A AMAZÔNIA PASSA FOME. Por Evaristo de Miranda

Imagem: Freepik

Em 11 de julho de 1980, matéria da Agência Estado repercutiu evento da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e anunciou: em 2010, a Amazônia será uma imensidão de areia. Quase meio século após a profecia, como em outros vaticínios ambientalóides, nada ocorreu. Ainda bem. Não se pode comer areia.Três coisas na Amazônia estão em pleno crescimento:a falta de alimentos, as doençase a pobreza. Areais não. Sua combalida agricultura, criminalizada e sem regularização fundiária, não produz alimentos suficientes para atender a população. Na última década, políticas ambientalistas contra o mundo rural e a agropecuária agravaram a situação.

Cada vez mais, suprimentos de alimentos, sobretudo do Sul, Sudeste e Centro-Oeste abastecem a região: feijão e arroz, verduras e frutas, ovos e frangos, leiteelaticínios. Tudo a preço elevado, dada a dificuldade de transportaraté lá e o custo de distribuir alimentos naquela imensa região, sem infraestrutura viária ou portuária adequada. O povoda Amazônia paga no preço alto um “imposto” adicional injusto e de natureza “ambiental”. Quem não pode pagar, a maioria da população, come mal e passa fome.

Estudo da Embrapa Territorial, em fase de conclusão, expõe a gravidade da insegurança alimentar  municípios do bioma Amazônia. A pesquisa consideroua dimensão e a repartição territorial da produção local de alimentos básicos como arroz, feijão, mandioca, bananae de outros produtos, segundo dados anuais da pesquisa Produção Agrícola MunicipaldoIBGE. E permite comparar o bioma Amazônia com o resto do país.

Arroz. A produção anual média de arroz no Brasil entre 2021 e 2023 foi de cerca de 11 milhões de toneladas: uma disponibilidade de 51kg por habitante/ano. Nobioma Amazônia, no mesmo período, a produção média foi de 663.000 toneladas (6% da nacional) ou 22,1kg por habitante/ano. Menos da metade da disponibilidade nacional. E está no norte do Mato Grosso, 45% dessa produção. No Pará, anfitrião da COP30, a produçãoé pífia: 13,5kg de arroz por habitante/ano, cerca de um quilo/mês.O arroz, para quem pode pagar, vem de fora da Amazônia.

Feijão. A média anual de produção de feijão no Brasil (2021 e 2023) foi de cerca de 2,9 milhões de toneladas:10kg por habitante/ano ou 290g/dia. Na Amazônia, a produção foi de 195.000 toneladas (6,8% da nacional) ou 6,5 kg por habitante/ano ou0,5 kg/mês. Uma colher de sopa de feijão por dia. E 80% dessa produção também está no norte do Mato Grosso, em sistemas intensivos.O Pará produz 2,4 kg por habitante/ano ou 6 g por dia. O feijão, para quem pode pagar, como o arroz, vem de fora da Amazônia.

Mandioca. A produção anual média de mandioca no Brasil, entre 2021 e 2023, foi de 18,2 milhões de toneladas de raízes. Na Amazônia foram 6,3 milhões de toneladas (34% da produção nacional) ou 210 kg por habitante/ano. A disponibilidade de farinha de mandioca para consumo (1kg de raiz = 350g de farinha) é de 60kg por habitante/ano. O Pará concentra cerca de 64% da produção amazônica.

Banana. A produção anual média de banana no Brasil, entre 2021 e 2023, foi de cerca de 6,9 milhões de toneladas. Na Amazônia, ela foi de 915.000 toneladas (13,4% da nacional), 30kg por habitante/ano ou dois cachos para cada amazônida. Dá para produzir num fundo de quintal. O Pará concentra cerca de 51% da produção. A região importa bananas até de São Paulo.

O total da produção anual de arroz, feijão e mandioca na Amazônia é de 89 kg/habitante. Com a banana chega-se a 118 kg. O mínimo para atender às necessidades calóricas básicas de uma pessoa seria de 250 kgpor ano. A Amazônia importa arroz, feijão, frutas, legumes, hortaliças,ovos, frangos e laticínios do resto do Brasil.Poderiam ser produzidos na região,a preços reduzidos, se a agricultura não fosse tratada como delito e perseguida.

O Valor da Produção Agrícola (VPA) do bioma Amazônia é da ordem 15% do nacional. Soja, milho e algodão(commodities) compõem80% do VPA, concentrados no norte do Mato Grosso. Juntos, todos os outros produtos amazônicos (dendê, açaí, pimenta do reino, café, cacau, arroz, maracujá, castanhas, frutas, mandioca…) alcançam apenas 20% do VPA regional.

O total cultivado na Amazônia é de cerca de 9,7 milhões de hectares na primeira safra(e 3,3 milhões na segunda safra), ou 2,4% do bioma e 1,2% do Brasil. A concentração territorial do valor da produção está associada à agricultura moderna: 65% do VPA do bioma provém de municípios do norte do Mato Grosso. Os mapas da repartição do milho, da soja edo algodão, commodities,ilustram essa realidade da concentração territorial.

 

 

 

Produtos comodendê, açaí, cacau, pimenta-do-reino, mandioca, café, banana,abacaxi, arroz, feijão, castanhas e outrosocupam 14% da área cultivada. A produção está concentrada em poucos locais, com pouca viabilidade no conjunto dos municípios da região amazônica.

Os mapas gerados pela Embrapa Territorial ilustram a concentração da produção: dendê (5 municípios reúnem 75% da produção);açaí (5 municípios reúnem 50% da produção);pimenta-do-reino (99,5% da produção no Pará em 17 municípios) e abacaxi (7 municípios reúnem 75% da produção).

 

 

A Amazônia importa alimentos a preços elevados e a maioria da população não tem como pagar. Resultado: o Amazonas tem mais de metade de sua população vivendo em situação de insegurança alimentar.Cerca de40% dos domicílios da Amazônia passam por insegurança alimentar. A média no Brasil é inferior a 28%.As 10 cidades com a pior qualidade de vida do país estão todas na Amazônia, sendo sete no Paráda COP30: Jacareacanga; Bannach; Trairão; Pacajá; Portel; Cumaru do Norte e Uruará. Para isso não há engajamento das ongs ou de seus nomeados no Governo.

Baixa renda, condições penosas de trabalho, violência, exposição intensa e recorrente a agentes infecciosos, falta de acesso à habitação de qualidade e saneamento, acesso limitado a cuidados médicos e hospitalares estão na origem dos graves problemas de saúde das populações amazônicas.A Amazônia concentra 58% das cidades com os piores índices de saneamento básico do país. Pará, Rondônia e Amapá têm índices de coleta de esgoto extremamente baixos. Santarém apresenta a pior situação do país, seguida por Belém e Ananindeua, sempre no Pará. A situação é crítica nas capitais.

Miséria, ausência de desenvolvimento e falta de perspectivas, sobretudo para os jovens, contribuem ao aumento da criminalidade e são motores de ilegalidades. Pobreza e atraso são a causa de queimadas edesmatamentose não o resultado, como sofismam ambientalistas (Revista Oeste, Ed. 194). Não é o desmatamento quem leva à pobreza e sim o contrário. Cresce o crime organizado. Amapá, o estado mais florestal e preservado, se tornou o mais violento do Brasil, com 45,1 assassinatos por 100.000 habitantes.

A COP 30 segue esvaziada de nações participantes e recursos financeiros,sobretudo com a saída dos EUA do Acordo de Paris (Revista Oeste, Ed. 263). Parte da liderança do agronegócio nacional, alheia ao drama dos agricultores e à insegurança alimentar crescente da população amazônica, tentará mostrar sua sustentabilidade e contribuição à transição energética, praticada em terras distantes da Amazônia, na feira paralela da COP 30. Arriscarão passos de carimbó para cativar a plateia? Usarão cocares?

Não háuma instancia supraministerial para cuidar da Amazônia, nem um diagnóstico adequado ouplano estratégico de curto, médio e longo prazo. O mundo e o país não sabem qual o projeto nacional para a Amazônia. Não há insinuaçãode qualquer perspectiva para o futuro, enquanto vigora a violência do eugenismo ambientalista contra a agropecuária e os produtores rurais (Revista Oeste, Ed, 277).A isso não faltam recursos. A Amazônia serve para convescotes de chefes de estado eé mina de ouro para ambientalistas e ongs, nutridas governamentalmente pelo Fundo Amazônia.

No planejamento da COP 30, qual lugar ou destaque foi dado pelos organizadores à segurança alimentar e ao bem-estar da população da Amazônia? Um manto de invisibilidade midiáticae política tentará recobrir a Amazônia real e as razões dos piores indicadores nacionais de saúde, saneamento, educação, regularização fundiária e da expansão docrime organizado. Uma população sem alimentos, desnutrida e abandonada.

Quanto ao futuro, haveria algo a esperar do evento da ONU? Como dizia o Barão de Itararé: De onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo.

Evaristo de Miranda é pesquisador, escritor, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Artigo publicado originalmente na revista Oeste e gentilmente cedido à SNA pelo autor.

 

 

 

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