Nunca Precisamos Tanto do Trigo dos Hermanos. Por Evaristo de Miranda

Sem seguro rural adequado, sem acesso ao crédito com juros estratosféricos, sem segurança jurídica, não há contexto econômico e financeiro favorável aos investimentos no cultivo do trigo. Foto: Canva
“Subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos”.
Nelson Rodrigues

Estimativa de produção nacional

Nunca o Brasil dependeu tanto do trigo argentino. A quebra da safra nacional obrigará o país a importar entre oito e dez milhões de toneladas em 2026, o maior volume de sua história. Este ano, o cenário do trigo é de alta nos custos de produção, redução da área plantada, recuperação dos preços internos e importação recorde da Argentina.

A maior produção anual de trigo do Brasil foi de 9,5 milhões de toneladas, em 2022. Esse volume representou cerca de 76% da demanda interna daquele período, impulsionada por investimentos em tecnologia e aumento da área plantada no Sul.Este ano, a estimativa da produção nacional está em torno de 6,5 milhões de toneladas, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento.É o menor patamar desde 2020.

A principal razão dessa quebra na safra brasileira de trigo em 2026 está na retração na área cultivada para 2,12 milhões de hectares. Uma queda de 13% frente a 2025.Os produtores não estão desistindo do trigo por falta de tecnologia. Sem seguro rural adequado, sem acesso ao crédito com juros estratosféricos, sem segurança jurídica, não há contexto econômico e financeiro favorável aos investimentos no cultivo do trigo.Sobretudo no sofrido mundo rural do Rio Grande do Sul. Ao contrário da soja e do milho, cuja produção segue uma tendência de crescimento constante, o trigo parece caminhar na contramão.

O consumo anual de trigo gira em torno de 12 a 13 milhões de toneladas. Além disso, o Brasil exporta em média de 2 a 3 milhões de toneladas de trigo por ano.Embora não seja autossuficiente e importe o cereal para cobrir seu consumo interno, o país mantém um fluxo regular de vendas externas por questões de logística, qualidade de grãos e oportunidades de mercado global. O trigo exportado pelo Brasil abastece países da América Latina, África e Ásia.

Imagem de grmarc no Freepik

O Brasil exporta parte da sua produção, geralmente logo após a colheita no Sul, para abrir espaço nos armazéns. E importa trigo ao longo do ano, sobretudo da Argentina, para abastecer os moinhos do Sudeste e Nordeste. É assim também com o arroz, a maçã, a carne bovina etc. O país exporta e importa. Há uma grande racionalidade econômica e até social nesse intercâmbio, facilitado no âmbito do Mercosul.

Vantagens tributárias do Mercosul

O volume de importações previsto este ano representa um recorde histórico e consolida a dependência brasileira do trigo argentino para garantir “o pão nosso de cada dia” e a segurança alimentar dos brasileiros.

O Brasil é o sétimo importador mundial de trigo. A Argentina seguirá como principal fornecedora para o Brasil devido àsua elevada produção, à proximidade logística e às vantagens tributárias do Mercosul. O país vizinho possui uma oferta exportável de 15,5 milhões de toneladas, superior a toda a demanda brasileira de trigo.Imagine uma ruptura política ou comercial, com a Argentina decidindo não vender mais trigoao Brasil?

O trigo integra o poderoso complexo agroexportador argentino, ao lado da soja e do milho, responsável pela maior parcela das exportações do país. Um pouco como no Brasil, os produtos agrícolas e alimentares, incluindo leite e carne, representam mais da metade das exportações totais da Argentina. Eles superam com ampla margem os combustíveis minerais e o petróleo (cerca de 9,5% do total exportado).

Os preços internacionais do trigo subiram, acompanhando a valorização dos contratos futuros na Bolsa de Chicago, registrando saltos de cerca de 20%, devido a problemas logísticos globais. Ataques na região do Mar Negro comprometeram o escoamento de grãos da Rússia e da Ucrânia, e elevaram custos de frete marítimo e seguros. O conflito no Oriente Médio gerou volatilidade nas cotações de commodities, encareceu os custos de energia e insumos agrícolas, e pressionou a cadeia de produção e transporte do trigo. Seca e problemas de produtividade nas lavouras dos EUA e da Europa reduziram a expectativa de oferta de trigo do Hemisfério Norte.

Mejor no pelear con los hermanos

O pão nosso de cada dia agradece.Quando falta trigo, falta pão. E não só. A farinha de trigo é a base de macarrão, bolachas, bolos, pizzas, pastéis, pudins, bolinhos… Os desafios do “pão nosso” com a Argentina não param aí. Os moinhos brasileiros enfrentam um dilema técnico. A última safra argentina apresentou baixo teor de proteína. Isso limita seu uso na panificação tradicional e exige a mistura com trigos de outras origens ou corretivos.

Não há risco de desabastecimento no Brasil. A forte necessidade de importação, aliada a preços internacionais firmes, tende a encarecer a farinha e os derivados no mercado interno ao longo do ano. Isso manterá uma pressão inflacionária sobre os preços no varejo.

Ao contrário do “alarmismo climático” em parte da mídia sobre o El Niño, o clima se manteve bastante estável no Sudeste e em parte do Sul. Neste início de agosto, o plantio nacional está praticamente concluído, com a maior parte das lavouras em fase de desenvolvimento vegetativo satisfatório. O tempo firme predominou no Centro-Sul e impulsionouboas condições para os tratos culturais. A boa disponibilidade de umidade inicial, quase típica em anos de El Niño,ajudou na sanidade das lavouras e evitou perdas precoces em grande parte das regiões produtoras.

O Rio Grande do Sul, maior produtor nacional, completou a semeadura e o desenvolvimento vegetativo foi parcialmente freado por excesso de chuvas. No Paraná, o predomínio de tempo firme garantiu a conclusão adequada do plantio e boas condições gerais às lavouras. Em Santa Catarina, a semeadura avança na reta final com auxílio de um clima favorável para as operações de campo. Em São Paulo, o clima também ajudou a manter condições bastante favoráveis, com umidade adequada no solo e ausência de registros severos de geadas na reta final de enchimento de grãos.

Os custos de produção seguem pressionados. Fertilizantes, sobretudo ureia, defensivos agrícolas e custos logísticos continuam elevados. Fatores geopolíticos globais, não a tecnologia, limitam o lucro dos produtores.

Os preços de mercado estão em alta. A menor oferta nacional da safra velha sustenta as cotações em patamares firmes.Para os analistas do mercado de trigo,os preços na colheita da nova safra devem oscilar entre R$ 1.350 e R$ 1.500 por tonelada. Apenas produtores eficientes e focados em grãos de alta qualidade conseguirão as melhores remunerações.

A produtividade média estimada para este ano é de 2.978 kg/ha. Esse é um valor dentro dos patamares médios dos últimos anos. A produtividade do trigo aumenta constantemente. Na década de 1990, a média era de 1,5 ton/ha. Na de 2000, chegou a 2,5 ton/ha, quase 70% a mais. Hoje, as melhores lavouras já superam 5 ton/ha nas regiões produtoras. No Cerrado, sob irrigação, com variedades da Embrapa, como a BRS 264, produtores atingem mais de 9 ton/ha, verdadeiro recorde mundial de produtividade.

Experimentos da Embrapa Trigo e parceiros comprovam o potencial do trigo tropical de sequeiro em Roraima, Piauí, Maranhão, Alagoas e Ceará. Algo inimaginável tempos atrás. É a demonstração da capacidade científica de adaptar o trigo às condições tropicais, como ocorreu com a soja e suas variedades adaptadas até ao clima equatorial. O trigo avança, graças às melhores tecnologias de produção, ao empreendedorismo e à competência dos agricultores. Faltam políticas adequadas, condições econômicas favoráveis e um mínimo de segurança financeira para ampliar os plantios.

O agronegócio é a principal âncora da balança comercial da Argentina, como é no Brasil. A segurança e a soberania alimentar em trigo estão ao alcance dos tratores e das mãos dos produtores brasileiros. A Embrapa estima possível produzir até 22 milhões de toneladas/ano de trigo no Brasil. Isso triplicaria a produção atual e tornaria o país um dos dez maiores exportadores de trigo. O país deveria adotar novas políticas macroeconômicas e agrícolas, menos agrofóbicas, além dos mecanismos financeiros necessários para expandir a produção tritícola nacional.O Brasil precisa de mais trigo. Mais pão. Menos bolsas e circos.

A conhecida expressão “pão e circo” (panem et circenses) foi usada pelo poeta satírico romano Juvenal (Decimus Iunius Iuvenalis) para denunciar a distribuição de pão e a organização de jogos pelos imperadores romanos para desviar a atenção dos cidadãos de outras preocupações importantes. No circo político atual do Brasil, o pão das bolsas, do assistencialismo edo clientelismotem sido usado para desviar a atenção dos legítimos problemas e de suas verdadeiras soluções.

Somos hermanos e companheiros no sentido original da palavra: aqueles com quem se reparte o pão (cum panis). O Brasil não depende do trigo da Argentina por incapacidade agronômica ou dos produtores. Depende de escolhas econômicas, institucionais e das políticas governamentais.Em tempos de retórica eleitoral, convém lembrar: a segurança alimentar não se improvisa. Produz-se com ciência, tecnologia, agricultores e políticas públicas consistentes. O restante pertence ao circo.E o subdesenvolvimento continua sua obra de séculos.

Evaristo de Miranda foi pesquisador da Embrapa por 43 anos. É escritor, doutor em Ecologia e membro da Academia Nacional de Agricultura da SNA.
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Artigo publicado originalmente  na Fundação Maurício Grabois, gentilmente cedido pelo autor à SNA.
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