
Secas e ondas de calor expõem fragilidade estrutural do agro europeu
Na Europa, a seca e as intensas ondas de calor do verão de 2026 provocam uma grave crise agrícola. Cerca de 38% do território da União Europeia (UE) foi afetado pela seca, com muitos incêndios florestais. Culturas de verão, como milho e girassol, sofrem perdas significativas de produtividade. A seca já destruiu, sozinha, quase 9 milhões de toneladas de grãos. A pecuária de carne e leite está muito afetada pela escassez de forragem.
Alguns chamam o resultado desse fenômeno de climainflação. É a inflação provocada diretamente por eventos climáticos adversos, capazes de reduzir a oferta, elevar custos de produção e encarecer logística e alimentos. Na realidade, a intensidade do fenômeno depende da adaptação tecnológica e da resiliência dos sistemas agrícolas. Diante dos seguros, subsídios, políticas de emergência e ajudas governamentais recordes da UE, por que investir em tecnologias de mitigação? O termo climainflação convém a burocratas, governos e narrativas alarmistas para se eximirem de responsabilidades. Como na evocação do mantra do Super El Niño em terras brasileiras.
Embora as precipitações de inverno tenham sido relativamente abundantes, o calor precoce provocou o ressecamento das pastagens e reduziu a disponibilidade de água para os cultivos. A diminuição da água nos rios prejudicou a navegação e encareceu os custos logísticos na UE.
Em 50 anos, a Europa enfrentou repetidos episódios de seca, exacerbados por ondas de calor intensas, notadamente em 1976, 1989, 1990, 2003, 2015, 2018, 2019, 2020, 2022 e 2026. Episódios dessa natureza marcam os ecossistemas e a economia do continente. Não são surpresa ou exceção. Ilustram uma falta de resiliência estrutural no agro europeu.
Na seca de 1976, eu fazia meus estudos de agronomia em Lyon, na França. Recordo as perdas da fruticultura com a redução da irrigação no vale do rio Ródano. Visitei sofisticados sistemas de irrigação paralisados. Árvores perdiam folhas e frutos. Acompanhei, em cooperativas, os impactos nas pastagens, no leite, na região da Bresse e nos cereais. Crises de dessedentação de animais ocorreram. Tudo foi socorrido por ajuda governamental, sem grandes mudanças ou questões sobre a resiliência dos sistemas de produção.
As famosas pedras da fome (Hungersteine) no leito do rio Elba, na divisa entre Alemanha e República Tcheca, surgiram este ano, como em 2022. Elas contêm a inscrição “Se você me vir, chore” (Wenndumichsiehst, dannweine), datada da seca de 1616. Muitas marcas de anos de fome e crise na Europa central vêm do período de 1816 e 1817, provocado pelo “ano sem verão” decorrente da erupção do vulcão Tambora em 1815. Essa frase célebre servia como marco hidrológico de alerta severo de estiagem e escassez. Quando o nível da água baixava e expunha essas pedras, isso indicava más colheitas e fome. Hoje, fome, não. Más colheitas, sim.
Desabastecimento, alta de preços e desafios logísticos nos diversos cultivos

Na Europa ocidental haverá quebra na safra de cereais, principalmente milho e trigo. As temperaturas mais elevadas também favoreceram a proliferação de pragas e doenças. Na França, a safra de milho caminha para o seu nível mais baixo desde 1980 com uma queda estimada entre 35 e 40%. No trigo, a produção deve cair entre 10% e 20%. Na Alemanha, a Federação dos Agricultores Alemães já registra em agosto uma queda de 7% na produção dos cereais. Na Espanha, a colheita de cereais despencou, com uma redução de 35% nas regiões de Castela e Leão. A rizicultura também foi afetada. Na Itália, a bacia do rio Pó está em alerta máximo. Os arrozais da Lomellina sofrem com a irrigação restrita. As perdas já são superiores a 100 milhões de euros.
O ressecamento precoce das pastagens reduziu a disponibilidade de áreas de pasto em toda a UE e forçou os pecuaristas a utilizar prematuramente os estoques de inverno. As más colheitas de cereais e palha na Espanha, França e outras regiões elevaram os custos da alimentação animal. Na hiper subsidiada pecuária da Irlanda, diante das preocupações com o abastecimento de forragem para o inverno, o governo solicitou aos produtores o cálculo de suas necessidades para avaliar medidas complementares de ajuda. Os pecuaristas passam a comprar alimentos substitutos (milho, farelos, tortas de oleaginosas), cujos preços dispararam.
Alguns pecuaristas abatem prematuramente parte de seus rebanhos por não conseguirem alimentá-los. Isso pode saturar temporariamente o mercado de carne e estabilizar os preços internos na UE, apesar da suspensão da importação de carnes do Brasil. Em 2027, a redução geral do tamanho do rebanho europeu de bovinos levará a uma escassez de oferta e à alta dos preços de leite, manteiga, queijo e carne bovina.
Nem sempre a seca é ruim para a viticultura. Muitas vezes reduz a produção, melhora a qualidade das uvas e, consequentemente, do vinho. Affaire à suivre. Na Espanha, a federação do setor vitivinícola prevê uma queda de 20% na produção de vinho. Na Romênia e Hungria, os vinhedos e as culturas irrigadas sofrem com o estresse térmico e com as restrições no uso da água decorrentes do nível criticamente baixo do rio Danúbio.
O tempora, o mores! Na Baviera, Alemanha, as autoridades flexibilizaram as regras para propriedades de agricultura orgânica. Agora leite, laticínios, ovos e carnes seguem considerados orgânicos, mesmo com o uso de rações convencionais, devido a circunstâncias “catastróficas”. Essa possibilidade está prevista pela legislação europeia. O mesmo espírito reina na legislação europeia sobre a obrigatória generalização dos carros elétricos. Ela prevê exceções para alguns motores a explosão. Lembraram da Ferrari, Lamborghini, Bugatti, Rolls-Royce, Aston Martin, Bentley etc.
As dificuldades logísticas somam-se às perdas agrícolas. A queda do nível em rios como Reno e Danúbio paralisa o transporte de mercadorias por barcaças e prejudica o resfriamento de usinas de energia. A migração para o transporte rodoviário, combinada aos preços elevados dos combustíveis (conflitos no Oriente Médio), fez disparar os custos de frete, sobretudo para produtos pesado se de baixo valor agregado, como água engarrafada.
As tensões geopolíticas, sobretudo no Estreito de Ormuz, elevaram os preços dos fertilizantes entre 20% e 30%. Os agricultores europeus enfrentam um golpe duplo: volumes de venda reduzidos devido ao clima e custos de produção recordes. Isso pressiona duramente as suas margens e ameaça elevar os preços dos alimentos para o consumidor.
Crise evidencia dependência externa, agravada por subsídios e protecionismo

A queda na produção de cereais e oleaginosas acentua a dependência da UE em relação a importações externas, notadamente da Ucrânia ou de outros mercados globais, como do Brasil. Segue a pressão de alta sobre os índices globais de preços de commodities. Isso interessa o agro brasileiro.
As ondas de calor e a escassez de água reduziram as colheitas. Isso gerou um choque significativo na oferta. Produtos frescos (frutas, legumes de verão, verduras) e batatas sofreram uma alta de preços rápida. As perdas nas lavouras reduziram a oferta nas gôndolas. Para produtos processados (pães, massas, óleos, açúcar), o impacto maior será no primeiro semestre de 2027.
O índice global de preços de alimentos da FAO atingiu seu nível mais alto em três anos e meio. O trigo registra alta de quase 10% em um ano. O milho subiu mais de 23%. Isso deve induzir altas nos preços do pão, das massas e da ração animal. O açúcar teve altas impulsionadas pelo receio de rendimentos baixos nas culturas de beterraba-sacarina na UE.
O impacto da seca do verão de 2026 na inflação dos preços dos alimentos na Europa recebe, até como desculpa, face a baixa resiliência dos sistemas de produção, o título de climainflação. A inflação dos alimentos não afeta os países europeus com a mesma intensidade. Varia conforme sua dependência de importações e o peso dos alimentos no orçamento das famílias.
Na Europa Ocidental (França, Alemanha), a inflação permanece moderada (de 2,4% a 2,8%, segundo o Eurostat). A seca histórica enfrentada pelos agricultores prepara o terreno para um outono tenso nos supermercados. A Europa Oriental e Meridional (Romênia, Bulgária, Estados Bálticos) registra a maior inflação de alimentos da UE: 8,2% na Romênia e 4,4% na Bulgária. Como a parcela do orçamento destinada à alimentação é maior nessas áreas, essas populações sofrem uma perda acentuada do poder de compra.
Cenário traz oportunidade para o Brasil nas tratativas comerciais com o bloco

A agricultura europeia reúne um conjunto complexo de tecnologias modernas, tradicionais e sofisticados sistemas de produção. Os subsídios e o protecionismo trabalham contra a inovação e a competitividade. Até 2030, a previsão é uma redução em mais um quarto das propriedades rurais francesas, dada a aposentadoria de produtores, sem sucessão. O envelhecimento da população rural continua: 78,5% dos produtores têm mais de 50 anos. Em cada três aposentadorias, apenas duas têm sucessão. Projeção para 2050: menos de 200.000 agricultores na França (Rev.Oeste, Ed. 303).
Há mais de meio século, a agricultura francesa evoluiu sob a influência da Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia, criada em 1962 para dinamizar o setor e sua industrialização. O valor da PAC cresce e provoca distorções adicionais de mercado, com taxas às importações, garantias de preços mínimos e remuneração aos agricultores. A outra face dessa moeda são a burocracia e o dédalo de regras impostas por Bruxelas. Não surpreende a permanência da vulnerabilidade à repetição desses eventos climáticos.
A Europa sofre porque seus sistemas produtivos, econômicos e regulatórios não conseguem transformar tecnologia e subsídios em resiliência suficiente. A crise provocada pela seca expõe essa vulnerabilidade. Abre a oportunidade para um melhor ajuste das exportações do agro brasileiro.
Ela não está apenas na soja. Milho, açúcar, frutas, sucos, celulose e até carnes podem ganhar espaço. A Europa precisa de fornecedores capazes de responder à instabilidade climática, apesar de suas medidas protecionistas contra uma parte do agro brasileiro, malgré o Acordo União Europeia – Mercosul. O Brasil dispõe de escala, diversidade produtiva, tecnologia tropical e capacidade exportadora. Falta transformar essa vantagem comparativa em estratégia comercial.
A crescente fragilidade agrícola europeia cria demanda externa, valorização de commodities e espaço para o Brasil ampliar sua participação como fornecedor confiável de alimentos, fibras e energia. Quem pensa nisso?







