri Genetics, LeadsConnect Services e B.L. Kamdhenu Farms, além das brasileiras Fazenda Floresta e DNAMARK.
Segundo o embaixador da Índia no Brasil, Dinesh Bhatia, esta é a primeira iniciativa técnico-científica conjunta entre empresas dos dois países voltada ao melhoramento genético de ponta. O diplomata ressalta que o MOU é um desdobramento da parceria firmada em julho entre a Embrapa e o Conselho Indiano de Pesquisa Agrícola (ICAR).
Ampla colaboração#
Para a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, o acordo amplia uma colaboração histórica em melhoramento genético bovino e abre novas oportunidades para o uso de genômica, biotecnologia e bioinformática na pecuária de leite. “Embora o foco inicial seja a pecuária, o escopo de cooperação definido é bastante amplo”, afirma.
Já o pesquisador Marcos Vinícius G. B. Silva, da Embrapa Gado de Leite, destaca que a iniciativa permitirá levar à Índia o portfólio de tecnologias genômicas desenvolvido pela Embrapa, inicialmente aplicado às raças zebuínas. Em contrapartida, a instituição terá acesso a bancos de dados genômicos e fenotípicos de raças indianas, essenciais para aprimorar modelos de predição e acelerar ganhos genéticos.
Ações previstas#
A cooperação prevê ações em áreas como mudanças climáticas, biotecnologia, microbiomas, nanotecnologia, geotecnologia, bioeconomia, automação e agricultura digital. Os projetos específicos serão detalhados por meio de Projetos de Cooperação Científica (PCC) e Técnica (PCT), incluindo definições de recursos e propriedade intelectual.
Entre as iniciativas práticas previstas está o apoio da Embrapa à criação de um laboratório de genômica e bioinformática na Índia, replicando a metodologia aplicada no desenvolvimento do Gir Leiteiro no Brasil. O país asiático mira elevar sua produção para 330 milhões de toneladas de leite, por ano, até 2034. O acordo inclui ainda suporte para a implantação de um sistema de produção com dez mil vacas e programas de melhoramento para as raças Sindi e Sahiwal. Para o Brasil, a parceria abre portas para a exportação de sêmen e embriões e amplia a variabilidade genética do Gir Leiteiro, reduzindo riscos de endogamia.
Retorno às origens da genética zebuína#
O memorando também simboliza um retorno às origens da genética zebuína. As raças Bos indicus chegaram ao Brasil no século XIX, ajudando a formar um rebanho adaptado ao clima tropical. As importações até a década de 1960 foram decisivas para o aprimoramento das raças Gir e para a criação da Girolando, considerada um marco do melhoramento bovino. Hoje, o Brasil figura como exportador de genética bovina, e, segundo o chefe-geral da Embrapa Gado de Leite, José Luiz Bellini, o acordo reconhece internacionalmente a qualidade desse trabalho. “De importador, agora exportamos conhecimento em melhoramento para o país de origem da raça”, reforça o pesquisador Silva.
Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro#
Esse avanço só foi possível devido ao Programa Nacional de Melhoramento do Gir Leiteiro (PNMGL), criado em 1985 pela Embrapa em parceria com a ABCGIL e a ABCZ. O programa transformou a raça por meio de testes de progênie e, mais recentemente, pela incorporação da genômica, que acelerou o progresso genético e elevou a produtividade do Gir a patamares de excelência. O novo acordo com a Índia consolida o Brasil como referência global em pecuária tropical e projeta a genômica nacional como ferramenta estratégica para o desenvolvimento da pecuária leiteira mundial.
Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br#
Com informações da Embrapa Gado de Leite#






