Apicultura brasileira busca equilíbrio entre exportação e mercado interno

Para a ABEMEL, a recente decisão da Suprema Corte dos EUA deu um “fôlego” para o mel brasileiro – Foto: Canva

Nosso setor de mel é extremamente dependente do mercado norte-americano. A cada dois quilos de mel produzidos no Brasil, aproximadamente um quilo vai para os EUA. Isso é importante contextualizar, pois evidencia a dificuldade que o setor tem de acabar com a dependência daquele mercado. “Tenho falado que a solução para a questão da dependência não é única, mas sim uma soma de diversas iniciativas que precisamos adotar, como a abertura de novos mercados, em especial, o europeu, além da promoção do consumo de mel no mercado interno brasileiro”, afirmou Renato Azevedo, presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Mel (ABEMEL).

Suprema Corte dos EUA

A Suprema Corte dos EUA derrubou, em fevereiro de 2026, o “tarifaço” sobre o mel importado, medida que impunha taxas adicionais de 50% mais 8,04% de importação, barrando o uso da lei IEEPA para tais sobretaxas. A decisão beneficia diretamente os exportadores brasileiros, aliviando o setor que enfrentou uma queda de 60% nas exportações em 2025.

Para Renato Azevedo, a recente decisão da Suprema Corte dos EUA deu um “fôlego” para o mel brasileiro. “Ainda que tenhamos hoje uma taxa de 15% nas importações de mel nos EUA, essa taxa é homogênea para todos os países ‘concorrentes’, fornecedores de mel. Ainda assim, precisamos focar na abertura de novos mercados”.

Mercado europeu – Desafio regulatório

O segundo mercado consumidor de mel é a Europa, porém há um desafio regulatório. O mel que o Brasil tradicionalmente exporta é o mel orgânico, e a legislação orgânica da Europa é diferente da legislação norte-americana, em especial, no que diz respeito ao processo de quem pode se certificar; e não à característica do produto propriamente dita.

Com isso, o mel que é considerado orgânico nos EUA não é necessariamente considerado orgânico na Europa. “Portanto, temos duas saídas. A primeira é vender como mel convencional, o que faz com que tenhamos uma perda de valor de, aproximadamente, 30% no valor exportado; e a segunda é montar uma estrutura de certificação no Brasil para os critérios da Europa. Esta última opção leva tempo e é de difícil aplicação, pois os europeus exigem que quem seja certificado seja o apicultor individual, diferente dos EUA”, disse o presidente da ABEMEL.

“Como no Brasil a produção de mel é feita pela Agricultura familiar, os apicultores não têm escala de produção suficiente para bancar os custos de certificação. Então, ficamos numa ‘sinuca de bico’”, completou Renato Azevedo.

Mercados árabe e asiático

Existe também o mercado árabe e o asiático. O árabe adota os critérios de certificação dos EUA, mas não tem grande expressão. O asiático sofre grande concorrência da China, que fornece mel na região.

Mercado interno

Outra alternativa, segundo a ABEMEL, é promover o aumento do consumo no mercado interno. O brasileiro consome algo em torno de 160g/capta ao ano, isso é menos da metade de países como Alemanha e EUA. “Trabalhamos numa iniciativa para evidenciar os benefícios do consumo do mel pela população. Temos benefícios econômicos, de sustentabilidade, e de saúde”.

Também há ganhos econômicos, uma vez que a apicultura no Brasil é promovida em grande parte pela agricultura familiar. “Consumir mel significa gerar renda e trabalho de forma íntegra para as camadas mais sensíveis de nossa sociedade. É a melhor solução social possível”, reforçou Renato Azevedo, citando ainda o fator sustentabilidade, pois a polinização feita pelas abelhas na produção de mel é ecologicamente sustentável.

Conscientização e promoção do mel nacional

“Nosso desafio é trazer essa comunicação de conscientização e promover um aumento do consumo em nosso mercado. Nosso mel tem características únicas que o fazem valorizados mundo a fora e nós mesmos acabamos não o consumindo. Precisamos tentar mudar isso. Consumir mel é bom para você e é bom para o Brasil!”, enfatizou a ABEMEL.

A Associação Brasileira dos Exportadores de Mel entende “que trabalhar no desenvolvimento de novos mercados, no consumo interno, e na venda aos EUA de forma não concentrada, como ocorre hoje, faz do nosso setor mais forte. É em cima disso que estamos trabalhando”, concluiu Renato Azevedo.

Por Larissa Machado /larissamachado@sna.agr.br
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