Agro brasileiro fortalece segurança alimentar global

Em entrevista à SNA, Antonio Cabrera apresenta análise baseada em dados da FAOSTAT e amplia debate sobre a contribuição do Brasil para a segurança alimentar mundial – Foto: Larissa Machado

Uma análise elaborada por Antonio Cabrera, médico veterinário, empresário, ex-ministro da Agricultura e membro da Academia Nacional de Agricultura (ANA), estima que 3,26 bilhões de pessoas vivem em países onde produtos brasileiros representam mais de 1% da disponibilidade calórica da dieta. Em entrevista à Sociedade Nacional de Agricultura (SNA), Cabrera explicou que o levantamento, baseado em dados da Food and Agriculture Organization (FAOSTAT), busca dimensionar o alcance da produção agropecuária brasileira no sistema alimentar global.

A metodologia considera dados país a país e produto a produto. O levantamento identificou que 6,5 bilhões de pessoas vivem em países que recebem alguma contribuição de alimentos brasileiros. Quando aplicado o corte de participação superior a 1% da disponibilidade calórica, considerado mais significativo, o resultado chega a 3,26 bilhões. “São indicadores diferentes e complementares, mas mostram a musculatura do agro brasileiro”, enfatizou.

“Não significa que o Brasil alimente sozinho 3,26 bilhões de pessoas, mas que essa população vive em países onde estimamos que os produtos brasileiros respondam por mais de 1% da disponibilidade calórica”, explicou Cabrera à SNA.

Segundo o ex-ministro, o indicador permite observar uma dimensão da presença brasileira no sistema alimentar que não aparece diretamente em medidas como volume de produção ou valor das exportações. “Isso mostra o quanto o Brasil já está integrado à segurança alimentar mundial”, afirmou.

Diferentes dimensões

A análise também estabelece uma distinção em relação a estimativas anteriores. Um estudo da Embrapa calculou que, em 2020, a produção agropecuária brasileira correspondia ao equivalente à alimentação de aproximadamente 773 milhões de pessoas, considerando principalmente arroz, cevada, milho, soja e trigo, além da carne bovina exportada.

Cabrera explica que os dois levantamentos respondem a perguntas diferentes. Enquanto a estimativa da Embrapa parte do equivalente populacional da produção brasileira, seu estudo procura identificar o alcance dessa produção nos países que recebem os produtos. “A Embrapa estimou cerca de 800 milhões de pessoas a partir de um equivalente da produção brasileira. Nós perguntamos qual é o alcance efetivo dessa produção no mundo”.

Para o ex-ministro, produção, alcance geográfico, participação na disponibilidade calórica, dependência de importações e contribuição indireta por meio da alimentação animal são dimensões que devem ser analisadas separadamente.

Soja e milho

O levantamento também considera o papel indireto de produtos brasileiros utilizados na alimentação animal. No cenário intermediário, soja e milho chegaram ao equivalente a 807 milhões de pessoas em termos de produção de proteína animal.

Esse resultado, porém, não deve ser somado aos 3,26 bilhões, já que representa outra dimensão da contribuição brasileira e pode haver sobreposição entre as populações consideradas. “Eles mostram uma contribuição muitas vezes invisível. Soja e milho brasileiros viram ração e ajudam a produzir carne, leite e ovos em outros países”, frisou Cabrera.

A participação do Brasil, portanto, não se limita aos alimentos exportados diretamente para o consumo humano. A produção de grãos também está inserida em cadeias internacionais de proteína animal. “Quando o Brasil exporta soja ou milho destinados à alimentação animal, nossa agricultura não termina no grão desembarcado em outro país. Esse produto entra em cadeias de produção de frango, suínos, leite, ovos e outros alimentos”.

Aperfeiçoamento da metodologia

Cabrera avalia que a metodologia ainda pode ser aprimorada. Uma das possibilidades é testar diferentes níveis de participação, como 2%, 5% e 10%, para verificar como o número de pessoas alcançadas se modifica conforme aumenta a relevância dos produtos brasileiros na dieta.

Outra frente envolve o aperfeiçoamento da rastreabilidade de reexportações e alimentos processados, além da ampliação da análise para outros componentes nutricionais. “Podemos avançar além das calorias, medindo proteínas, nutrientes e o grau de dependência de cada país da oferta brasileira. O objetivo não é encontrar o maior número, é encontrar o número mais defensável”, afirmou.

Para o ex-ministro, a discussão sobre segurança alimentar também deve considerar a capacidade do Brasil de produzir excedentes exportáveis de forma recorrente. “Segurança alimentar não depende apenas de produzir muito em um determinado ano. Depende de escala, produtividade, estabilidade sanitária, logística, armazenagem e capacidade de entregar.”

Nesse cenário, Cabrera destaca fatores como disponibilidade de terra e água, condições climáticas, tecnologia tropical e ganhos de produtividade. “Temos terra, água, clima, tecnologia tropical, produtores altamente eficientes e possibilidade de ampliar produtividade sem depender apenas da expansão de área”, concluiu.

Por Larissa Machado / larissamachado@sna.agr.br
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