22 ABRIL: NAVEGAR É PRECISO. Por Evaristo de Miranda

A fonte da imagem, de domínio público, é: https://ncultura.pt

A máxima “Navegar é preciso, viver não é preciso” está associada às descobertas lusitanas, por mares nunca dantes navegados. No entardecer de 22 de abril de 1500, a esquadra portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil. Os povos daqui não tinham metais, não inventaram a roda (aliás, nenhuma cultura nas Américas) e não possuíam escrita. A data deve ser lembrada e comemorada. Ali se encerrou a proto-história e começou a História escrita do Brasil.

Os três principais testemunhos diretos da chegada da frota ao Brasil são: a Carta de Pero Vaz de Caminha, a mais famosa, escrita em 1º de maio de 1500, como uma certidão de batismo do Brasil; a Carta do Mestre João Faras, físico e cirurgião da frota, com observações astronômicas (desenhou o Cruzeiro do Sul e calculou a localização geográfica da nova terra) e a Relação do Piloto Anônimo, com observações complementares, como uma descrição do peixe-boi.

Gaspar de Lemos levou a notícia oficial a Portugal: cartas, relatos e amostras. Nesse retorno reconheceu a costa brasileira da Bahia ao Rio Grande do Norte. Voltou ao Brasil na expedição cartográfica comandada por André Gonçalves. Na expedição de 1501, vieram diretamente ao Rio Grande do Norte e fincaram o primeiro marco na praia do Marco, pour cause, em 7 de agosto de 1501, símbolo da posse de Portugal. Esse marco de pedra lioz contém os símbolos da Ordem de Cristo e da Coroa Portuguesa e é o monumento português mais antigo do Brasil.

Navegar é preciso, viver não é preciso. A frase não foi inventada por Caetano Veloso ou Fernando Pessoa. Plutarco atribuiu esse adágio ao general romano Pompeu. No século I a.C., durante forte tempestade no Mediterrâneo, Pompeu dirigiu o “navigare necesse est, vivere non necesse” a seus temerosos marinheiros, face à arriscada travessia para trazer alimentos da África para Roma sitiada. O aforismo de Pompeu tomou outro sentido com as navegações ultramarinas portuguesas.

Nos regimentos das naus, ele evocava o início da navegação de precisão. Com o aperfeiçoamento de bússolas, astrolábios e instrumentos náuticos; da cosmografia, cartografia, matemática e técnicas de navegação (medidas de velocidade), a ciência náutica portuguesa ganhou precisão no século XVI. Navegar tornou-se preciso, no sentido de exatidão.

No caminho das Índias, os navegantes lusitanos podiam ficar cerca de três meses em pleno oceano sem ver terra alguma. Só água. Sabiam para onde se dirigiam e razoavelmente onde estavam, graças ao desenvolvimento da cosmografia. O posto de Cosmógrafo-mor era o mais alto cargo e o de maior remuneração na função pública do Reino de Portugal no século XVI. Navegavam com uma boa precisão, graças aos instrumentos e às ciências náuticas. Com alguma imprecisão e desejo de conhecimento, seguiram outros sinais e descobriram o Brasil em 22 de abril de 1500.

A segunda parte do aforismo de Pompeu é real. O viver dos homens nunca foi preciso. Para os tripulantes das caravelas, navegar era preciso. Viver não: ataques, doenças, naufrágios e fados. Em Calicute, Pero Vaz de Caminha e cinco dos oito religiosos destinados às missões do Oriente foram assassinados por comerciantes árabes, além de outros tripulantes. Dos 1.500 homens da expedição, apenas 500 retornaram vivos e sãos a Lisboa.

Da navegação de precisão à agricultura de precisão foi um longo trajeto. O mundo digital e suas transformações fazem parte do cotidiano, da produção e dos negócios na agricultura. O mundo rural brasileiro é cada vez mais digital, georreferenciado, conectado e preciso. Drones e geotecnologias inovaram a implantação, análise e gestão das lavouras.

Há quatro décadas, a informática entrou nas fazendas pelos escritórios. Da gestão contábil e financeira chegaram à parte técnica e operacional. Agora estão nas máquinas, nos campos e nos estábulos. Na produção de mangas em Petrolina (PE), cada árvore tem seu código de barras. Há um chip ou brinco eletrônico em cada animal de muitos rebanhos bovinos pelo Brasil.

O agro do Brasil é o principal mercado de drones da América do Sul, com faturamento anual estimado de centenas de milhões de dólares. O número de drones registrados já supera a marca de 100 mil equipamentos. Cada vez mais, a produção agrícola tem precisão centimétrica no Brasil.

A qualificação profissional do agricultor é exigente. Antigamente, pais alertavam o filho sobre estudar para ser médico, advogado ou engenheiro. Para não ficar na roça e viver da enxada. Hoje é o contrário. Se não estudar agronomia, economia, informática, mecatrônica e áreas afins, não ficará no campo. Buscará um empreguinho na cidade, onde o viver não é preciso.

Como Roma no tempo de Pompeu, o mundo pede por alimentos. Como seus antepassados portugueses, os agricultores brasileiros sabem: para viver, cultivar é preciso. Tecnologias, inteligência e trabalho não lhes faltam. Basta o setor agrofóbico do governo e o ambientalismo radical não atrapalharem. Chega de navegar ao léu. Já passou da hora de descobrir o agro.

Foto: Arquivo pessoal
Evaristo de Miranda foi pesquisador da Embrapa por 42 anos. É escritor, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
Artigo publicado no jornal Correio Popular em 19/4/2026, gentilmente cedido à SNA pelo autor.
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